Mostrando postagens com marcador Gilles Deleuze. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Gilles Deleuze. Mostrar todas as postagens

domingo, 5 de maio de 2013

A ILHA DE FELIZ SEM ANO E SEU INTRUSO, E, NÓS TAMBÉM. (apenas um re-conto)



Imagem publicada – Uma fotografia colorida de uma ilha deserta, com um monte  pétreo ao fundo, parecido com um vulcão. Ao longe está um lindo céu azul, depois de uma vegetação rasteira típica e insular de cor entre o verde e o laranja, tendo em primeiro plano uma gaivota de asas abertas. Seríamos felizes se tivéssemos de viver, como Fernão Capelo, degredados ou isolados nesse paraíso?

“É uma ilha ou uma montanha, ambas ao mesmo tempo, pois a ilha é uma montanha marinha e a montanha uma ilha ainda seca. Eis a primeira criação tomada da recriação que se concentra numa terra santa ou no meio do oceano. Segunda origem do mundo, mais importante do que a primeira é a ilha santa: muitos mitos nos dizem que aí se encontra um ovo, um ovo cósmico...” Gilles Deleuze.

E, também sendo chocado, o Ovo da Serpente.

ERA UMA VEZ UMA ILHA... Como aquela do Saramago, QUE SE ENCONTRA NA PERDIÇÃO. E que, por ser utópica, AINDA NÃO FOI RE-CONHECIDA nem REVELADA...

 Era uma vez..., contou-me um dia um marujo vindo do Planalto da Atlântida perdida, uma ilha situada nas costas de um país chamado Terra Brasilis. Um local paradisíaco, ainda não descoberto por resorts ou ecologistas. Um local afastado das costas du Brésil, conforme o diário de bordo, isolada no meio de um oceano chamado Corruptiones Terribilis.

Nessa ilha, por acaso e destino está um náufrago. Ele foi degredado pelos seus pares. O pobre abandonado nas praias desse isolador mundo é um ex-deputado. O quase desnudo homem tem o nome de Feliz, porém pelo seu estado de degradação humana, cada mês, dia, minuto ou segundo ele se autodenomina: sou o Feliz-sem-anos.

Um dia, segundo a carta encontrada dentro de uma garrafa, escrita pelo Pedro Vais Sofazinho, parente distante de Pero Vaz Caminha, revelou uma inusitada e surpreendente revelação. O sobrevivente náufrago não se apaixonou por uma bola de vôlei, Wilson, como a do personagem no cinema. Ele teve um “caso” muito sério de amor proibido.

O Feliz-sem-anos caminhava pelas matas inebriantes e lúbricas da ilha quando o encontrou. Foi o encontro com uma maldição. Ele descobriu que sua solitária permanência estava sendo invadida penetrantemente por um intruso. E, como uma estória já escrita, o nosso replicante Robinson Feliz Com o Zé (do povo) teve, tristemente, de se ajustar à presença incômoda de um negro. Um (01) negro na ilha?

Este encontro, como são os imprevisíveis e não desejados, gerou uma sensação de flash back no pobre abandonado pelo Galeão, chamado Câmara Di Profundis. O nome dessa embarcação enorme, mais capaz de coletar e distinguir espécies e gêneros que a Arca de Noé, lhe fora dado pelo pelos capitães do Brejo da Luz, depois tornados coronéis do Sertão da Água Seca. Hoje estão todos no mesmo barco...

A sua cassação foi devido a um motim da marinhada de direita, após um golpe de gancho de direita no Capetão. O castigo que sempre defendeu para seus desafetos, por suas heresias e blas-fêmeas abusivas, devido à sua visão fundamentalista e fascista, acabou por gerar sua própria Inquisição e excomunhão. E o mar entrou em agitação vermelha e engoliu parte do galeão.

Ele, o “tadinho” tão difundido pela mídia, acabou deletado na prancha digital e pós-moderna do pregão da Nau dos Menos Insensatos. Estava prejudicando a boa imagem (e os votos) de seus pares. Após sua queda de prestígio e notoriedade acabara, então, degredado na ilha. Não esperava por se sentir um puro e imaculado, além tanto desaforo, ainda ter que encontrar tal maldição. Um nativo na sua privada ilha sem privada, e com aquela cor da pele tão ruim e discriminada.

