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quinta-feira, 8 de abril de 2010

A SAÚDE E O SENTIDO PARA A VIDA II


Imagem publicada - um imagem do filme 1984, baseado no livro homônimo de George Orwell, que se passa no auditório onde os homens e mulheres são doutrinados pelo Grande Irmão, que aparece em uma tela gigante, trazendo a confirmação orwelliana de que: A Guerra é Paz, A Liberdade é Escravidão e a Ignorância é Poder, ampliando a "lavagem cerebral" a que todos, uniformizados e vigiados pela Teletela, se submetem em nome de uma sociedade burocratizada, alienante, onde a Vida pertence ao Estado, supondo-se que todos os corpos e mentes estejam sob total controle à distância, televisivamente.

O texto abaixo foi escrito para comemorar/lembrar o Dia MUNDIAL DA SAÚDE, há muitos INFOATIVOS passados (no número 4200 DE ABRIL DE 2009) e foi publicado em um tempo que o Blog não existia ainda. A minha saúde física na época já tinha sido afetada. 

Apenas havia um corpo vibrátil, que pela dor pós-acidente que sofri, se afetava com os vários acontecimentos daquele momento. Resolvi republicar por um pedido especial e pelo fato de estar estes dias com muitas dores pela mudança climática absurda que estamos vivendo. Os meus parafusos presos me anunciam a temperatura, já que os soltos na cuca não funcionam tão bem. O frio do tempo anda se combinando com outras insensibilidades e friezas. Aos que já leram peço que descubram o prazer da releitura, pois um novo olhar nasce todos os dias em corações e mentes inquietas. 

AOS QUE AINDA NÃO LERAM o meu desejo que façam uma breve parada para refletir sobre as nossas SAÚDES:

A Saúde e o Sentido Para a Vida

"Um sábio escritor/aviador/filósofo, Antoine de Saint-Exupéry,nos deixou como legado, para além do Pequeno Príncipe, um alerta sobre a necessidade de que busquemos um Sentido para a Vida. Ele nos indicou o caminho quando, em seus livros Terra dos Homens e Um Sentido para a Vida, nos disse: "De que estamos nós precisando para nascer para a vida? Precisamos nos dar. Sentimos que o homem não pode comunicar com o homem senão através de uma mesma linguagem.... Quando nos encaminharmos na direção boa morte, aquela que tomamos na origem, ao despertamos do barro, somente então seremos felizes. Só então poderemos viver em paz e morrer em paz, porque o que dá um sentido à vida dá um sentido à morte".

Necessitamos, hoje, no mundo do medo líquido e das vidas desperdiçadas ou da vida nua, urgentemente de uma nova linguagem universal. Necessitamos todos de uma Nova Saúde, a moda de Nietzche e Walt Whitman. Necessitados estamos todos e todas de um sentido para nossas vidas.

Hoje, dia 07 de abril, se comemora o Dia Mundial da Saúde. Amanhã o que comemoraremos? o desaparecimentos das 'novas pestes e epidemias? o fim de nossas 'não-visões brancas'? o surgimento de novos meios biotecnológicos de controle das mortalidades e do sofrimento humano? ou o enriquecimento e dignificação da vida humana com novos princípios éticos e bioéticos?

(HOJE, EM 2010, ACRESCENTO A CONFIRMAÇÃO DE QUE TEMOS UM NOVO TEMPO DO CAPITALISMO DOS DESASTRES EM MOVIMENTO, POIS AS CATÁSTROFES, TERREMOTOS E INUNDAÇÕES PASSARAM A SER CRÔNICAS DE MORTES ANUNCIADAS, E, LOGO APÓS CESSADO O VENTO, A CHUVA E OS TREMORES,SURGEM NAS TVS A ONDA DE PEDIDOS DE VERBAS POLÍTICAS PARA A RECONSTRUÇÃO DE CIDADES, COMO OS MILHÕES PARA O RIO DE JANEIRO INUNDADO NESSE ABRIL FRIORENTO)

Digo que sem a última resposta de nada valerá uma resposta às indagações anteriores. Senão, gananciosamente, os proprietários/empresários da Sáúde nos anunciarão/venderão uma falaciosa "descoberta" de um novo modo de Viver e Morrer, inclusive com as frequentes violações de todos os princípios sobre pesquisas em seres humanos. Isso, diante da nossa alienação, se não prestarmos atenção, com urgência, para a produção do que chamo de Vulneração/Expropiação da Vida.

