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domingo, 11 de setembro de 2011

NOSSAS IN -DEPENDÊNCIAS da DONA MORTE em 11/09/11


Imagem Publicada - a capa de DVD do fime "11"09'01", realizado por 11 diretores de diferentes nacionalidades, culturas e pontos de vista acerca do ataque terrorista às Torres do WTC, em Nova York, em 11 de setembro de 2001. São episódios de curta duração, alguns minutos que condensam a sensibilidade e a diversidade humana diante de tragédias coletivas. A capa traz recortes, fotográficos, dos episódios, como se fossem as torres gêmeas, e o nome de todos os 11diretores de cinema abaixo do título,11 de Setembro, em letras vermelhas.


Caríssima e sempre atemorizadora Sra.
Dona Morte

Assisti muito pouco da cerimônia de homenagem aos mortos das duas torres. Apenas observei, quando despertava de mais uma noite mal dormida, por minhas dores, que as dores dos familiares ainda estavam presentes nesse espetáculo-lembrança. Lá estavam,atrás de vidro blindado, os presidentes, o passado Bush e a atualidade Obama.

Cara Dona Morte, ultimamente reforçou-se em mim as lembranças de um velho livro: A NEGAÇÃO DA MORTE. Nele seu autor, Ernest Becker nos traz uma das mais preciosas leituras sobre as nossas in-dependências da morte. Nele se explica um pouco do modelo norteamericano agora reificado e midiatizado, a transformação de nossos heroísmos codificados em solução para as nossas mortes em massa. Apesar de querermos ser livres na sua presença oculta em nós, por temor e terror, somos seus melhores aliados quando se fala sobre e com as massas.

Se estivesse podendo convidá-la para assistir a uma boa reflexão sobre nossos modos biopolíticos de lidar com esse evento, a queda do World Trade Center, a convidaria para assistir o filme coletivo ''11'09''01". Esse precioso trabalho foi realizado pelos cineastas: Samira Makhamalbaf (Irã), Claude Lelouch (França), Youssef Chahine (Egito), Danis Tanovic (Bósnia), Idrissa Ouedraogo (Burkina Faso), Ken Loach (Reino Unido), Alejandro González Iñárritu (México), Amos Gitai (Israel), Mira Nair (Índia), Sean Penn (EUA) e Shohei Imamura (Japão).

Já citei a beleza e reverência, sem extensão, ao episódio construído pela direção de Samira Makhamalbaf. Eu a citei no meu texto em homenagem aos professores: Um pedaço de giz na lousa digital. O que esta cineasta iraniana nos traz é um pouco mais de reflexão, quiçá o melhor e mais ético episódio do filme, através de uma professora cheia de realismo.

Tudo começa em uma olaria, um local pobre, na fronteira do Irã, onde um homem morre ao cair em um poço. O importante, a seguir, é o que a professora faz para chamar a atenção das crianças que estão amassando barro. Ela vem distribuindo livros. Eles, então, se reunem em um espaço onde se sentam sobre o chão. O quadro negro é precário, e nele a professora representará do que ocorreu naquele dia 11 de setembro de 2011.

Essa professora de Samira interroga aos seus alunos, assim como aos espectadores, se sabem o que aconteceu de importante nessa data. Elas, respondem sobre a presença concreta de sua dignissima pessoa: a Dona Morte. Uma menina fala dos homens que cairam no poço em busca da água, quando um deles morreu, e outra da sua tia que foi morta apedrejada por talebans no Afeganistão. São todos alí um resultado das guerras e dos processos geopolíticos de migração após as mesmas.

A naturalização de sua presença, Dona Morte, faz com que essas crianças só conheçam um presente muito fugaz. Estão fazendo tijolos para se abrigarem de ''bombas'' que podem ter de enfrentar logo depois de suas aulas. Afinal lá também se temem homens-bombas e exércitos estrangeiros.

Dona M., se assim posso lhe chamar, ficam explicados pelo realismo de Samira a sua atividade criativa de Vida naquela aldeia miserável do Irã. Lá onde, até hoje, refugiados afegãos esperam uma espécie de ''solução final". Porém lá não há campos de extermínio eficazes como os nazi-fascistas. Lá só permanecem campos de exílio ou de refúgio.

A persistente e resiliente professora é um baluarte da compreensão que todos deveríamos ter. Ela instiga seus educandos, com os pés descalços, a responder o que aconteceu lá longe. Ela lhes conta das torres gêmeas. As crianças afegãs não conhecem torres imperiais. Ela lhes mostra então as chaminés, fumegantes, feitas de tijolo.