O capelão-psicólogo da nau tentara, antes do desembarque abandonativo, em vão, lhe exorcizar, mas o Feliz Neo Robinson não acreditava nas Escrituras do Regimento Interno, muito menos nas Tábuas legislativas, sempre rasas e por interesses apropriadas nessa embarcação sem rumo certo. Ali prevalecia a lei dos mais ricos ou mais fortes.

Como, todos e todas, poderíamos nos colocar na pele deste sofredor abandonado. Teríamos o mesmo preconceito étnico e racial diante do intruso? A nossa sobrevivência nessa ilha seria como naqueles realities shows? Teríamos também uma crise histérica religiosa diante da figura de alteridade de um ser tão diferente de minha pureza racial? Como tocar no côco (ainda com acento para não gerar dúvidas ou más-línguas), com sua água salvadora, se a boca negra e maldita também bebeu por lá?

O outro incômodo, que ele combatera e pregara a extinção em seus discursos pastorais, podia e era sua única companhia. O que seria, então, sua suprema felicidade ou suprema solidão?

Ele descobre, como todos/todas em situação de confinamento, como os rapazes e moças BBB, que “vale tudo” para que EU seja o sobrevivente. No programa ainda se ganhava mais mídia e dinheiro. O modelo original que copiou os campos de concentração e extermínio.

Nessa ilha, onde estou só e isolado, somente mais “calor humano” nas horas de tempestade poderá aliviar ou me salvar? Indagava torturadamente o pobre iN-feliz-sem-ano.

Foi assim, para encurtar esta estória/conto/lenda, que resolveu do alto de sua magnitude, dar um nome para o seu intruso predileto. Primeiro corou-se a si próprio como o Rei, ou melhor, o Ditador, igual ao de Chaplin. Lembremos que ele se considerava um fidalgo, já que tinha pedigree, à diferença dos outros da Nau dos Menos Sensatos e Mais Corruptos, sentia-se ungido e protegido pelos “deuses” da  Terra do Pau Brasilis.

 Como estava imposta a presença indesejável do Outro, em sua nobreza suposta pela paranoia, deu, como clemência, um nome ao apelidado negro. Passou a chamá-lo de meu “pretinho básico”, já não seria mais o “Sexta-feira Amaldiçoado”, foi convertido e revertido/invertido, e, magnanimamente, o acolheu em sua caverna.

E VIERAM OS TEMPOS DE ESCURIDÃO E DE FOME DE VOTOS... Nesses momentos o utilitarismo, assim como o fascismo, proliferam. O Feliz-Sem-Ano-Robinson encontrou sua solução para os muitos dias de SECA AFETIVO-SEXUAL. Como uma raposa no mato, que cercava sem limites todo o território da Ilha, deixou de ser o caçador e passou a ser a caça.

Como disse, no meio da contação, alguém encontrou, tempos depois, nas praias da Terra Brasilis, o tal diário de uma insuspeita e intensa paixão. Não há como tirar um ganso da garrafa, na mesma em que cresceu, sem ter de ferir ou quebrar o recipiente.

E o nosso Robinson teve de romper todas as suas convicções, todos os seus falsos princípios, todas as suas pregações, todos os seus discursos moralistas e discriminatórios. Aquela ilha só tinha dois habitantes. Oh!

Deixo aos leitores/ouvintes a conclusão deste minireconto provoca-ação. Cada um por imaginar o que quiser, de acordo com suas convicções ou ideologias, afinal a Ilha era desconhecida, nem os cartógrafos a encontravam ou descreviam, e podemos dizer que ficava, para nosso alívio, na Terra do Nunca Aceito Diferenças ou Diversidades.

Para mim eles se casaram, tempos depois da aprovação de uma nova lei pelo Ditador da Ilha (ele mesmo), que aprovava e permitia a união entre pessoas do mesmo sexo. Ressalvando que mesmo assim ainda restavam, em seus âmagos, interrogações e dúvidas sobre a pluralidade e a multiplicidade do que chamamos de sexualidades.

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livre pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)

Fonte da imagem –

LEITURAS RECOMENDADAS, SUBTERRÂNEAS ou CITADAS NO TEXTO –.

