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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

EUGENIA – Como realizar a castração e esterilização de mulheres e homens com deficiência?


Imagem publicada – A reprodução da “Eugenics Tree”, um desenho de uma árvore frondosa com as frases “eugenics is the self direction of human evolution” e “like a tree – eugenics draws its materials from many sources and organizes them into na harmonius entity”. É o símbolo máximo que o Segundo Congresso Internacional de Eugenia, em 1921(Nova York), propunha, como a real e “nova” evolução humana. E as suas raízes representadas foram e são alimentadas por algumas ciências, onde a Medicina, a Psiquiatria, a Cirurgia e a Genética têm um papel preponderante. (*ler tradução do texto em inglês ao fim deste texto)

“... O que devemos pensar, em termos seculares gerais da condição dos bebês, dos deficientes mentais e daqueles que sofrem do Mal de Alzheimer? Essas entidades não são pessoas em qualquer sentido estrito...”.

O que você(s) acha(m) que esta afirmação tem de conteúdo bioético? Esta afirmação se encontra no livro de um renomado bioeticista texano: H. Tristan Engelhardt. E seu pensamento bioético(?) constituiu uma excelente oportunidade para reflexão sobre as “não-pessoas”, que se tornam objeto de negação de seus direitos.

Para Engelhardt: “... muita gente se preocupa em atribuir-lhes diversos direitos dos quais desfrutam pessoas adultas” (pág. 185). Como não se constituem no sentido estrito do termo pessoas, são incapazes morais, portanto podem ser moralmente excluídas dos seus direitos humanos.

O mesmo autor poderia ser utilizado para entender a visão secularizada de recente notícia sobre a esterilização de uma mulher com deficiência. Ela é, foi ou será algum dia uma Pessoa?

Para este polêmico autor as pessoas com deficiência intelectual, por sua condição de “severa e profundamente retardados”, e pelas exigências que impõem às outras que são consideradas pessoas “normais” e “morais”, podem ser, como exceção destituídas de seus direitos.

Há quem concorde com estas visões que transformam o Outro e suas Diferenças em apenas um “estranho moral”? Uma exceção à normalidade.

Estamos realmente em 2011? O Século XXI e suas promessas de evolução humana estão sendo realmente realizadas?

Recentemente, mais uma vez, tive o desprazer de noticiar uma aplicação “legal” de uma possível esterilização/castração de uma mulher com deficiência intelectual, em uma cidade bem próxima daqui.

Mais uma vez precisei reconhecer o quanto a Justiça continua sendo exercida, por alguns, dentro dos princípios e padrões anacrônicos e distorcidos sobre as pessoas com deficiência e seus Direitos Humanos.

Para entender estas decisões que geram nossas indignações ou manifestos é que fui buscar novamente outra história: a da Eugenia.

Muitos, a princípio, a associam apenas aos Nazistas e seus métodos de eliminação primária de pessoas com deficiência, depois judeus, ciganos e homossexuais no Século XX (1938 – 1944). Porém suas inspirações são mais americanas do que a historiografia nos transmitiu.

Em 1875 no Kansas, Texas, EUA, foi instituída uma política de eugenia com a castração de homens. O que fundamentava essas práticas do século XIX ainda parece ser o mesmo princípio que é alegado por quem defende esta busca de “purificação da raça humana pela esterilização”. Mesmo que sejam alegadas, judicialmente, a proteção do sujeito ou da Sociedade.

Provavelmente o que levou à autorização de esterilizar uma mulher do Século XXI ainda é a mesma ideologia racista e eugênica que se iniciou com Francis Galton (1822-1911).

Este um dos muitos precursores da Eugenia foi e é muito citado por seu parentesco com Darwin. Mas o que importa é como se constituíram e perpetuaram, historicamente, seus seguidores e admiradores em todo mundo e, em especial, no Brasil.

Ele firmou suas raízes eugênicas primeiras na Inglaterra com uma histórica conferência no Instituto Antropológico de Londres. Isto em 1901.  Portanto, alguns anos antes da apropriação nazifascista desta proposta de uma raça “pura”, perfeição corporal e superioridade hereditária.

Galton, como um dos principais ideólogos do movimento eugênico, enraíza, depois, com sua arborescente eugenia no solo fértil dos Estados Unidos. Um país democrático mas que tem a necessidade de biopolíticas em sua busca de eliminar os “parasitas” desta sociedade emergente.

Eram os tempos dos resquícios do Faroeste, da Escravidão e do Genocídio das nações Indígenas...

Era preciso eliminar, assim como controlar, os desviantes sociais. Herdeiros da concepção biopolítica do Século XVIII/XIX.