Se nos transportamos para este cenário, se nos sentarmos naquele chão batido e sofrido, talvez respondessemos como as crianças, de 5 para 6 anos. Diríamos que foi Deus que destruiu as torres. Porém uma das crianças retruca que não foi, pois 'Deus não destrói as coisas, mas apenas os homens', nós a parte carnal de sua criação. Teríamos, então, uma boa discussão politica e teológica, e, quem sabe, encontraríamos as respostas sobre o que os terroristas em aviões pensaram minutos antes de obrigarem dois aviões causarem aquela demolição do símbolo máximo dos EUA.

Creio como Becker que estes estavam imbuídos, no seus fanatismos, do contrário que as crianças refletem nesse lindo episódio fílmico. Eles, sob a alegação do extremismo ideológico, passam a se crerem também ''superiores'' àqueles que devem exterminar. Repetem como os criadores de câmaras de gás ou de cremação a mesma transformação em Vidas Nuas a existência de um Outro e suas diferenças a destruir.

Houve um outro 11 de setembro a para não apagar da História, lá no Chile também se praticou esse tipo de terrorismo e ideologia da superioridade. Lá o extermínio foi iniciado em campos de futebol.

Digo-lhe, então, que os Pinochets tornam-se muito próximos de nós, independente de sua nacionalidade, seja o recente terrorista Breivik (ing) ou de nosso exterminador da Escola de Realengo. Todos acreditam não ter medo da Senhora Dona Morte. Ao contrário, eram, são e serão seus adoradores, psicopaticamente, tendo-a como uma redenção de suas próprias vidas amargas.

Os extremistas, em seus narcisismos das pequenas diferenças negam as vias políticas para resolução dos messianismos ou dos fundamentalismos. Aproximam-se de mártires religiosos e crêem, piamente, em suas 'outras vidas'.

O que Samira Makhamalbaf faz com sua micropolítica representada por seus ''alunos'' afegãos é romper, silenciosamente, com esta visão. Ela aponta o medo que temos da Dona Morte e por isso precisamos, artesanalmente, de amassar o barro, endurecê-lo e com ele construirmos, juntos, um minuto, apenas um minuto de reverência a Morte do Outro, dos Outros, mesmo que nomeados "nossos inimigos". Não importa quantos quilômetros nos separem no mundo globalizado. Somos todos "vizinhos-próximos" da Senhora Dona Morte.

Por isso, Dona Morte, mesmo que, assombradamente me pertube, nos últimos dias, levando-me parte de meu coração, ainda quero me afastar das soluções geradas pelo ''terror'' de sua vinda e presença. Prefiro reler e revisar minhas leituras dos anos 70, como o livro de Becker, ou procurar uma resposta em afirmações de vida, sem as prerrogativas de encontrar meus entes queridos em "outra vida''. A vida feita em tijolos é ainda a realidade que gostaria de mudar.

Não creio, como solução, nas demolições de torres ou em campos de concentração, de extermínio ou Guantanamos da vida. Quanto mais deixarmos de temê-la e propagá-la como temor, Dona Morte, mais vidas lhe obrigaremos a não ceifar.

Aos que me deixam, quando a Senhora ganha terreno e nos obriga a reconhecer sua irreversibilidade, dedico hoje minha reverência pessoal. Dedico ainda a minha reverência, como Samira, aos que sobre-vivem indefesos para além de vidros blindados. Dedico minha total e silenciosa consternação aos que ainda estão morrendo por tentarem salvar das cinzas os que tombaram nas torres. E deixo para todos e todas o convite à reflexão, não distanciada, dos outros episódios dos diretores do filme "11'09''01".

Dona Morte há nesse filme, também, o que nos pode salvar. É o humor do diretor Idrissa Quedraogo, que nos traz também crianças como protagonistas principais. Eles são os meninos que crêem, à época, terem visto Osama Bin Laden, e partem para a sua captura, pois, afinal, sua cabeça custava mais de $25 milhões de dólares. E, nós, os que vivem abaixo do Equador, principalmente em Burkina Fasso, sonhamos em sair da miséria, comer bem, vestir um sapato e até andar de ''cadilacs''...