O CONTO DA ILHA DESCONHECIDA – JOSÉ SARAMAGO - http://www.releituras.com/jsaramago_conto.asp

A ILHA DESERTA – GILLES DELEUZE, Editora Iluminuras ltda., São Paulo, SP, 2006.

ROBINSON CRUSOE - DANIEL DAFOE - http://pt.wikipedia.org/wiki/Robinson_Crusoe

FERNÃO CAPELO GAIVOTA – RICHARD BACH - 

LEIA TAMBÉM NO BLOG –

A CORÉIA DO FANATISMO POLÍTICO E O FANATISMO RELIGIOSO DO PASTOR – estamos no Século XXI?  http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/04/a-coreia-do-fanatismo-politico-e-o.html


A TOLÊNCIA É MAIS QUE UM BACALHAU NO MEU FEIJÃO COM ARROZ? – EM BUSCA DA EMPATIA, PARA ALÉM DA ANTIPATIA... http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/07/tolerancia-e-mais-que-um-bacalhau-no.html

A DIFERENÇA NOSSA DE CADA DIA, SEMEANDO A IGUALDADE DE DIREITOS. http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/09/diferenca-nossa-de-cada-dia-semeando.html

sexta-feira, 8 de março de 2013

MULHERES, DIREITOS HUMANOS HOJE E SUA EXCLUSÃO, em tempos pastorais...


Imagem publicada - uma fotografia em preto & branco de minha autoria. Eu a fiz em uma esquina do centro de Campinas, perto de uma Faculdade de Direito, onde se lê como aviso de trânsito: PARE.  E, sendo colada, por algum cidadão ou cidadã, logo abaixo, as palavras: “de ser indiferente”. Um apelo, criativo, necessário e urgente: PARE DE SER INDIFERENTE.

“Trespasse as montanhas, em vez de escalá-las, escave a terra em vez de aplainá-la, abra buracos no espaço em vez de mantê-lo uniforme, transforme a Terra em um queijo suíço”. Gilles Deleuze e Félix Guattari (Mil Platôs – Mille Plateaux)

Há uma indiferença massificada para a afirmação de que somos des-iguais, quando se reflete sobre as condições da maioria das mulheres e seus Direitos Humanos. Temos, porém de reconhecer que nessa invenção do Século XX: os Direitos Humanos, ainda não aprendemos muito sobre o feminino e suas multiplicidades. Mas ficamos sabendo, impotentes, de suas violações e vulnerações.

Estive forçado pelas minhas limitações humanas, assim como por um triste olhar sobre como somos, como estamos e para onde caminhamos, in-diferentes, afastado do exercício desta necessidade e urgência de escrever.

Somente a minha própria re-leitura, olhando para o Feminino em nós, relembrando que o ÚTERO É O MUNDO E O MUNDO É UM ÚTERO, é que decidi me forçar a “pena” árdua de usar a pena, como diriam os que se escreviam as cartas de papel e tinta há alguns séculos atrás.

Os escritos indignados nem sempre trazem a força do que desejamos colocar ou expressar através deles.

Hoje, 08 de março de 2013, estamos vendo como é possível a “venda”, sob o modelo “utilitarista’’ do mundo capitalístico, aquilo que também pareceria invendável: os direitos humanos.

Uma venda que também pode ser dita como a mesma que impede a Justiça de enxergar claramente e “direito” os nossos direitos sendo aviltados... A mesma Senhora Vetusta que, por força desses vedamentos e pelo andar da carruagem da História do mundo, caminha a passos rápidos em direções mais destras do que sinistras.

Um pastor, que não é de rebanhos não dóceis, foi levado como oferta política para a condução dos Direitos Humanos e das MINORIAS, no Planalto Central. As Minorias, aquelas que se confundem com as marginalizações, foram excluídas em uma “eleição” a portas fechadas.

 E, para dentro de um espaço dito democrático, mesmo que com as portas e os ouvido fechados aos protestos, sob contenção, do lado de fora, o Deputado Federal Marco Feliciano foi “ungido” como presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias.