Hoje é (era) dia de exclusão. Sim é(era) dia de exclusão 'saudável' no Big Brother. E se estamos todos aguardando o próximo 'milionário' e seu 'milhão', que dizem ser escolhido por nós, continuamos também assistindo a terra, a gaia, tremendo e nos anunciando novas e italianas e universais mortes, bem como novas lágrimas em olhos afegãos e/ou africanos ou nordestinos.

 A nossa atual sensibilidade para o sentido Universal da Vida tem, na banalização das violências, tornado , a cada dia na Idade Mídia, um modelo de viver. Nos estão afirmando, 'economicisticamente', que 'vale tudo' para vencer entre os muros, sob as câmeras e teletelas, com uma visão naturalizadora de um panóptico olhar de milhares de nós-espectadores.

(NESSE MÊS AINDA ESTOU LAMENTANDO A NÃO EXCLUSÃO DE UM BROTHER QUE SE REVELOU HOMOFÓBICO E PREPOTENTE, ALÉM DE TOTALMENTE DESINFORMADO SOBRE AIDS E SUA NECESSIDADE DE PREVENÇÃO PARA TODAS FORMAS DE EXPERIÊNCIAS SEXUAIS, E AINDA GANHOU, COM GRANDE APOIO POPULAR O SONHADO MILHÃO, POR SUA PERFORMANCE E RESISTÊNCIA ÀS EXPERIMENTAÇÕES TORTURANTES DE UM GRUPO PREVIAMENTE PREPARADO PARA ESTE REALITY SHOW SEM VIDA REAL...)

Estamos comemorando hoje a saída de nossos 'irmãos' ou 'irmãs' do Big Brother. Estaremos, então, felizes por nos identificarmos projetivamente com o Vencedor(a). Porém ,em seguida, quando um pequeno indiano nos ensinar como 'ganhar o primeiro milhão e nos tornarmos todos milionários', ainda assim estaremos cativos de um medo fundamental: "o medo de ser pinçado sozinho da alegre multidão, ou no máximo separadamente, e condenado a sofrer solitariamente enquanto todos os outros proseguem seus folguedos. O medo de uma catástrofe pessoal" (1).

Vivenciamos, absortos e absorvidos (mas não absolvidos) diante das nossas TVs um 'show da realidade', ou seja o reality show que está nos, subliminarmente, avisando que seremos 'inevitavelmente' excluídos. Apenas um será o milionário. 

Confirmar-se e se naturaliza que o hipercapitalismo tem suas razões e suas verdades. Não será e não é preciso que ninguém nos advirta que estamos 'nos assistindo' nos reality shows da vida. Sabemos e naturalizamos que para vencer teremos de lutar para não sermos excluídos. Já nos colocamos como pré-desfiliados. E isso ocorrerá na fila do INSS, na fila do banco, na fila da escola, na fila do espetáculo, nas filas de entrada para a Era do Acesso, onde alguns poucos selecionados podem participar do show e milhares serão seus 'tele-colegas' deste trabalho sob clausura e confinamento.

(NESSE ANO DE 2010 FOI DADO O OSCAR PARA A GUERRA AO TERROR. UM AVISO AO MUNDO DE QUE NOVOS HERÓIS DESARMADORES DE HOMENS BOMBA ESTÃO EM AÇÃO, PARA PROTEÇÃO DOS QUE, MESMO INVADIDOS, SÃO AINDA VISTOS COMO OS FRACOS PERIGOSOS QUE PRECISAM DE LIÇÕES DE BIOPOLÍTICA DO CONTROLE TOTAL DE SUAS VIDAS, PETRÓLEO E OUTRAS RIQUEZAS, POIS A ÍNDIA SÓ SERÁ AMEAÇA SE APRENDER A FAZER USO BÉLICO DA ENERGIA NUCLEAR. OS FRÁGEIS E VIOLENTADOS MENINOS E MENINAS DE QUEM QUER SER MILIONÁRIO DE LÁ SÃO SUBSTITUIDOS PELOS FORTES E BEM DOTADOS DOURADOS RAPAZES TATUADOS DAQUI...)