Portanto caríssima senhora, envio mais esta missiva, em tempos de criação de anti-heróis na vida prática, com a permanência de busca de heróis que possam morrer de overdose, para que a distinta possa nos assolar menos, dando-nos um tempinho para tomar fôlego para aprendermos a reconstruir nossas metas e criarmos nossas novas cartografias e ecosofias aliadas. Em tempos de GPS e localização imediata de onde estamos geograficamente, ainda não respondemos a algumas perguntas:

"Na misteriosa rota em que a vida nos é concedida na evolução deste planeta, isso nos empurra na direção de nossa própria expansão. Não o compreendemos simplesmente por não conhecermos a finalidade da criação; somente sentimos a vida latejando em nós e vencemos os outros enquanto se entredevoram. A vida tenta propagar-se em uma direção desconhecida por motivos desconhecidos..." (Ernest Becker)

Texto em homenagem póstuma a um ''índio'' da floresta amazônica que amava a floresta da Tijuca e o Rio de Janeiro... e lá se despediu em
busca de seu abraço, apenas por amor...

copyright jorgemarciopereiradeandrade 2011-2012 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)

FILME - ''11'09'01'' - França - 2002 -
 http://cinema.terra.com.br/ficha-filme/0,,OI678-EI1176,00+11+de+Setembro.html
VIDEO NO YOUTUBE http://www.youtube.com/watch?v=7vrSq4cievs

Referências no texto: A NEGAÇÃO DA MORTE - Ernest Becker - Editora Círculo do Livro, São Paulo, SP, 1977.

Leia também no BLOG
UM PEDAÇO DE GIZ NA LOUSA DIGITAL -
http://cinema.terra.com.br/ficha-filme/0,,OI678-EI1176,00+11+de+Setembro.html

A MORTE DO FANÁTICO NÃO MATOU O FANATISMO - http://infoativodefnet.blogspot.com/2011/04/morte-do-fanatico-nao-matou-o-fanatismo.html

A TOLERÂNCIA É MAIS QUE UM FEIJÃO COM ARROZ NO MEU BACALHAU? - http://infoativodefnet.blogspot.com/2011/07/tolerancia-e-mais-que-um-bacalhau-no.html

AOS PAIS QUE APRENDERAM COM (AR)DOR AS PERDAS - http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/08/aos-pais-que-aprenderam-com-ar-dor-as.html

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A TOLERÂNCIA É MAIS QUE UM BACALHAU NO MEU FEIJÃO COM ARROZ ? em busca da Empatia , para além da Antipatia...


Imagem publicada - a capa de um dvd do filme: "Arn,o Cavaleiro Templário", com o ator empunhando um espada, vestindo uma armadura e vestes brancas, manchadas de sangue, com o símbolo da Cruz que os cavaleiros templários ostentavam e defendiam nas Cruzadas. Este filme me retornou à mente após o atentado da Noruega, pois se trata de um conto de poder, coragem e traição, ambientado na Suécia, conta a inesquecível história de amor de Arn Magnussson, jovem culto e exímio esgrimista, e Cecilia, separados pela guerra entre cristãos e muçulmanos, quando ele é enviado como cavaleiro templário para a Terra Santa. A capa traz escrito: "a missão de um heróico cavaleiro nas sangrentas cruzadas", que justificaram, e ainda justificam, as ações de invasão, guerra e destruição dos que foram os primeiros acusados do que ocorreu em Oslo e na Ilha Utoeya. É a mesma cruz dos cavaleiros estampada no texto que o assassino e terrorista norueguês colocou na capa de seu Manifesto da Internet.(An European Declaration of Independence - 2083" Uma declaração de Independência Europeia - 2083)...

...em busca da Empatia , para além da Antipatia...

Eu confesso, não como bacalhau. Isso mesmo não posso nem com o seu cheiro à mesa, principalmente quando rodeado de boas batatas e muitos outros legumes, inclusive com meu idolatrado azeite extra virgem. Mas uma coisa é não gostar do bacalhau da Noruega. A outra é tornar todos os ''noruegueses, portugueses, espanhóis ou europeus'' que gostam deste prato em suas mesas, em motivo de repulsa, ódio, nojo, desgosto ou ''alguma coisa que não consigo engolir...''. Não podemos tornar nossos pratos, culturalmente identificatórios, em motivo para alimentar nossos fanatismos ou narcisismos de pequenas diferenças. Há muitos que não comem feijoada, principalmente, nesse momento, na Somália. 


O viking templário nos trouxe volta para a questão da tolerância. E fui buscar meus pensamentos sobre o tema. Descobri que já apresentei um texto de antevisão sobre estes seres humanos que confundem suas visões fascistas com a forma que cada um vê, experimenta e usufrui da Vida. Meu texto escrito para uma conferência em julho de 2006 já me colocava uma interrogação: Telepatia, Empatia ou Antipatia: por onde caminhamos nas trilhas da Diferença? Já o reproduzi, em parte, no meu texto A Máquina da Empatia.