 Lá fora gritavam deitados no chão, os expulsos brasileiros e brasileiras: - NÃO PODEMOS CAIR NESSA CONTRADIÇÃO ESTATAL; UM RACISTA, UM HOMOFÓBICO NÃO TEM COMO SE DIZER E AFIMAR  UM DEFENSOR DESSES DIREITOS, AGORA, POR ELE BEM- DITOS: HUMANOS.  Assistimos a mais uma encenação, no ventre dos Poderes, forjada evangélica e macro politicamente

E, caros amigos e amigas, que me desculpem, se não entendi. O Pastor me/nos pede uma chance para provar sua capacidade de nos defender?

Estou nesses dias Marco Felicianos de Cristandades Falsas, embora descontente e indignado, refletindo e repensando como homenagear as mulheres.

O calor gerado pelas manifestações contrárias a este pastor, que não é de cabras não cegas, me fez desejar que a DOÇURA OU A FORÇA FÊMEA, incluída em nossos corpos e mentes, me possuíssem e reinstalassem meu desejo de outro mundo possível. Um mundo da afirmação de nossos devires-mulher.

Ficamos todos e todas, muito desiludidos? Talvez sim, no primeiro choque com a notícia. E, após uma reflexão das minorias como potências, NÃO. Somos cientes de que as alianças macropolíticas encenadas em nossas CÂMARAS, das municipais até as federais, sempre foram urdidas para a manutenção de uma ORDEM e de um PROGRESSO.

 Há e houve, entretanto, em nossa história democrática as criações de brechas, rachaduras moleculares e os rizomas, que espalhando indignação ou conscientização geram e geraram os pequenos furos sociais, as linhas de fuga, por onde a liberdade se instalou e pode ser vivenciada.

O dia 08 rememora as mulheres que cruzaram seus braços e decretaram que não mais iriam tecer ou fiar. Foi há mais de um século e meio, em Nova Iorque, na busca da sonhada igualdade de condições de trabalho e das horas de fiação sob o comando de homens.

As mulheres, com sua força para fiarem, tecerem e, como as Penélopes, desfazerem seus próprios tecidos, inclusive os mais fecundos de seus úteros, foram e são também as protagonistas políticas dessas re-evoluções nas quais nos prendemos e nos soltamos.

Hoje são elas, como vi recentemente no campo da Medicina, que passam a ser o a “maioria”. Porém permanecem, para além de sua crônica desqualificação trabalhista e profissional, alguns estigmas que nos fizeram e ainda fazem torná-las ainda bruxas ou feiticeiras.  Hoje inventamos fogueiras sutis e menos visíveis do que na Inquisição para “queimar” suas diferenças.

Os tempos digitais não descobriram o seu potencial feminino não analógico. Ainda somos mecânicos com elas. Ainda as violentamos em muitos países, em diferentes culturas, mas com as mesmas castrações e esterilizações.

Ainda, como Freud, em 1933, nos surpreendemos com as MULHERES e suas capacidades, para além da tecelagem de um tapete ou malha, feita por Anna Freud, sua filha-discípula e solteirona.  Segundo Sadie Plant: “Sigmund Freud fez a tentativa final de solucionar o enigma da feminilidade...”. 

Ele escreveu “que as mulheres só deram umas poucas contribuições às invenções e descobertas da história da civilização...”. Porém, foi uma de suas analisandas, a analista Marie Bonaparte, que lhe salvou a pele diante do nazi-fascismo a peso de ouro de Napoleão Bonaparte.

Como diriam Guattari e Deleuze, o pai da Psicanálise se manteve apenas preso a um “olhar edipiano”, reducionista e até ridículo sobre as mulheres, inclusive as que formavam os primordiais círculos psicanalíticos. Mas o doutor Freud era do Século XIX.

As mulheres, diriam os dois anti-edípicos e visionários pensadores franceses, são muito mais rizomáticas, relvas que se espalham, do que árvores com uma única e sedentária raiz fixada ao chão, masculino e machista. São Gaia, são Terra.

 “Um rizoma não tem começo nem fim; está sempre no meio, entre coisas”. As relvas, as epífitas, as samambaias e os bambus, que não respeitam territórios fixos, não têm raízes, mas rizomas.

Podem crescer e se multiplicar subterraneamente, assim agiram Emma Goldman, Rosa de Luxemburgo, Zuzu Angel, Sonia Moraes Angel, e muitas outras guerreiras ou revolucionárias. São, foram e serão sempre “subversivas”.