A proposta de castrar doentes mentais, alcóolatras e pessoas com deficiência encontrou em discursos médicos o modo aliado, eficaz e prático de exterminar estas “diferenças” prejudiciais ao progresso e à ordem. Também aí nasceram os grandes hospícios, manicômios e colônias penais.

Em outros lugares também se exercitou, nessa passagem dos séculos, a busca higienista de uma sociedade sem defeitos ou defeituosos.

 E, tristemente, uma das deficiências tornou-se um dos campos das experiências, discursos e práticas biomédicas de “purificação” genética: as chamadas idiotias, cretinices e outros retardamentos ditos mentais. Vidas nuas facilmente matáveis.
Os tempos passaram. A Terra já nos apresentou suas próprias convulsões ou retardamentos catastróficos como planeta. E, em seus abalos e tsunamis tenta nos ensinar com aprender com a experiência e o passado.

O que ainda persiste e resiste é essa triste e nefasta visão moralista e moralizante dos sujeitos com alguma diferença ou diversidade intelectual. A visão de Galton ou de Engelhardt, datadas ou contextualizadas superam a passagem do tempo.

Há os que creem em seus modos de produção do conhecimento, quase religiosos, de afirmação de supostas verdades “científicas”. O mundo das leis e os legisladores tornam-se seus prediletos seguidores e portadores.

Então como mostrar a quem foi togado pela mesma Sociedade que o togou como evoluir? Principalmente quando esta mesma sociedade, dos BBB e da Idade Mídia, permanece retrógrada e hiper resistente à quebra de seus velhos e arcaicos paradigmas?

O que temos de continuar buscando são meios ativos de quebrar e fragmentar as micro/macrofascistações em nós. Modos, discursos e práticas fascistas que também se expressam e expressarão através do racismo, da exclusão/segregação escolar, da homofobia, da violência contra quaisquer mulheres ou homens em suas condições e diferenças fora das normas e das morais.

Não bastará que possamos impedir ou levar a Defensoria Pública ao se contrapuser questionando a decisão de apenas 01(uma) esterilização em SP. Há muitas outras castrações que estão em ação, ou ações judiciais, para sutis neo-higienizações sociais.

Nos primeiros lugares destes “anormais” a serem castrados também se encontram outros marginalizados, tratados como minorias, mas que reforçam os modelos biomédicos que promovem a ingerência médica, judicial e policial na vida sexual ou privada de todos (as) cidadãos (ãs).

Não podemos deixar que as raízes desta velha árvore eugênica, que se alimenta de ódios raciais, temores sexuais ou de gênero, discriminações étnicas, raciais ou linguísticas, diferenças corporais ou intelectuais ou quaisquer das manifestações da diversidade humanas se torne o que a Eugenia sonhou: a verdadeira “ciência” que erradicará a fealdade, a anormalidade, a monstruosidade e a doença...

Caso contrário os fundamentos da própria Bioética, uma sonhada ponte para o futuro, tornar-se-á apenas mais uma condenação a repetirmos nossos piores erros históricos.

Deleuze e Guattari nos ensinaram que o Nazismo, assim como outras formas de fascismo, só se viabilizaram através dos desejos de massas, tornadas famélicas pelos horrores de guerras ou terrores econômicos. O Nacional Socialismo não nasceu  apenas na Alemanha.
Teve e pode ter neocristalizações que nascem dos modos moleculares de microorganizações, como a Juventude Nazista. Hoje podem se reanimar em espancamentos de homossexuais na Avenida Paulista?

 São os grupelhos ou os tribunais menores, os que amparam, legitimaram e, ainda podem exercitar a formas tirânicas de extermínio ou esterilização. Foram e serão esses tipos de rizomas ou de segmentaridade arborificada deram e darão aos fascismos “um meio incomparável, insubstituível, de penetrar em todas as células da sociedade”.

Já tivemos, historicamente, médicos brasileiros, como Renato Kehl, nascido em Limeira, SP, que desejavam que pudéssemos ter um Brasil só para pessoas “sãs física e moralmente”.

A cidade, Amparo, onde se julgou a esterilização de uma mulher com deficiência intelectual não fica apenas próxima geograficamente daqui. Lá também pode ficar, anacronicamente, bem perto desta cidade onde nasceu nosso Engelhardt do início século XX que propôs a “a cura da fealdade”.

Há ainda muitos herdeiros do movimento da Liga Brasileira de Higiene Mental ou da Educação Eugênica em nosso país. Com o apoio e aplauso dos poderes constituídos e nossos Governantes podem reinstitucionalizar grandes manicômios, internar compulsoriamente, abrigar ou segregar as populações marginalizadas. E, com o aval jurídico, castrar e esterilizar esses indesejáveis e infames.