Apresentei-o no XV Congresso de Leitura do Brasil. Na ocasião se discutia a temática deste importante evento. Era um "encontro que se propunha pensar as “crianças mudas telepáticas” em nós e para além das hecatombes e violências do cotidiano precisamos buscar um ‘metadiálogo’, ou seja uma conversa acerca deste problemático caminhar nas trilhas da diferença em um tempo de homogeneização e de produção serializada de subjetividades. 


Nossas trilhas das Antipatias se acentuaram, agora gritam para além das paredes de uma Escola em Realengo, escapando dos seus muros, agora sob vigilância, embora no esquecimento público. No texto de 2006 eu já afirmava: ... [naquele] Congresso que aponta(va) para as Crianças Mudas Telepáticas é (era) o desejo de uma maior implicação com a transformação da irredutibilidade dos processos de exclusão, assim colocados quando naturalizados, bem como dos processos de inclusão que podem nos fazer crer, a ferro e a fogo, que o melhor para os diferentes é torná-los ‘normais’...


Era e é um ato de fragmentação ou de glorificação de identidades, que o recente atentado da Noruega nos reapresentou. Hoje, reassistimos, telepaticamente, a busca da homegeneização e a negação das diferenças culturais. Tudo em nome de uma suposta diversidade cultural euro e egocêntrica de apenas um homem: Anders Behring Breivik. Ele me provoca novamente: por onde caminhamos nas trilhas da Diferença?


Trabalhei, agora repenso, com essas 3 palavras ao léu, três movimentos, três ações que podemos realizar no tabuleiro do xadrez das relações humanas. E, neste sentido, os desejos da distância (tele), do dentro e do mesmo (empático) ou de uma maior exclusão (antipática,) nesta época do apagamento das distâncias geográficas, poderão nos conduzir a uma falsa empatia, encobridora da antipatia e da xenofobia que estes Outros diferentes, próximos distantes nos causam..., com os quais só teríamos futuros contatos virtuais e telepáticos? 


O jovem cristão norueguês, lamentavelmente, confirmou meus temores e angústias diante dos olhares e ideologias de exclusão que já se alimentavam, como o Ovo da Serpente, há muito tempo.

A tolerância vem se tornando cada dia mais uma resultante, ou melhor, uma atitude reativa à intolerância, principalmente a que nos é provocada pela violência, pelos movimentos xenofóbicos, homofóbicos, pelo racismo, pela discriminação de pessoas com deficiência, pela segregação de pessoas com transtornos mentais, enfim, todos os movimentos que alicerçam as desigualdades sociais e promovem a Exclusão. 

Os nossos ''políticos'' de ''direita'' andam fazendo sua parte nessa Terra Brasilis, onde, na cabeça e no bolso nada rico de inclusão, conhecimentos e afetos, alimentamos nossas pequenas e latinas intolerâncias.

Mas como combater todos estes “males ou defeitos” se estão enraizados em nossas mentes e corações como preconceitos permanentes contra toda forma de alteridade ou diferença? O Outro é sempre um alienígena que virá nos destruir ou tomar a nossa querida e preciosa Terra. 

Continuamos, eurocentricamente bem educados, angustiados com a ''invasão'' de nossos pequenos territórios, nossas pequenas ''propriedades'', nossos castelos narcisistas, onde o ideal é erradicar os que denominaremos como o ''mal'' ou como uma ''anormalidade ou disfunção''.

O Outro sempre visto como o ‘mal’, tornou-se radicalmente uma invenção maléfica, como o disse Frederick Jameson: “o mal é caracterizado por qualquer coisa que seja radicalmente diferente de mim, qualquer coisa que, em virtude precisamente dessa diferença, pareça constituir uma ameaça real e urgente a minha própria existência....” , assim sendo podemos localizar os “bárbaros” fora de nossa sacrossanta e pura imagem de nós mesmos. Nascem as 'guerras santas'...

Os que não são idênticos a mim, pertençam a minha gang, classe, etnia ou utopia devem ser excluídos. E, afinal ‘malvados’ sempre serão os outros, que podem ser tanto um índio, um negro, um morador de rua, um doente mental, um favelado, um deficiente intelectual ou alguém que é estranho ou fala uma outra língua,ou come pratos considerados exóticos para minha outra língua...