 Elas estão mais próximas das Folhas das Folhas da Relva do poeta Walt Whitman, que em sua orientação sexual divergente já as elogiava e reconhecia como as dobras das quais, desdobradas, vinham e virão nascer os grandes homens.

Nascemos delas, delas ainda, todos e todas, descenderemos. E não será um processo de serialização por reprodução assistida em laboratório que as descartarão em futuro próximo. O seu útero ainda é sua maior, inigualável e insubstituível força. Até mesmo quando tentamos castrá-lo, mesmo que virtualmente.

Por isso, temos de buscar essas Mulheres Digitais e Mãe-trix que nos superarão para o futuro. Isso se não forem reprimidas, violentadas, condicionadas e aprisionadas em nossos modelos binários e binarizantes de macho e fêmea.

O Pastor ainda funciona nessa visão estreita e preconceituosa – homem é homem, índio é índio, negro é negro, mas os homo-sexuais não são e serão além de coisas aberrantes e anormais, também coisas demoníacas...

Como algumas mulheres. E o casamento entre diferenças pode ser o fim da humanidade. Para impedir essas aberrações só a família, com a mulher como propriedade do homem, pode combater e reprimir esses desviantes ou diferentes seres.

Somos e continuaremos sendo, humanamente e demasiado, muito além das limitações a que nossos séculos de doutrinações, sejam políticas, ideológicas, religiosas ou mesmo científicas, tornaram redutíveis às nossas superfícies biológicas e sexuais.

Não podemos esquecer, por Deleuze e Guattari, que o Estado e seus mecanismos de controle biopolítico agem por conversão dos fluxos moleculares e desinstitucionalizadores em segmentos molares, novas instituições.

Portanto, não estranhemos que entreguem os Direitos Humanos para quem os viola. É a reterritorialização estatal de nossos potenciais e desejos de revoluções micropolíticas e moleculares. Os discursos sobre estes direitos não mais os efetivam, apesar de serem interdependentes, sem ativa participação das chamadas minorias.

A maior profundidade que podemos atingir não passa de nosso maior órgão do corpo humano: a pele. Por isso devemos combater, todos os dias, essas pregações de cunhos fundamentalistas e de gênero.

Somos múltiplos, como as mulheres, somos plurais e podemos ser muitos e muitos Outros em apenas um de nós mesmos. O poeta Pessoa não me deixa omitir ou negar.

E, docemente, peço que não reduzam esta afirmação ao seu cunho apenas de prosa ou poesia, pois é sim “poesis”.

Afirmemos o sentido de poesis como geração, ou melhor, gestação, de muitas formas de Vida, para além da visão de Vidas Nuas. Façamos os resgates que o Feminino Plural deve tomar em suas mãos e corpos para que a trans-formação de nosso mundo continue em marcha e evoluindo. O Futuro está nas mãos e corpos das filhas, das filhas das filhas de minhas filhas...

Destas que herdarão o que semearmos agora, seja em direitos ou em exclusões e miséria, é que devemos esperar, para além do modelo reality-show da Sociedade do Espetáculo, a construção de outra “gramática civil”, outra indispensável liberdade e cidadania. Outros caminhos, outras veredas e cartografias do viver e re-existir.

Copyright/left, a destra e a sinistra, jorgemarciopereiradeandrade 2013=2014 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de massa)

LEITURAS INDICADAS NO/PARA ALÉM DO TEXTO E DO CONTEXTO –

MIL PLATÔS  Capitalismo e Esquizofrenia - Gilles Deleuze & Félix Guattari – Editora 34, Rio de Janeiro, RJ, 1995-1997.

MULHER DIGITAL – O FEMININO E AS NOVAS TECNOLOGIAS – Sadie Plant, Editora Rosa dos Ventos, Rio de Janeiro, RJ, 1999.

LEIA(m) TAMBÉM NO BLOG –

OS DES(Z) MANDAMENTOS DO CORPO FEMININO http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2015/03/os-desz-mandamentos-do-corpo-feminino.html

O MARTELO NAS BRUXAS – COMO “QUEIMAR”, HOJE, AS DIFERENÇAS FEMININAS?