E onde entra a Saúde no meio deste cenário? sim, as nossas saúdes (que não serão apenas a ausência das doenças) entram na necessidade do que Viktor E. Frankl (2), a quem dedico(dediquei) algum tempo de minhas leituras atuais, afirmou de forma contundente sobre sua experiência no campo de concentração de Auchwitz: "...que o sentido da vida sempre se modifica, mas jamais deixa de existir..., podemos descobrir esse sentido na vida de três diferentes formas: 1. criando um trabalho ou praticando um ato; 2. experimentando algo (como o amor, a beleza, a verdade) ou encontrando alguém; 3. pela atitude que tomamos em relação ao sofrimento inevitável".

A mim, na minha atual condição de saúde vulnerada, me interessa a autotranscendência necessária para o reconhecimento de minhas fragilidades consideradas humanas, inclusive, com o 'direito humano' de me deixar contaminar pela 'cegueira branca das mídias globais'. É, então, diante de minha vulnerabilidade humana que precisarei estar trabalhando, micropoliticamente, pela busca de novos modos de ser e estar no mundo.

Tenho, em homenagem a Orwell, a incansável tarefa de humanizar meus atos médicos, realizando as experimentações e pesquisas, com crítica e ética, de todos os avanços que a Medicina e as Biotecnologias em que estou envolvido/capturado.

Devo tentar alcançar a proposta de Frankl, ele também médico e psiquiatra. Ele realizou com persistência e nobreza o ato da sobrevivência em um campo de concentração, reforçando que muitas vezes foi o humor, o amor aos seus semelhantes , o reconhecimento de seus algozes da SS como humanos, a resiliência e permanente busca de uma outra forma de saúde, lhe permitiu sair vivo desta experiencia crucial de vida nua, ou seja: buscar aquilo que alguns filósofos existencialistas ensinam, ou seja, tolerar a FALTA DE SENTIDO DA VIDA. 

Podemos, portanto, mesmo diante de uma situação inexorável e de nossa finitude, afirmar nossa transitoriedade vital e, com coragem e determinação, afastar o medo líquido e certo da Morte, afirmando que a Vida tem um sentido incondicional. O que nos dá um sentido às nossas vidas também dará um sentido às nossas mortes.

Por isso digo, em especial aos que ainda olham como inválidos os que se tornam pessoas com alguma forma de incapacidade ou deficiência, que a Vida vale a pena (sofrimentos criativos) e as penas (sofrimentos patológicos), quando compartilhamos de uma nova linguagem universal. Mais vale ainda se seu sentido e linguagem é propor um novo paradigma ético-estético e político para o viver (Guattari), onde tentamos ser éticos, para ser potência ativa que surge na imanência das práticas para coordenar a vida e escolher a forma de vivê-la, com profundo respeito à Diferença e os Outros. 

Mais ainda olhando com um olhar para além do olhar, um novo modo de ver/sentir estético e subversivo, rompendo, como criação e criadores permanentes, a pretensa unidade economicista do mundo capitalístico e globalizado atual; e, finalmente, nos afirmando micropoliticamente com a implicação de escolha de que modos de mundo desejamos VIVER e MORRER COM SUAVE DIGNIDADE.

A TODOS E TODAS MEU DESEJO DE UMA SAÚDE PARA ALÉM DA QUE NOS DIZEM SER NECESSÁRIO E INDICADA PARA BEM-VIVER.

jorgemarciopereiradeandrade copyright 2009-2010-2011 e ad infinitum enquanto houver saúde...

Referências bibliográficas -

Na imagem publicada - 1984 - George Orwell - Companhia Editora Nacional - São Paulo, SP, 1977

http://www.duplipensar.net/george-orwell/1984-orwell-resumo.html

(1) Medo Líquido - Zigmunt Bauman - Jorge Zahar Editora - Rio de Janeiro, RJ, 2008.

(2) Em Busca de Sentido - Um Psicólogo no Campo de Concentração - Viktor E. Frankl - Editora Vozes, Petrópolis, RJ, 2008 - 26ª Edição.