O manifesto do jovem cavaleiro templário norueguês, com sua cruz na capa de seu manifesto pré-terror, nos recoloca, na Idade Mídia, dentro da cultura do Medo. Ele ataca sua própria gente e ''raça Viking''. No seu radicalismo eugênico e racista busca eliminar com uma bomba, simbolicamente o Estado multicultural e progressista.

Ele, fantasiado de policial ou guerreiro, é o mesmo que explode balas especiais nos corpos jovens de um Partido Trabalhista. Planejada e meticulosamente construiu o "mal" a ser exterminado. Projetou-o nos jovens da ilha, o mesmo que, textualmente, havia projetado nos estrangeiros, inclusive nós brasileiros. Os colonizados ou os ''infiéis' podem contaminar sua terra, seu povo, seu país e toda a Europa. 

Por aqui, na Terra Brasilis, os extermínios também podem estar usando fardas ou uniformes. Não somo menos violentos e mortais do que os países que preferem o bacalhau à feijoada oriunda de senzalas. Temos, temporariamente, um momento de empatia com os que são violentados ou morrem nessas espetaculares ações de terror. Mas depois nos esquecemos da Chacina da Candelária, de Realengo, da Zona Leste, do Jardim Ângela e outros espaços de marginalização, miséria ou desfiliação social.

O sofrimento momentâneo com o ''mal'' pode, por efeito anestésico e midiático, tornar-se uma naturalização. Aceitamos e nos ressignamos, apoiados em ideologias ou religiões, a presença de novas Cruzadas, batalhões de choque ou choques de ordem. A presença de uma dimensão macropolítica nos atos de fanatismos são banalizadas. E, saímos, à caça de explicações de especialistas sobre o desenvolvimento de novos/arcaicos fanatismos.

As xenofobias, as homofobias, os racismos, as intolerâncias, os sexismos, as discriminações ou segregações se alimentam do mesmo prato. Não é o bacalhau ou a feijoada. Estas se alimentam de ideologias duras que impedem o livre pensar, a crítica, a estética, e, finalmente a ética. É quando a não reflexão sobre nossas novas 'barbáries', imersos numa sociedade hipercapitalista, perversa e histérica, nos abre nos inconscientes, individual e coletivamente, as brechas para as paranóias fascistantes. Thanatós não pode ocupar todo o campo social ou vital de cada um e de todos nós.

A Tolerância que tem até um dia mundial, em 16 de novembro, bem perto do dia de Zumbi e da Consciência Negra, não é, portanto, um bacalhau a ser engolido, antipaticamente, com o meu/seu, aparentemente ''pobre e indigesto'', feijão com arroz de um país miscigenado, que nega sua cor de feijão preto. 

A "mardita tolerância" (insustentável? impossível? imaginária?), por ser uma criação humana para a convivência de diferenças, ao ser educacionalmente discutida nos faz, por exemplo, entender que há muitos pratos vazios, como os de outros negros, haitianos ou africanos, que produzem tantas mortes em série ou de massa quanto um massacre em um país considerado nórdico e civilizado. 

Eis algo que poderia nos gerar alguma forma empatia e, quem sabe, um aprendizado da árdua, quase impossível, harmonia nas diferenças... Eu, você, seu vizinho, o que vem de fora, os estrangeiros, os Outros, e, principalmente, os diferentes, poderemos tentar respeitar e re-conhecer outras formas de se alimentar ou viver. 

Isso, para além das antipatias, pode ser realizado, desde que a dignidade e autonomia de escolha superem todas as homogeneizações, todas as cristalizações fascistantes, todas as nossas negações do que há de político em qualquer forma de atentado à Vida...


copyright jorgemarciopereiradeandrade 2011/2021 ad infinitum (favor citar o autor e fontes em republicações livre na Internet ou outros meios de comunicação de massa)

Indicações para reflexão:
Em manifesto, atirador norueguês diz que Brasil é um país "disfuncional"
http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/internacional/2011/07/25/em-manifesto-atirador-noruegues-diz-que-mistura-de-racas-fez-do-brasil-um-pais-disfuncional.jhtm

Atentado na Noruega -Textos publicados na internet planejavam a "queda de Oslo"- http://www.ionline.pt/conteudo/139545-textos-publicados-na-internet-planeavam-queda-oslo

Noruega - http://pt.wikipedia.org/wiki/Noruega
Tolerância - http://pt.wikipedia.org/wiki/Toler%C3%A2ncia

Filme: Arn, o Cavaleiro Templário - http://pt.wikipedia.org/wiki/Arn:_The_Knight_Templar

Holocausto Cigano: uma tragédia que o mundo esqueceu 
http://unisinos.br/blogs/ndh/2014/05/28/holocausto-cigano-a-tragedia-que-o-mundo-esqueceu/