MULHERES SANGUE E VIDA, PARA ALÉM DE SUA EXCLUSÃO HISTÓRICA.

TODO ÚTERO É UM MUNDO.

EUGENIA, COMO REALIZAR A CASTRAÇÃO E ESTERILIZAÇÃO DE MULHERES E HOMENS COM DEFICIÊNCIA?

quarta-feira, 23 de maio de 2012

RACISMO, HOMOFOBIA, LOUCURA E NEGAÇÃO DAS DIFERENÇAS:as flores de Maio


Imagem publicada – uma foto colorida da chamada Flor de Maio, que recebe o nome deste mês, mas que como as micropolíticas e subterrâneas revoluções moleculares, de intensa cor vermelha, só florescem em datas posteriores. Também conhecida como Cacto do Natal, Cacto da Pascoa, Flor de Seda ou Schlumbergera truncata, essa suculenta brasileira se caracteriza por ser uma epífita da família dos cactos (porém sem espinhos) que apresenta lindas flores que aparecem próximo à época de virada de ano.



Preencher uma página em branco. Superar as nossas mais profundas fragilidades e depressões, às vezes, só se consegue vendo alguma beleza que nos resta do que chamamos Natureza...

O mês de maio é pleno de comemorações e manifestações. Foi-se o tempo em se que comemoravam apenas os noivos e os casamentos. É agora a mudança de conceitos e a derrubada de preconceitos que se afirma na contemporaneidade. Assim como florescem, por nossos estímulos, a conquista de novos direitos, que nos animam para a vida.

Outro dia, nesse mês, a Câmara Federal realizou-se IX Seminário LGBT no Congresso. Há alguns dias atrás, mesmo ofuscados pelo Dia das Mães, foi lembrado que ainda temos os Racismos entranhados nos mais baixos ventres da sociedade. Era o dia 13 de maio, que não deve ser historicamente mantido como a real libertação de nossos escravos negros em 1888.

Amanhãs sempre multicoloridos ajudaram nas marchas contra a Homofobia. Contrariando e criminalizando o ódio homofóbico, Maio traz também o Dia Nacional de Combate à Homofobia. Há então a possibilidade de outro olhar sobre as plurais manifestações e escolhas afetivo-erótico-sexuais. Retomaremos então os caminhos de Freud, aceitando a multiplicidade a ser vivenciada quando rompemos os tabus sobre as sexualidades.

E quando começamos a ver outras flores, no alvorecer do dia 18 de maio, temos de encarar outro preconceito arraigado, bem nutrido e histórico. Temos de comemorar e ativar o Dia Nacional de Luta Antimanicomial, para além do mês de maio.

Há, como na difusão dos outdoors, em campanha de conscientização, uma pergunta a responder. Na construção de novos dispositivos em Saúde Mental, que nossos cuidados e tecnologias reproduzem, é preciso indagar: que armadilhas e novos modos de sofrimento estão sendo produzidos?

O lema antimanicomial deste ano foi: "SUStentar a diferença, saúde não se vende, gente não se prende". Mas estamos mandando “flores de maio”, decaídas ou decadentes, para as internações compulsórias ou não?

No Brasil de novos programas carinhosos e assistencialistas, por que veredas tortuosas estão sendo mantidos os loucos, os homoeróticos, os meninos e meninas em situação de rua, os negros e todos os que possam ser submetidos às mais sutis violências, desde as simbólicas às mais visíveis e institucionalizadas? 

A atual parceria Governos e práticas de higienização social, com suporte até de evangelizadores, denunciam um possível retrocesso pela normatização ou pela produção/serialização de Vidas Nuas. O crack e seus marginais que o digam.

Então, o que transversalizamos em todos estes eventos? Quando é que a encruzilhada dos direitos faz com que se encontrem no mesmo cenário político os que passam pelo racismo, pelas homofobias, pelas pedofilias, e a retomada do desejo manicomial nas ações contra os que vivem transtornos mentais ou dependências químicas?

A maioria se parece com as flores de Maio. Não são dotadas de espinhos, porém pertencem a uma família de cactos. E acabam germinando em lugares que precisam de muita luz, mas se beneficiam de algumas sombras. Elas são epífitas, ou seja, crescem sobre outras plantas sem, contudo, parasitá-las. Na visão reducionista se tornam “diferentes” pelo cuidado que exigem. E na sua diferença tornam-se, apesar de belas e diversas, “exóticas”...