Fonte original:
   InfoAtivo DefNet - 4387 - 07 abril de 2010 

NOTA- OS ACRÉSCIMOS DE TEXTO AO ORIGINAL FORAM ESCRITOS EM LETRA MAIÚSCULA E ENTRE PARENTESES  EM ITÁLICO ( PARA QUE AS ATUALIDADES E ACONTECIMENTOS) POSSAM CONFIRMAR A ATEMPORALIDADE DE ALGUMAS DE MINHAS IDÉIAS E DOS AUTORES CITADOS, LAMENTAVELMENTE, A RODAVIDA RODA E A VIDA RODA APESAR DA DONA MORTE).

LEIA TAMBÉM NO BLOG - 

ORGULHOS 'MULTIPLOS' - no COMBATE A TODOS OS PRECONCEITOShttps://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/06/orgulhos-multiplos-no-combate-todos-os.html

OS NOSSOS CÃES desCOLORIDOS - Nossas "DEPRESSÕES" E O DIA MUNDIAL DA SAÚDE MENTALhttps://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/10/os-nossos-caes-descoloridos-nossas.html

sábado, 3 de abril de 2010

UM AUTISTA PODE VIR A SER UM ARTISTA COM A ÁGUA?



imagem publicada - um quadro pintado pelo pintor italiano Caravaggio (1571-1610) que representa o mitológico Narciso, que foi condenado pela Deusa da Ética, Némesis, a ficar fitando sua própria imagem refletida no Lago de Eco, infinitamente, como um jovem muito belo, com roupas de época do século XV, com um reflexo espelhado dele magnificamente, com as características do tenebrismo de Caravaggio, pela iluminação do rosto do retratado, com cor de fundo em marrom predominando nesta tela.

INFOATIVO DEFNET - 4385 - abril de 2010

"O inconsciente molha aqueles que dele se embriagam... mutuamente." (Jorge Márcio d'aprés Felix Guattari)

Me instigaram estes dias a escrever sobre minhas experiências klínicas com os AUTISMOS. E a minha lembrança/saudade retomou o tempo em que implantava um Serviço de Psiquiatria infantil no quase desértico, pelo clima já diferenciado naquela época , e excluído, pelas comunidades desfavorecidas que o cercavam, o bairro de Bangu, Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, na década de 80.

A cena clínica que me volta a mente é a de um menino que eu cuidava. O jovem "A", 10 anos, nome referência a primeira letra do Autismo, era um 'caso difícil' quando me foi apresentado, como um desafio, em reunião de equipe. Eu passei a atendê-lo em sessões individuais, semanais, em uma sala onde ele passava quase toda a sessão balançando o corpo, repetindo palavras ecolalicamente, e, após várias tentivas de contato com ele, descobrimos que podíamos "falar com as mãos na água' de uma pia no canto da sala. E foi aí que pude com muita suavidade tentar um contato com este 'difícil' garoto.

A lembrança de A me fez refazer a leitura de um bom livro que encontrei em 2008: Do Silêncio ao Eco - Autismo e Clínica Psicanalítica. É um excelente trabalho de Luciana Pires, que após experiências na Tavistock Autism Service (Inglaterra) e na experiência de quase dez anos em atendimento clinico a autistas no Brasil. Refiz a leitura e a recomendo aos colegas e demais interessados, pois lá encontrei o meu 'eco' psicanalítico para referendar as experiências clínicas da Clínica de Reabilitação Psicomotora Vicente Moretti.

Nesse livro pude entender que, empirica e afetivamente, tive um magnifico aprendizado com o 'paciente' "A". Foi ele que me ensinou a 'falar' através de uma água que escorria pela torneira da pia, e as poças que criava dentro dela, quando propositadamente interrompia seu ralo.

Foram poucas as vezes que consegui vencer a antinomia gerada pelo Autismo: o contato físico desejado por quem cuida e a inacessibilidade física e afetiva que o sujeito autista vivencia. Minhas pequenas e perseguidas vitórias ficaram para sempre em minha memória: os pouquissimos momentos em que A "deixou" que as suas mãos esbarracem nas minhas dentro da pia. Quantas "artes" fizemos com a água.

Para Luciana Pires há a possibilidade de uma clínica com as crianças autistas, com uma interrogação respondida, em texto suave e agradável, acerca dessa clínica a construir e aprender: "como se dá o contato com a criança autista ?". Ela exemplifica em seu belo texto alguns 'casos clínicos', de nomes Fátima, João, Paulo e Bruno.