LEIA TAMBÉM NO BLOG:
A MÁQUINA DA EMPATIA - incluindo a reinvenção do Outro
https://infoativodefnet.blogspot.com/2010/12/maquina-da-empatia-incluindo-reinvencao.html

A MORTE DO FANÁTICO NÃO MATOU O FANATISMO https://isnfoativodefnet.blogspot.com/2011/04/morte-do-fanatico-nao-matou-o-fanatismo.html

DEMOLINDO PRECONCEITOS, RE-CONHECENDO A INTOLERÂNCIA E A DESINFORMAÇÃO 
https://infoativodefnet.blogspot.com/2011/06/demolindo-preconceitos-re-conhecendo.html

ADEUS ÁS ARMAS: SEM TIROS NO FUTURO OU CEM TIROS? 
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/05/adeus-as-armas-sem-tiros-no-futuro-ou.html

quinta-feira, 2 de junho de 2011

DEMOLINDO PRECONCEITOS, RE-CONHECENDO A INTOLERÂNCIA E A DESINFORMAÇÃO


imagem publicada - a foto de capa do filme alemão A Onda, de Dennis Gansel, baseado em fatos verídicos ocorridos em 1967, nos EUA, onde um professor de costas, com camisa branca, fala em assembléia escolar para um grupo de seus alunos, todos vestidos de camisas brancas, uniformemente, após uma tentativa do mestre de ensinar o que é Autocracia. Devido ao desinteresse dos jovens, no ensino médio, ele propõe um experimento grupal que explique, na prática, os mecanismos do fascismo e do poder. O professor Wegner se denomina o líder daquele grupo, escolhendo o lema "força pela disciplina" e dá ao movimento o nome de A Onda. Um filme que merece discussão e reflexão sobre a presença de um personagem muito próximo do que se tornou o jovem Wellington na Escola Tasso, em Realengo... Incita-nos a perguntar se os fascimos podem ser replicados e reatualizarem-se?


Recebi um comentário no blog que me reforçou o desejo da escrita. O amigo Vinicius Garcia foi quem me apontou uma tríade de palavras inbricadas: os preconceitos, a desinformação e a intolerância. Este comentário se somou ao que já vinha pensando sobre os mais recentes preconceitos que se difundiram pelas Mídias e sua Idade Mídia Global. 


O momento, com as hiperexposições e des-informações por segundo, exige, portanto, uma reflexão sobre os conservadorismos e, principalmente, sobre os microfascismos que se manifestam contra os movimentos, marchas, legislações e protestos anti-homofobia e anti-racismos, por exemplo.

A questão do preconceito já estava fervendo na ponta digital de minha ''pena''. Escrevo para o Vinicius e outros companheiros da Vida Independente, com esta pena/escrevinhadora, hoje um teclado, que nos tempos das missivas permitiu muitas revoluções, mas também foi o instrumento de alicerce de alguns preconceitos que ainda nos transversalizam. Foi a escrita que perenizou alguns dos mais renomados textos sobre formas de segregar, excluir e penalizar/exterminar as diferenças marginalizadas.

Como dizem, hiperbólicamente: correram muitos rios de sangue, tortura e fogo, desde o Malleus Maleficarum (o martelo das Bruxas), dos tempos de Inquisição, até os textos que os eugenistas, nazistas e outros ''istas'' nos legaram. E o fogo que, outrora, incendiou as bruxas tornou-se câmaras de gás, e os métodos de tortura agora se aprimoram em novos campos de exceção imperialistas.

Um exemplo do processo de formação e construção do preconceito vem por exemplo da idéia de ''raça pura''. A releitura de um excelente texto sobre o tema é o livro de Pietra Diwan, que o sobrenome me atrai pelo homônimo divã. Um divã onde o livro traz a tona um personagem do movimento eugênico brasileiro: o médico e farmacêutico Renato Kehl. Este senhor teve muitos amigos ilustres. E muitos eram escritores famosos. O que mais me tocou foi a sua relação estreita com o ''nosso'' Monteiro Lobato. O livro Raça Pura é, por isso, hoje um motivo de constantes re-leituras de meus conceitos e pré-conceitos.

O que você(s) pensaria(m), se pudesse(m) controlar seus pre-conceitos, ao ler o que Lobato afirmou? O nosso escritor escreveu: "[...] país que nasce torto não endireita nem a pau. A receita [...] para consertar o Brasil é a única que me parece eficaz. Um terremoto de 15 dias, para afofar a terra; e uma chuva de... adubo humano de outros 15 dias, para adubá-la. E começa tudo de novo. Perfeita, não?". 