Assim também homens, mulheres, crianças ou idosos vivenciam ainda estas duras experiências de segregação, discriminação, marginalização, bullying, preconceito e violências? Basta que se afirmem na condição humana de uma diferença. Basta que floresçam fora de época e em lugares não permitidos?

Seja um negro, uma pessoa homossexual, ou então um “viciado” e sua drogadição ou alguém com uma deficiência psicossocial, independentemente de seu gênero ou faixa etária, todos tem de enfrentar, nas suas diversidades e pluralidades, as duras penalizações que os conservadorismos lhes impõem.

Mas o que é uma diferença? Um dos mais emocionantes exemplos que assisti recentemente me trouxe um exemplo de vivência na pele da diferença. Era o encontro de um grande homem negro, Magic Johnson, com uma pequena menina negra que estava em uma escola onde vivenciava os mesmos sentimentos que o famoso atleta.

Ambos eram e são pessoas convivendo com o vírus HIV. Ela fala com lágrimas como era tratada, lá nos anos 90, como um ser contaminado e contaminante. E que todos se afastavam dela na escola.

Nesse mesmo documentário de Nelson George, The Annoucement, sobre o “anúncio” público de Magic sobre a sua condição de pessoa com HIV, o rei do basquetebol nos toca na direção do enfrentamento de muitos dos preconceitos que atingem todos os que se diferenciam ou são diferenciados socialmente.

Até suas gotas de suor foram motivo de seu afastamento das quadras, muito embora sua resiliência o tenha feito retornar e receber os abraços dos que temiam seu contágio. Chegaram a fazer um minuto de silêncio nos jogos como se Magic tivesse morrido com o simples anúncio de seu vírus. Era o olhar de estigma que a AIDS produzia, e ainda produz, como metáfora da morte e da Peste.

Portanto em plena Idade Mídia ainda temos muito a plantar, semear e diferenciar com todas as “flores de maio”, simbólicas e plurais. Há um possível espaço de ação micropolítica que se estabelece com as nossas marchas públicas, nossas petições e nossas presenças e ações no cenário macropolítico brasileiro.

Em tempos de Comissão da Verdade, no seu papel instituído, caberá lembrar que nossas ações ainda estão distantes do movimento das Madres de Maio. Seriam elas flores que deveríamos aprender a respeitar/reinventar ao invés de chamá-las de ‘’loucas’’?

E como resposta a indagação temos de afirmar que surgem nos horizontes, para os que sonham com outro tipo de mundo e ambiente, para além da Rio +20, um modo ecosófico e bioético de viver. É A AFIRMAÇÃO DA DIFERENÇA. É O COMBATE EM NÓS DAS NEGAÇÕES DE NOSSAS DIFERENÇAS. NÃO SOMOS “ALMAS” HOMO- GÊMEAS, NEM MESMO NO AMOR OU NO SEXO, em todas as formas e multiplicidades do amar...

É o mês das flores de maio que só mostraram seu espetáculo e beleza tempos depois. Mas é a hora de combater A AMBIGUIDADE DE PRODUÇÃO DE UM DISCURSO BINARIZANTE, sem franjas ou entremeios, sem liberdade para as múltiplas peles que podemos habitar. 
A binarização é dicotomia, ou somos homens ou somos mulheres, ou somos "racialmente" brancos ou negros, ou somos loucos ou somos "normais". NÃO PODEMOS SER UMA METAMORFOSE AMBULANTE OU UMA DIFERENÇA GRITANTE?

Como a nossa visão ainda é atravessada pelos olhares e os rostos de nossos ancestrais, ainda olharemos o Outro como uma diferença a ser tolerada ou eliminada. Os novos campos de exceção, os novos Auschwitz-Birkenau, são construídos na mesma ideia de uso dos corpos em serialização, ou para o extermínio ou para a expropriação.

Por isso temos de estar atentos ao que nos dizem Guattari e Deleuze: “Do ponto de vista do racismo não existe exterior, não existem pessoas de fora. Só existem pessoas que deveriam ser como nós, cujo crime é o não serem...”. E aí situo a necessária transversalização dos preconceitos a combater para além do mês e das flores de maio. 