Ela reconhece, indo dos inacessíveis aos ecolálicos, que existem vários autismos, como diz: "... em primeiro lugar, porque são singulares os indivíduos autistas e, em segundo lugar, porque o autismo não é um diagnóstico que define um campo de homogeneidade ( etiológica e/ou caracterológica)". Para esta autora, ao contrário do que se difunde, o seu diagnóstico comporta uma série de outros diagnósticos virtuais. Assim se constroi o "espectro autista".

Com o jovem A eu pude aprender também que o Eco que produzia me chamava para saída de meu/nosso próprio narcisismo. Era um apelo a me deixar envolver afetivamente, mesmo que a distância física e corporal nos deixasse longitudes, um do Outro. O rumor da água no seu fluxo nos permitia acalentar por alguns instantes as rumorosas torrentes e/ou enchentes de emoções que cada um trazia em si. E ao elaborar a transferência e a contratransferência que A produzia em nossos encontros pude alcançar um outra Escuta: a dos bailados que a água fazia, diferentemente do esperado, em cada um dos gestos estereotipados, assim classificados daquele jovem autista.

A água e seu fluxo também foram incorporados nesse encontro, o que me trouxe e traz a mente o mito greco-romano de Narciso (*), como nas Metamorfoses de Ovídio, onde a ninfa Eco jamais se fazia ouvir pelo encantador Narciso, este preso à sua própria beleza e egolatria. Tive, nos encontros com A, de superar essa posição narcísista gerada pelo desejo de uma clínica perfeita e bela. Ele , mesmo prisioneiro de seu narcisismo patológico, rompia todos os tratados e teorias. E era ele, na condição do "doente" a ser tratado, que era 'difícil e agressivo', ele era, enfim, considerado entre os 'intratáveis', assim como muitos dos sujeitos com transtornos invasivos do desenvolvimento ainda são classificados.

Mas há histórias clinicas onde a experimentação e a interrogação geram incomodos institucionais, quase sempre acabam em 'intervenções autoritárias'. Um dia ao chegar à Bangu, tendo enfrentado o calor de 40º graus, encontrei um intenso e conflituoso acontecimento. O jovem A não parava de gritar, uivar e se agitar na estereotipia, e ninguém sabia o por quê. Haviam, por determinação gerencial, retirado a pia da parede, tinha cortado a nossa àgua-comunicação-afeto. E, feita a desfeita, não há como explicar para uma singularidade tão complexa que o mundo dos neuróticos, quando instituídos em papéis e hierarquias, é pleno de inveja, disputas de poder, arrogância e desamor.

Não consegui mais fazer jorrar a água-amizade secreta com um jovem autista. Tínhamos sido derrotados pela insensibilidade diante da inacessibilidade aparente dos AUTISMOS.
Porém, aprendi, como Luciana, que os 'autismo(s) pede(m) a construção de novos paradigmas e um efeito renovador da clínica e da prática psicanalítica'.

E isto pode ser um convite aos colegas que se aprisionam em hermetismos e repetições teóricas, perdendo a ousadia primordial que nos foi deixada por Sigmund Freud, quando diz que se o psicanalista somente "efetuar a seleção [do material produzido pelo paciente], se seguir as suas expectativas, estará arriscado a nunca descobrir nada além do que já sabe" (1912)...

Este texto é uma homenagem ao DIA MUNDIAL DE CONSCIENTIZAÇÃO SOBRE O AUTISMO - Dia 02 de ABRIL, e ao jovem A, assim como o filho de uma amiga, Murillo e os muitos que estão fazendo ARTES por aí, mundo afora e mundo adentro... VESTI AZUL, COR DE ÁGUA DO MAR, UM DIA,UM TEMPO DE MINHA CLÍNICA, MINHA VIDA E MINHA "SORTE" ENTÃO MUDARAM.