 Estaremos aplicando os ‘’remédios sociais’’ para a eugenização do Brasil, segundo Kehl, no livro Sexo e Civilização (1933), com, por exemplo: - “a Segregação dos deficientes, dos criminosos e dos socialmente inadaptados; - a Esterilização dos anormais e dos criminosos com grandes taras transmissíveis por herança; a Procriação consciente e prevenção dos nascimentos por processos artificiais para evitar a concepção, nos casos especiais de degeneração, doença e miséria...”.
 Pedimos, então, aos nossos magistrados que nos ajudem com um novo HABEAS CORPUS. E que esses corpos possam ser respeitados e reconhecidos em sua Diferença ou Deficiências ou Incapacidades.

Talvez, quem sabe, ainda possamos lutar e superar uma Onda que pode vir a ser nosso pior tsunami higienista e eugenista: TODA DIFERENÇA PODE E DEVE SER CASTRADA.

Copyright/left – jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou quaisquer meios de comunicação de massa)

*Tradução livre – ÁRVORE EUGÊNICA“ A Eugenia é o próprio sentido da evolução humana” - “ Como a árvore, a Eugenia extrai sua matéria-prima de diversas fontes e as organiza em uma harmoniosa entidade”

Matéria publicada no INFONOTÍCIAS DEFNET-
DEFICIÊNCIA INTELECTUAL - Justiça de São Paulo quer uma ESTERILIZAÇÃO - Justiça de SP decide esterilizar deficiente mental (Defensoria Pública tenta reverter medida)
LEITURA CRÍTICA A SER CITADA E RECOMENDADA 
FUNDAMENTOS DA BIOÉTICA – H . TRISTAN ENGELHARDT – Edições Loyola, São Paulo, SP- julho de 2011 (4ª Edição)

RAÇA PURA (Uma História da Eugenia no Brasil e no mundo) – PIETRA DIWAN – Editora Contexto, São Paulo, SP, 2007.

Fontes pesquisadas e a pesquisar


LEIA, DIFUNDA E CONFIRME – MANIFESTO DE REPÚDIO DOS CENTROS DE VIDA INDEPENDENTE DO BRASIL

LEIA TAMBÉM E COMENTE–

OS NOVOS MALDITOS E AS NOVAS SEGREGAÇÕES: da Lepra ao Crack http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/02/os-novos-malditos-e-as-novas.html

DEMOLINDO PRECONCEITOS, RE-CONHECENDO A INTOLERÂNCIA E A DESINFORMAÇÃO


UM DIA NÓS SEREMOS QUAL CIF? As Deficiências e sua(s) Classificação(ões) http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/11/um-dia-nos-seremos-qual-cif-as_28.html



ROBÔS, POLÍTICA E DEFICIÊNCIA. 

SINDROME DE DOWN E REJEIÇÃO: UM CORPO ESTRANHO ENTRE NÓS? http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/10/sindrome-de-down-e-rejeicao-um-corpo.html

quinta-feira, 2 de junho de 2011

DEMOLINDO PRECONCEITOS, RE-CONHECENDO A INTOLERÂNCIA E A DESINFORMAÇÃO


imagem publicada - a foto de capa do filme alemão A Onda, de Dennis Gansel, baseado em fatos verídicos ocorridos em 1967, nos EUA, onde um professor de costas, com camisa branca, fala em assembléia escolar para um grupo de seus alunos, todos vestidos de camisas brancas, uniformemente, após uma tentativa do mestre de ensinar o que é Autocracia. Devido ao desinteresse dos jovens, no ensino médio, ele propõe um experimento grupal que explique, na prática, os mecanismos do fascismo e do poder. O professor Wegner se denomina o líder daquele grupo, escolhendo o lema "força pela disciplina" e dá ao movimento o nome de A Onda. Um filme que merece discussão e reflexão sobre a presença de um personagem muito próximo do que se tornou o jovem Wellington na Escola Tasso, em Realengo... Incita-nos a perguntar se os fascimos podem ser replicados e reatualizarem-se?


Recebi um comentário no blog que me reforçou o desejo da escrita. O amigo Vinicius Garcia foi quem me apontou uma tríade de palavras inbricadas: os preconceitos, a desinformação e a intolerância. Este comentário se somou ao que já vinha pensando sobre os mais recentes preconceitos que se difundiram pelas Mídias e sua Idade Mídia Global. 


O momento, com as hiperexposições e des-informações por segundo, exige, portanto, uma reflexão sobre os conservadorismos e, principalmente, sobre os microfascismos que se manifestam contra os movimentos, marchas, legislações e protestos anti-homofobia e anti-racismos, por exemplo.