Esta é uma parte de uma missiva (carta) de Lobato para Kehl, que teve seu livro " A Cura da Fealdade" publicado, em 1923, trazendo na sua capa o subtítulo: Eugenia e Medicina Social. Logo abaixo do título pode-se ler: "A sciencia de Galton é o pedestal da religião que tem por escopo a regeneração da humanidade''. Um livro publicado por Monteiro Lobato&Co. Editores, em 1923, São Paulo, SP.

Espero que esta informação tenha os tenha chocado assim como me chocou. Eu que li toda a obra, ainda nos tempos da ''escola primária'' pude constatar o motivo do banimento hoje dos pré-conceitos lobatianos do ensino fundamental brasileiro. Espero, também, que incomode aos que estão negando a presença de preconceitos e de racismos, ora sutis ora gritantes, na obra do autor reconhecido.

Acredito e desejo que tenhamos desenvolvido uma crítica, que até poderá ser chamada de preconceituosa, sobre o uso da escrita e da informação para fins ideológicos e intolerantes. Alguns defenderão que a época era propícia para estes posicionamentos ou crenças. Mas assim se defenderam os defensores da Ku-Klux-Kan e dos Apartheids. Assim se defendem os deputados racistas, saudosos dos Anos de Chumbo, ou evangélicos homofóbicos, temerosos. 

Os anos 20 e 30 do século passado ainda estão presentes no século XXI. Temos, porém, de relembrar que nesse mesmo período e época é que se desenvolvem os melhores escritos de pensadores como Freud e alguns outros demolidores de preconceitos. Nessa direção é que deve-se pensar a raíz dos preconceitos e da intolerância. Estas raízes sâo e foram apenas a utilização da des-informação dos ''cultos'', e podia se tornar um simulacro. 

Nossos ''escritores'', como os eugenistas, construiam teses, ocupavam espaços das letras e da cultura. Eles eram impregnados pelas informações, a maioria de origem eurocêntricas e racistas, e as torciam ou distorciam de acordo com os mais arraigados pre-conceitos em suas mentes e vidas. O contágio de idéias de eugenia e higiene mental caminharam, abertamente, de braços dados nos primeiros anos do século XX. A medicina e a educação estiveram mais unidas do que antes na busca de "um povo branco e eugenicamente belo".

Talvez, com um pouco de paciência e persistência, possamos reencontrar nos discursos atualizados por deputados ou moralistas religiosos a pretensa Sociedade Eugênica de Kehl ou Lobato. Os eugenistas tinham, assim como uma Onda higienizadora, como pretensão: "Os intuitos da doutrina eugênica podem ser resumidos nos itens: 1º- fazer com que pessoas bem dotadas (geneticamente) ou, mais claramente, as pessoas fortes, equilibradas, inteligentes, portanto de linhagem hereditária sadia, tenham o maior número de filhos; 2º - que as pessoas inferiormente apresentáveis (doentes, taradas e miseráveis) não tenham filhos." 

Hoje, biopoliticamente classificado, permanecem em uma multidão de 16 milhões dos que sobrevivem na ''pobreza extrema'', na sua maioria composta por negros e pardos. Essa multidão deve ser erradicada. Com ou sem preconceitos? 

Como vemos a questão do preconceito tem e teve muitas nascentes. A gênese que me interessa é a que parte dos nossos âmagos, aquela que se entorpece e se alimenta de nossas estranhas entranhas humanas. É o que fazemos quando naturalizamos o que nos é ensinado e transmitido, sem construção crítica e auto-crítica. 

O melhor exemplo é que fazemos com as famosas frases de senso comum, aquelas que até o criador do Sítio do Picapau Amarelo torna em ''verdades universais'', como a de que nós brasileiros e o nosso país ''já nascemos tortos'', ou melhor deficientes ou anormais. E como devemos, preconceituosamente, sermos ''endireitados''? Tornando nossos olhos azuis e nossos cabelos ''ruins'' em longas e lisas cabeleiras nórdicas ou arianas?

Milton Santos nos indica uma reflexão indispensável sobre as Cidadanias Mutiladas no processo brasileiro de construção de sujeitos políticos. Ele afirma que: "A instrução superior não é garantia de individualidade superior. A cidadania não é garantia de individualidade forte. Nem a individualidade forte é garantia de cidadania e liberdade...". 
Assim como é, diz ele, ''o meu caso'', pois: "O meu caso é como de todos os negros deste país, exceto quando apontado como exceção. E ser apontado como exceção, além de ser constrangedor para aquele que o é, constitui algo momentaneo, impermantente, resultado de uma integração casual."