FONTEs :
NARCISO - Mitologia - http://pt.wikipedia.org/wiki/Narciso
AUTISMOS - conceitos - http://pt.wikipedia.org/wiki/Autismo
Outras informações Dia Mundial de Conscientização do Autismo -
http://www.ama.org.br/
http://cronicaautista.blogspot.com/2010/04/dia-mundial.html
E indico o blog de um jovem autista, FELIPE -
www.arteautismo.com

Referência Bibliográfica:
Do Silêncio ao Eco - Autismo e Clinica Psicanalítica - Luciana Pires, Editora Edusp/Fapesp, São Paulo, SP, 2007.
Outras Indicações para leitura:
Psicanálise e Desenvolvimento Infantil- um enfoque transdisciplinar - Alfredo Jerusalinsky e colaboradores - Ed. Artes e Ofícios, Porto Alegre, RS, 1999.
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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O ESTATUTO DO HOMEM E O DIA INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS


Imagem - uma única mulher, pode com vigorosa tenacidade, enfrenta um batalhão de policiais  armados, empurrando um obstáculo, uma telha, uma centelha? Uma mulher palestina, lutando com seu próprio corpo, transformado em barreira e resiliência, em um cenário de repressão policial a um protesto coletivo. Ao fundo da foto está uma multidão observando, de um ponto mais alto, saindo uma fumaça escura de dois pontos deste lugar, que podemos assemelhar a um acampamento de marginalizados sociais, e o esforço policial para sua desocupação. (fonte lukeprog.com, prêmio Pulitzer de fotografia em 2007).

"FICA DECRETADO QUE HOJE VALE A VERDADE..."

Hoje, dia 10 de Dezembro, deveríamos estar comemorando o Dia Internacional dos Direitos Humanos, com o mesmo espírito que comemoramos o Natal
.

Hoje em milhares de situações ou condições de vida, em todos recantos da Terra, um número inimaginável de seres humanos estão sendo submetidos à Violação de seus Direitos Humanos.

Lembro, ecumenicamente, que aquele que é lembrado no dia 25 de Dezembro, por seu nascimento em uma manjedoura, terminou sua vida terrena em um calvário e sob tortura, na crucificação por um IMPÉRIO, com uma placa onde se lia ser ele o "rei dos judeus", e ao lado de transgressores da lei romana, apesar de sua origem e história como um proto-comunista e universalista dos direitos de todos.

Em tempos de um novo Império, lamentavelmente, vemos que uma discussão acalorada sobre os direitos humanos, quase sempre, caminha para a banalização de que seus defensores somente defendem criminosos, bandidos, violentadores ou meliantes, apenas os que transgredirem as nossas leis e os bons costumes. Diante desta já midiatizada e popularizada versão distorcida, não podemos deixar de contrargumentar sobre a ausência, quase que cotidiana, de uma educação sobre quais são, por quê e para quê os nossos direitos humanos existem e foram transformados em uma Declaração.


Para além da Declaração de 1948, que em sua própria história traz o pós-guerra e a necessidade de um concerto entre os vencedores, ao mesmo tempo que nascia as Nações Unidas (ONU), deveríamos compreender que a sua aparente e impossível universalidade é um fundamento que deveríamos abraçar e realizar.


Entretanto, nos chamam, os ditos defensores de direitos humanos, de utopistas ou de comunistas, ora um pouco sonhadores e em outras naturalizações de "socialistas demais" ou "xiitas"... São múltiplas e heterogêneas as formas de defesa destes direitos, militantes ou não. Porém, com certeza, não são pessoas anestesiadas pelo utilitarismo, pelo liberalismo e muito menos pelo conformismo.

Tentam apagar da nossa memória os nossos Anos de Chumbo. Negam a existência de Trabalho Escravo. Esquecem da cotidiana exclusão e marginalização de crianças e jovens em situação de rua. Suprimem a violência institucionalizada e legitimada dos órgãos oficiais de repressão policial. Renegam a existência de Racismos, intolerâncias étnicas, discriminações de gênero ou de caráter sexual, como a Homofobia. Fecham os ouvidos às vozes sufocadas pela permanência da Tortura e não condenação de torturadores reabilitados. 


 Mantêm invisíveis os milhares de cidadãos e cidadãs que convivem com a miséria ou a pobreza, que são mais graves quando associadas às muitas formas de ser estar com uma ou múltiplas Deficiências. Confirmam a necessidade de Manicômios ou de Asilos para loucos e velhos não-recicláveis, bem como outros considerados cidadãos de segunda categoria, a serem higienicamente isolados. 