A questão do preconceito já estava fervendo na ponta digital de minha ''pena''. Escrevo para o Vinicius e outros companheiros da Vida Independente, com esta pena/escrevinhadora, hoje um teclado, que nos tempos das missivas permitiu muitas revoluções, mas também foi o instrumento de alicerce de alguns preconceitos que ainda nos transversalizam. Foi a escrita que perenizou alguns dos mais renomados textos sobre formas de segregar, excluir e penalizar/exterminar as diferenças marginalizadas.

Como dizem, hiperbólicamente: correram muitos rios de sangue, tortura e fogo, desde o Malleus Maleficarum (o martelo das Bruxas), dos tempos de Inquisição, até os textos que os eugenistas, nazistas e outros ''istas'' nos legaram. E o fogo que, outrora, incendiou as bruxas tornou-se câmaras de gás, e os métodos de tortura agora se aprimoram em novos campos de exceção imperialistas.

Um exemplo do processo de formação e construção do preconceito vem por exemplo da idéia de ''raça pura''. A releitura de um excelente texto sobre o tema é o livro de Pietra Diwan, que o sobrenome me atrai pelo homônimo divã. Um divã onde o livro traz a tona um personagem do movimento eugênico brasileiro: o médico e farmacêutico Renato Kehl. Este senhor teve muitos amigos ilustres. E muitos eram escritores famosos. O que mais me tocou foi a sua relação estreita com o ''nosso'' Monteiro Lobato. O livro Raça Pura é, por isso, hoje um motivo de constantes re-leituras de meus conceitos e pré-conceitos.

O que você(s) pensaria(m), se pudesse(m) controlar seus pre-conceitos, ao ler o que Lobato afirmou? O nosso escritor escreveu: "[...] país que nasce torto não endireita nem a pau. A receita [...] para consertar o Brasil é a única que me parece eficaz. Um terremoto de 15 dias, para afofar a terra; e uma chuva de... adubo humano de outros 15 dias, para adubá-la. E começa tudo de novo. Perfeita, não?". 

Esta é uma parte de uma missiva (carta) de Lobato para Kehl, que teve seu livro " A Cura da Fealdade" publicado, em 1923, trazendo na sua capa o subtítulo: Eugenia e Medicina Social. Logo abaixo do título pode-se ler: "A sciencia de Galton é o pedestal da religião que tem por escopo a regeneração da humanidade''. Um livro publicado por Monteiro Lobato&Co. Editores, em 1923, São Paulo, SP.

Espero que esta informação tenha os tenha chocado assim como me chocou. Eu que li toda a obra, ainda nos tempos da ''escola primária'' pude constatar o motivo do banimento hoje dos pré-conceitos lobatianos do ensino fundamental brasileiro. Espero, também, que incomode aos que estão negando a presença de preconceitos e de racismos, ora sutis ora gritantes, na obra do autor reconhecido.

Acredito e desejo que tenhamos desenvolvido uma crítica, que até poderá ser chamada de preconceituosa, sobre o uso da escrita e da informação para fins ideológicos e intolerantes. Alguns defenderão que a época era propícia para estes posicionamentos ou crenças. Mas assim se defenderam os defensores da Ku-Klux-Kan e dos Apartheids. Assim se defendem os deputados racistas, saudosos dos Anos de Chumbo, ou evangélicos homofóbicos, temerosos. 

Os anos 20 e 30 do século passado ainda estão presentes no século XXI. Temos, porém, de relembrar que nesse mesmo período e época é que se desenvolvem os melhores escritos de pensadores como Freud e alguns outros demolidores de preconceitos. Nessa direção é que deve-se pensar a raíz dos preconceitos e da intolerância. Estas raízes sâo e foram apenas a utilização da des-informação dos ''cultos'', e podia se tornar um simulacro. 

Nossos ''escritores'', como os eugenistas, construiam teses, ocupavam espaços das letras e da cultura. Eles eram impregnados pelas informações, a maioria de origem eurocêntricas e racistas, e as torciam ou distorciam de acordo com os mais arraigados pre-conceitos em suas mentes e vidas. O contágio de idéias de eugenia e higiene mental caminharam, abertamente, de braços dados nos primeiros anos do século XX. A medicina e a educação estiveram mais unidas do que antes na busca de "um povo branco e eugenicamente belo".

Talvez, com um pouco de paciência e persistência, possamos reencontrar nos discursos atualizados por deputados ou moralistas religiosos a pretensa Sociedade Eugênica de Kehl ou Lobato. Os eugenistas tinham, assim como uma Onda higienizadora, como pretensão: "Os intuitos da doutrina eugênica podem ser resumidos nos itens: 1º- fazer com que pessoas bem dotadas (geneticamente) ou, mais claramente, as pessoas fortes, equilibradas, inteligentes, portanto de linhagem hereditária sadia, tenham o maior número de filhos; 2º - que as pessoas inferiormente apresentáveis (doentes, taradas e miseráveis) não tenham filhos." 