Por isso é que afirmo, apesar de minha instrução ''superior'', que devo ser ainda, por alguns, visto e lido como uma 'diferença' ou exceção. E, aí residem as prováveis análises das situações de preconceito no Brasil. Estas devem ser fundamentadas em um estudo da formação sócio-econômica brasileira. 

Eis um tema ao qual o amigo Vinicius tem como predileção e investigação. Mas ele também pode vir a ser visto como exceção. A sua condição de um economista com uma deficiência física pode ocupar a mesma noção de superioridade em um tempo, se falarmos dele como um Doutor da Unicamp, porém, em nossas mentes preconceituosamente alimentadas, podemos mantê-lo preso a sua cadeira de rodas e à inferiorização dos eugenistas por sua condição diferenciada.

Nesse instante, a Tv nos anunciam o programa do Governo de ''erradicação da pobreza extrema" e a construção de novos mapeamentos da miséria brasileira. Louvável, se pudermos aliar a esta ação biopolítica o reconhecimento da manutenção das misérias humanas que se alimentam vorazmente dos preconceitos, da intolerância e, em tempos midiatizáveis da Era do Acesso, da desinformação e alienação de milhares de cidadãos e cidadãs.

Há, para além de macropolíticas, a presença de um clima internacional contra as raças consideradas ''inferiores''. A intolerância vai além da raças e etnias. Os preconceitos se retroalimentam na globalização e no fomento de guerras de falsa liberação das ditaduras, a exemplo da Líbia. Por isso, perversamente, naturalizam-se os preconceitos, os racismos e as discriminações. Eles continuam a ser os ''bárbaros'' e nós, ocidentalmente, os ''civilizadores''? A fome de lá é diferente da fome de cá?

Nós temos também fome de um outro modo de aprender sobre a exclusão social. O que seria um grande aliado deste programa será a garantia, além da água, do saneamento e da moradia, deve ser a indispensável inclusão escolar. 

É urgente a afirmação de uma educação em e para os Direitos Humanos. Eis, a meu ver, um antídoto a ser aplicado a todos e todas na construção de uma erradicação do melhor fermento para os preconceitos: a idéia de que os mais pobres são e serão sempre ignorantes, portanto, eugenicamente inferiores. 

E aplicado o antídoto inclusivista, quem sabe a Terra Brasilis não se abalará por ''tremores lobatianos'' para afofar o solo e sepultar essas massas. Essas massas humanas que tanto incomodam aos mais abastados e ricos, a exemplo do metrô em Higienópolis, assim como aos mais extremistas que repetem discursos fascistas, xenofóbicos, homofóbicos ou racistas.

Que tal, implicado ao Plano Brasil Sem Miséria, termos um plano ativo de um Brasil Livre dos Preconceitos? ou isso nos custa, individual e coletivamente, um esforço que vai além dos recursos econômicos? O Brasil pode ter nascido torto, como a árvore que deu nome, como muitos dos ''defeituosos'' e suas raízes genéticas, mas não será seu "endireitamento" que trará soluções, nem micro e nem macropolíticas, mas sim uma construção ativa de novos e reais espaços de liberdade e dignidade... 

E,então,nascida nas escolas, nas esquinas, nas ruas e nas mentes... E todas as marchas serão respeitadas e diferenciadas. E todos os pobres, e as nossas misérias, torna-se-ão visíveis.


copyright jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres na Internet e em outros meios de comunicação de massa)

Para ler, conhecer e difundir as idéias de Vinicius Garcia (ainda presidente do CVI- Campinas e permanente ativista do Movimento de Vida Independente)
Blog - Três Temas - http://vggarcia30.blogspot.com/

A Onda - filme de Dennis Gansel (2008) -
http://moviesense.wordpress.com/2009/02/25/die-welle-the-wave-a-onda/

Cinema | O filme "A Onda" numa perspectiva educacional
http://www.passeiweb.com/saiba_mais/arte_cultura/cinema/leonardo_cinema_11_a_onda

Malleus Maleficarum - livro publicado pela Inquisição em 1487, três anos antes da descoberta do Brasil, e que ''diagnosticava'' as mulheres consideradas bruxas ou feiticeiras. http://pt.wikipedia.org/wiki/Malleus_Maleficarum

Leia também no Blog -
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As Seleções: os Estádios, os Paradigmas e um novo Game 
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