QUANDO APRENDEREMOS A APRENDER SOBRE A ALTERIDADE, quando aprenderemos a respeitar seus direitos fundamentais sem ter que tolerá-los em determinados lugares, em determinadas paredes, em determinados guetos ou muros, reinstituindo, continuamente, as mais pérfidas formas de exclusão da Sociedade de Controle?

Ah, não somos homens e nem mulheres, somos então o quê?


Copyright jorgemarciopereiradeandrade 2010-2013 (Favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)

Notícias relativas ao texto na Internet-

Três mil participam de desfile pela Luta Antimanicomial em BH, diz PM
http://g1.globo.com/minas-gerais/noticia/2012/05/tres-mil-participam-de-desfile-pela-luta-antimanicomial-em-bh-diz-pm.html

“Não vejo distinção entre manicômio e tortura”, diz deputado Adriano Diogo
http://www.spressosp.com.br/2012/05/nao-vejo-distincao-entre-manicomio-e-tortura-diz-deputado-adriano-diogo/

Luta antimanicomial: conquistas e desafios http://www.inclusive.org.br/?p=22516

Dia Nacional de Combate à Homofobia, 17 de maio. Deputado Jean Wyllys (PSOL) http://www.liderancapsol.org.br/component/content/article/6-pronunciamentos/1997-dia-nacional-de-combate-a-homofobia-17-de-maio-dep-jean-wyllys.html?349dca8a83294b3c55eb74a2686523b3=dcbc07ffcc5b9510360b9bf48c46eea7

Dia Nacional de Combate à Homofobia e Comitê de Cultura LGBT
http://www.cultura.gov.br/culturaviva/dia-nacional-de-combate-a-homofobia-e-comite-de-cultura-lgbt/

Após dez anos em vigor, plano nacional contra pedofilia ainda é ineficiente http://www.em.com.br/app/noticia/nacional/2012/05/18/interna_nacional,295006/apos-dez-anos-em-vigor-plano-nacional-contra-pedofilia-ainda-e-ineficiente.shtml

The Announcement – trailer – sem legendas – em inglês – foi exibido na ESPN BRASIL http://www.youtube.com/watch?v=S209KvH_LFg
http://www.youtube.com/watch?v=ybwYvzBNjKI

Auschwitz-Birkenau http://pt.wikipedia.org/wiki/Auschwitz-Birkenau

Indicação de leitura –

MIL PLATÔS – Vol. 3 - CAPITALISMO E ESQUIZOFRENIA – Felix Guattari e Gilles Deleuze – Editora 34, Rio de Janeiro, RJ,2000.

Versão do GOOGLEBOOKS
 http://books.google.com.br/books/about/MIL_PLATOS_V_3.html?hl=pt-BR&id=qwh2TCerr6MC
http://books.google.com.br/books?id=qwh2TCerr6MC&pg=PA44&lpg=PA44&dq=GUattari+e+binariza%C3%A7%C3%A3o&source=bl&ots=qfvhkr_N1B&sig=fwBKLw968eRurPq_lZ2eT6Kx_WU&hl=pt-BR&sa=X&ei=J1e8T_anO8GugQefv5WuDw&ved=0CFAQ6AEwAg#v=onepage&q&f=false

Leia também no Blog

OS NOVOS MALDITOS E AS NOVAS SEGREGAÇÕES: da Lepra ao Crack https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/02/os-novos-malditos-e-as-novas.html

SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS COMO DESAFIO ÉTICO PARA A CIDADANIA https://infoativodefnet.blogspot.com/2010/06/saude-mental-e-direitos-humanos-como.html

ALÉM DOS MANICÔMIOS - 18 de maio/ Dia Nacional de Luta Antimanicomial https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/05/alem-dos-manicomios-18-de-maio-dia.html

A DIFERENÇA NOSSA DE CADA DIA, SEMEANDO A IGUALDADE DE DIREITOS https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/09/diferenca-nossa-de-cada-dia-semeando.html

ONDE NASCEM E MORREM OS DIREITOS HUMANOS? 
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/11/onde-nascem-e-morrem-os-direitos.html