Hoje, biopoliticamente classificado, permanecem em uma multidão de 16 milhões dos que sobrevivem na ''pobreza extrema'', na sua maioria composta por negros e pardos. Essa multidão deve ser erradicada. Com ou sem preconceitos? 

Como vemos a questão do preconceito tem e teve muitas nascentes. A gênese que me interessa é a que parte dos nossos âmagos, aquela que se entorpece e se alimenta de nossas estranhas entranhas humanas. É o que fazemos quando naturalizamos o que nos é ensinado e transmitido, sem construção crítica e auto-crítica. 

O melhor exemplo é que fazemos com as famosas frases de senso comum, aquelas que até o criador do Sítio do Picapau Amarelo torna em ''verdades universais'', como a de que nós brasileiros e o nosso país ''já nascemos tortos'', ou melhor deficientes ou anormais. E como devemos, preconceituosamente, sermos ''endireitados''? Tornando nossos olhos azuis e nossos cabelos ''ruins'' em longas e lisas cabeleiras nórdicas ou arianas?

Milton Santos nos indica uma reflexão indispensável sobre as Cidadanias Mutiladas no processo brasileiro de construção de sujeitos políticos. Ele afirma que: "A instrução superior não é garantia de individualidade superior. A cidadania não é garantia de individualidade forte. Nem a individualidade forte é garantia de cidadania e liberdade...". 
Assim como é, diz ele, ''o meu caso'', pois: "O meu caso é como de todos os negros deste país, exceto quando apontado como exceção. E ser apontado como exceção, além de ser constrangedor para aquele que o é, constitui algo momentaneo, impermantente, resultado de uma integração casual."

Por isso é que afirmo, apesar de minha instrução ''superior'', que devo ser ainda, por alguns, visto e lido como uma 'diferença' ou exceção. E, aí residem as prováveis análises das situações de preconceito no Brasil. Estas devem ser fundamentadas em um estudo da formação sócio-econômica brasileira. 

Eis um tema ao qual o amigo Vinicius tem como predileção e investigação. Mas ele também pode vir a ser visto como exceção. A sua condição de um economista com uma deficiência física pode ocupar a mesma noção de superioridade em um tempo, se falarmos dele como um Doutor da Unicamp, porém, em nossas mentes preconceituosamente alimentadas, podemos mantê-lo preso a sua cadeira de rodas e à inferiorização dos eugenistas por sua condição diferenciada.

Nesse instante, a Tv nos anunciam o programa do Governo de ''erradicação da pobreza extrema" e a construção de novos mapeamentos da miséria brasileira. Louvável, se pudermos aliar a esta ação biopolítica o reconhecimento da manutenção das misérias humanas que se alimentam vorazmente dos preconceitos, da intolerância e, em tempos midiatizáveis da Era do Acesso, da desinformação e alienação de milhares de cidadãos e cidadãs.

Há, para além de macropolíticas, a presença de um clima internacional contra as raças consideradas ''inferiores''. A intolerância vai além da raças e etnias. Os preconceitos se retroalimentam na globalização e no fomento de guerras de falsa liberação das ditaduras, a exemplo da Líbia. Por isso, perversamente, naturalizam-se os preconceitos, os racismos e as discriminações. Eles continuam a ser os ''bárbaros'' e nós, ocidentalmente, os ''civilizadores''? A fome de lá é diferente da fome de cá?

Nós temos também fome de um outro modo de aprender sobre a exclusão social. O que seria um grande aliado deste programa será a garantia, além da água, do saneamento e da moradia, deve ser a indispensável inclusão escolar. 

É urgente a afirmação de uma educação em e para os Direitos Humanos. Eis, a meu ver, um antídoto a ser aplicado a todos e todas na construção de uma erradicação do melhor fermento para os preconceitos: a idéia de que os mais pobres são e serão sempre ignorantes, portanto, eugenicamente inferiores. 

E aplicado o antídoto inclusivista, quem sabe a Terra Brasilis não se abalará por ''tremores lobatianos'' para afofar o solo e sepultar essas massas. Essas massas humanas que tanto incomodam aos mais abastados e ricos, a exemplo do metrô em Higienópolis, assim como aos mais extremistas que repetem discursos fascistas, xenofóbicos, homofóbicos ou racistas.

Que tal, implicado ao Plano Brasil Sem Miséria, termos um plano ativo de um Brasil Livre dos Preconceitos? ou isso nos custa, individual e coletivamente, um esforço que vai além dos recursos econômicos? O Brasil pode ter nascido torto, como a árvore que deu nome, como muitos dos ''defeituosos'' e suas raízes genéticas, mas não será seu "endireitamento" que trará soluções, nem micro e nem macropolíticas, mas sim uma construção ativa de novos e reais espaços de liberdade e dignidade... 