Enfim, referendam os que só enxergam, a partir do próprio umbigo, de forma individualista, neo-liberal e narcisista, temendo, como única violência aquela que possa lhes afetar em suas intimidades ou modos domésticos e protegidos de viver...

Tudo isso, ao meu ver, pela profunda macrodespolitização a que estes princípios de direitos sofreram, geraram e podem gerar. O mundo globalizado, e a atual Confêrencia na Dinamarca, nos ensina/confirma que ainda persiste, nos nossos Estados e estadistas, a divisão entre os ricos e os pobres, entre os que se desenvolvem capitalísticamente à custa do não-desenvolvimento de outrem, da segregação e restrição da possibilidade de crescimento e transformação das condições de vida, habitação, saúde e educação, da afirmação dos chamados direitos de 4ª (quarta) geração para os miseráveis da Àfrica, da Ásia ou da América Latina.


Retomo, diante deste panorama mundial, onde me parece que o futuro do planeta e seus habitantes fica novamente a reboque da Economia e do Hipercapitalismo, mesmo sob o risco de ficarmos todos, mundialmente, ou fritos ou afogados, a necessidade de uma busca do que Guattari chamou das Três Ecologias. Ao traçar o paralelo sobre a possibilidade de uma ecosofia de um novo tipo, ético-politica e estética, é que devemos ter em mente algumas idéias poéticas para o convívio entre os homens, suas culturas, etnias e diferenças sócio-político-econômicas.


Precisamos, segundo Guattari, nos tornar capazes de um "movimento de múltiplas faces dando lugar à instâncias e dispositivos ao mesmo tempo analíticos e produtores de subjetividade". Teremos de, rompendo alguns preconceitos e antigos "militantismos", nos tornar mais solidários, ao mesmo tempo que cada vez mais diferentes e múltiplos. Apesar do incômodo, toleraremos as presenças e diferenças de nossos "ESTRANHOS ÍMPARES", EMBORA DESIGUAIS, AFIRMANDO OS PRINCÍPIOS DE NOSSA IGUALDADE NO CAMPO DA DIGNIDADE E DO RESPEITO À VIDA.

Para atualizar meu desejo ecosófico com uma outra forma de afirmar os Direitos Humanos, trago o que considero uma das mais belas poesias sobre o que podemos vir a ser. Muito embora já devessemos ter e ser nos tornado com esta suavidade poética, mais persistentes e resilientes.

 E, então, realizar o compromisso inadiável, na nossa História, para com as mudanças nas três ecologias: a do meio ambiente, a das relações sociais e políticas, e, profundamente, a da subjetividade humana.

No campo da produção da subjetividade, tanto individual quanto coletiva, ainda podemos buscar seu 'transbordamento', qual as enchentes que estamos ajudando a provocar, para fora das posições herméticas e os enclausuramentos egoístas ou identificatórias. Talvez aí possamos, poéticamente, encarar nossas transitoriedades, finitudes, nossas dores, nossos amores e desejos, nossas limitações, nossa morte.

Trago, hoje dia 10 de dezembro, para nossa reflexão o poeta Thiago de Mello, que talvez agora esteja lá no meio de sua Amazonas, preocupado com o futuro de seu pequeno igarapé ou das àguas escuras, vastas, profundas e, quem sabe, ameaçadas do Rio Negro. Pois o Sertão pode virar Mar e o Mar virar Deserto...

"ESTATUTOS DO HOMEM


Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e que de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem".


FONTES:

FELIX GUATTARI - AS TRÊS ECOLOGIAS - Papirus Editora, Campinas, SP, 1993.

THIAGO DE MELLO - ESTATUTOS DO HOMEM - Martins Fontes Editora - São Paulo - SP - 1980

PARA OUVIR O POETA DECLAMANDO SUA POESIA , EM MP3 - http://www.4shared.com/file/91688850/b83bb724/thiago_mello_estatutos_homem.html


LEIAM TAMBÉM NO BLOG - 
ONDE NASCEM E MORREM OS DIREITOS HUMANOS? http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/11/onde-nascem-e-morrem-os-direitos.html
InfoAtivo.DefNet 4314 - Ano 13 - 10/12/2009