E,então,nascida nas escolas, nas esquinas, nas ruas e nas mentes... E todas as marchas serão respeitadas e diferenciadas. E todos os pobres, e as nossas misérias, torna-se-ão visíveis.


copyright jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres na Internet e em outros meios de comunicação de massa)

Para ler, conhecer e difundir as idéias de Vinicius Garcia (ainda presidente do CVI- Campinas e permanente ativista do Movimento de Vida Independente)
Blog - Três Temas - http://vggarcia30.blogspot.com/

A Onda - filme de Dennis Gansel (2008) -
http://moviesense.wordpress.com/2009/02/25/die-welle-the-wave-a-onda/

Cinema | O filme "A Onda" numa perspectiva educacional
http://www.passeiweb.com/saiba_mais/arte_cultura/cinema/leonardo_cinema_11_a_onda

Malleus Maleficarum - livro publicado pela Inquisição em 1487, três anos antes da descoberta do Brasil, e que ''diagnosticava'' as mulheres consideradas bruxas ou feiticeiras. http://pt.wikipedia.org/wiki/Malleus_Maleficarum

Leia também no Blog -
Inclusão, Racismo e Diferença
- 

https://infoativodefnet.blogspot.com/2011/05/inclusao-racismo-e-diferenca.html

As Seleções: os Estádios, os Paradigmas e um novo Game 
https://infoativodefnet.blogspot.com/2010/06/as-selecoes-os-estadios-os-paradigmas-e.html

A Parabóla da Rosa Azul
https://infoativodefnet.blogspot.com/2010/05/parabola-da-rosa-azul.html

sexta-feira, 13 de maio de 2011

INCLUSÃO, RACISMO E DIFERENÇA


imagem publicada - um cartaz da Unicef que é parte da campanha contra o Racismo nas Escolas. Ele traz a imagem de uma jovem menina negra, tendo escrito ao lado: "Quézia Silva, aos 29 anos, advogada e o futuro todo pela frente", ela tem os cabelos à moda rastafari, bem negros e um olhar que confirma a frase abaixo: "Em um mundo de diferenças enxergue a igualdade", e solicita o acesso e participação desta campanha em: www.unicef.org.br.


"Era uma vez...", na antiga Iugoslávia, entre tiros reais e dentro da Terra de Ninguém de uma guerra entre sérvios e croatas estabeleceu-se uma comunicação, quase surreal, via rádio, de dentro destas trincheiras. O diálogo, segundo artigo de Kathryn Woodward (sobre aspectos téoricos e conceituais sobre Identidade e Diferença) são um exemplo magnífico de nossas construções de identidade sustentadas pela exclusão do Outro. Nessas conversas de trincheira ficava claro, no meio da escuridão do conflito étnico-racial, que todos estavam perdidos na mesma escuridão. 


Assim falavam os que guerreavam pertencentes a uma pequena cidade, segundo a autora, sobre uma história do radialista Michael Ignatieff: "... Todos mundo conhece todo mundo, eles foram, todos, à escola juntos; antes da guerra trabalhavam na mesma oficina; namoravam as mesmas garotas. Toda a noite, eles se comunicam pelo rádio "faixa do cidadão" e trocam insultos - tratando-se por seus respectivos nomes. Depois saem dali para tentar se matar uns aos outros...". O radialista indaga, por não conseguir distinguir entre os sérvios dos croatas: "O que faz vocês pensarem que são diferentes?"

Eis a pergunta que poderíamos ter feito ao jovem Welligton, após sua triste matança na escola onde estudou, caso ele tivesse sobrevivido à sua guerra particular. Mas também é uma pergunta indispensável para que nos façamos agora, nesse momento, quando comemoramos uma histórica data. O que fez pensarem, aos colonialistas, que havia seres que não eram seres. Por essa razão ocidental e eurocêntrica eles foram tratados com ''diferentes'', e por uma longa jornada na História, escravizados, açoitados, torturados e mortos. 

O que fez, eugenicamente, pensar que os negros eram de uma outra espécie?. Uma categoria sub-humana e, portanto, uma sub-raça que poderiam colocar no tronco, no pelourinho e na senzala. E depois nos "libertarem" pela metade com uma alforria comprada.

Imaginemos uma outra trans-história, ou melhor "estória", onde os habitantes de uma pequena vila chamada Palmares, situada em um imaginário estado separatista de Saint Paul, na fronteira com Higienópolis. Lá, uma guerra pela diferença social esportista e espartana, faz com que os territorialistas palmeirenses estejam em conflito com os quilombolas corintios. Neste diálogo real vivenciado por Michael, lá na Iugoslávia, substituimos os personagens reais da Sérvia e da Croácia por nossos concidadãos armados e intolerantes. Eles e elas são habitantes comuns e não skinheads radicais.

Teremos, então, o seguinte diálogo, ou seja um metadiálogo: "O soldado coríntio (croata) com o qual estou falando pega um maço de cigarros, feitos em palha e fumo de rolo. '-Vê isto? São cigarros verdes (sérvios) . Do outro lado da trincheira e do estádio, eles fumam cigarros palmeirenses". Ignatieff, agora um brasilguaio chamado Marciano, sentindo-se um ET, indagará: " Mas não são, ambos, cigarros?". 'Vocês estrangeiros e intelectuais não entendem nada' - o soldado coríntio dá os ombros e começa a limpar o seu rifle AR 15 (versão latina da metralhadora Zostoco). 

Mas a pergunta do brasilguaio o incomoda, e após alguns silenciosos minutos na trincheira entre Higienópolis e a Zona Leste, ele deposita o rifle em um canto e diz:"Olha , a coisa é assim . Aqueles palmeirenses (sérvios) pensam que são melhores que nós (croatas). Eles (nós) pensam (os) que são europeus finos e tudo mais. Vou lhe dizer uma coisa. Somos todos lixo de Itaquaquecetubas (dos Balcãs)".

Hoje, 13 de maio, data comemorativa da Abolição ouso invocar a Potência Zumbi para desafiar o Capitão do Mato Bolsonada para que me prove a diferença que justificará sua resposta racista a uma indagação sobre a ''miscigenação" no seio de sua eugênica família ariana. E sei que mais um panfleto ou bravata, tipica de quem como ele, acredita que a menor diferença de hábitos, escolhas ou modos de viver, por si só, já justificam a sua exclusão ou extermínio.

Na essência dos temores dos muitos capitães de mato, herdeiros dos Anos de Chumbo, na Terra Brasilis, ainda circulam os mesmos princípios fascistas que circularam nos nossos vizinhos torturadores, para além das semelhanças, dos que frequentaram a Escola da Armada em Buenos Aires. A diferença é que lá na Argentina eles vão para o banco dos réus. 

Por isso os sérvios e croatas tiveram e terão de passar a limpo os genocídios cometidos em nome dos "narcisismos das pequenas diferenças", como a marca ou tipo de cigarros que do outro lado são fumados. Na fumaça de seus cachimbos de boca torta sai um pouco de seus ódios étnicos e raciais. Os capitães, coronéis e generais dos campos de exceção não podem ser esquecidos, muito menos impunes.

Mas para além de combater o esquecimento e reforçar nossas memórias é preciso ir em busca de soluções para nossas pequenas guerras particulares ou coletivas. Não podemos continuar estimulando processos de segregação, discriminação ou de exclusão, seja nos bancos de escola ou nos espaços sociais coletivizados. 

Entra aí a necessidade de um estímulo ao re-conhecimento das diferenças, sem negar as identidades culturais, buscando a convivência criativa com todas as diversidades, entra em ação, por exemplo, uma educação baseada em direitos humanos e de projeto/processo inclusivo.

Entre 13 de maio e 20 de novembro temos uma data esquecida: 16 de novembro. Uma data ainda fora do calendário escolar. Esta é data internacional para a Tolerância, promulgada pela ONU em Paris (1995). Entretanto, sabemos que a Tolerância é um desejo universalista ainda distante da erradicação das formações de novos ódios raciais/étnicos ou de cunho fundamentalista no mundo hipercapitalista. Tolerar, apesar do sentido etimológico de sofrimentos, é também a possibilidade de ir além das nossas mesquinharias narcisisticas.

O seu Artigo 26 : "A educação deve promover a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações, grupos raciais e religiosos" , precisa de consolidação por ações micro e macropolíticas que possam produzir novas subjetividades, novas identidades. Precisam de um re-conhecimento da urgência de uma educação anti-racista, anti-xenófoba, anti-homofobias, anti-fascista, anti-machismos, anti-escravidão no trabalho, anti-pedofilias, anti-imperialistas, enfim anti-homogeneização das diferenças.

Vamos, então, fazer um tratado, um pacto na Terra de Ninguém, aquela fronteira entre Eugenianópolis e Espartonópolis. Vamos dar o primeiro passo para que a inclusão, através do ato de educar ao Outro e si próprio, seja o melhor antídoto para o veneno do Ovo da Serpente de Vidas Nuas que habita o âmago de nossos corpos em serialização e controle biopolítico.

Mesmo sendo um antitabagista, convicto e militante, lhes pergunto: qual é a marca (estigma) da fumaça que sai de seus cigarros, cachimbos ou cigarros, sejam eles reais ou imaginários?


copyright jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o Autor e as referências no texto em republicações livres pela Internet e veículos de comunicação de massa)

Referências bibliográficas no texto:

- Identidade e Diferença: uma introdução teórica e conceitual - Kathryn Woodward - in Identidade e Diferença - a perspectiva dos Estudos Culturais, Tomaz Tadeu da Silva (Org.) , Editora Vozes, Petrópolis, RJ, 2000.

Indicações para Leitura e utilização para reflexão sobre o Racismo:

- Superando o Racismo na Escola - Kabengele Munanga (org.) - Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, 2005.
- Discriminação Racial nas Escolas (entre a Lei e as práticas sociais) - Hédio Silva Jr., UNESCO, Brasília, 2002.
-Tornar-se Negro - Neusa Santos Sousa - Ed. Graal, Rio de Janeiro, RJ, 1983
- Racismos e Anti-racismos no Brasil - Ed. Pallas, Rio de Janeiro, RJ, 2001.
- Raça Pura (uma história da Eugenia no Brasil e no mundo) - Pietra Diwan, Ed. Contexto, São Paulo, SP, 2007.

13 de maio - Data comemora a assinatura da Lei Áurea

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01 NEGRO+ 01 DOWN + 01 POETA - Um dia para não esquecer de incluir -

domingo, 20 de março de 2011

01 NEGRO + 01 DOWN + 01 POETA = 01 Dia para não esquecer de incluir


Imagem Publicada - um cartaz comemorativo do Dia 21 de Março - Dia Internacional de Contra a Discriminação Racial com a frase de A. Einstein: " Época triste a nossa... mais fácil quebrar um átomo que um preconceito". Logo abaixo estão três pessoas: uma mulher loira à esquerda, uma caucasiana?, um bebê de olhos orientais, um japonês?, ao seu lado à direita esta uma mulher negra, uma africana?, elas estão envolvidos pelo mesmo cobertor de cor verde e barra lilás, unidos eles olham para o futuro onde as diferenças possam ser respeitadas e todas as formas de discriminação sejam eliminadas.

01 Negro + 01 Down + 01 Poeta = 01 dia para não esquecer de incluir

Os olhos ''diferentes'' de milhares de japoneses nunca foram tão vistos como agora. Esses olhos miúdos, puxados, orientais, também são os olhos que foram classificados de ''mongolóides'', e erradamente aplicados a sujeitos com deficiência intelectual por sua condição genética: a Síndrome de Down.

Hoje, quando Hiroxima e Nagasaki retornam na onda nipônica da Tsunami, esses nossos olhos também se arregalam, e trazem novamente o pesadelo nuclear. E nós, olhamos assustados a onda avassaladora e terrível no sol nascente. Há em nossos inconscientes, como ameaça indelével, uma arma invisível e mortal que nos exterminará: um cogumelo atômico?

Telespectadores do Capitalismo de Desastre, inebriados, na distância defensiva, televisivamente continuamos nos esquecendo que o Oriente é aqui. Negamos outros desastres próximo como do Haiti, do Chile e das Serras fluminenses.

As tragédias terminam sendo um passado que esquecemos rapidamente. Esquecemos para não nos mantermos próximos de nossas mais profundas angústias, quiçá de nossa pulsão de morte. Assim como nos esquecemos o pertencimento coletivo à mesma Gaia, o mesmo Planeta.

No próximo dia 21 de março novamente estaremos comemorando datas para não esquecer. Os esquecimentos precisam ser vencidos pelo desejo de viver outras experiências, de podermos traçar novas cartografias, vivenciar outras intensidades. Uma dessas vivências eu trago na minha própria pele. É, por isso, que me lembro do Dia Internacional pela Eliminação do Racismo, que foi instituído para rememorar o Massacre de Shaperville, ocorrido em 1960, em pleno Apartheid, quando negros sul africanos foram massacrados pelo exército.

Estes negros entram para a história, junto com Mandela, no seu movimento de resistência ao modelo racista e eugenista da Africa do Sul. Um modelo que adocicamos na América Latina e, na Terra Brasilis, é o chamado racismo cordial, e permanece ainda negado por muitos.

Por isso precisamos incluir + 1 negro nas comemorações que se farão neste mês. Temos de incluir um Negro com Síndrome de Down, ou seja, uma diferença que denote e conote criticamente a Diferença. Ao pesquisar a soma das palavras negros + síndrome de down na Internet, em busca de respostas, o que encontrei foi a confirmação de um modelo excludente naturalizado: as perguntas são sobre a existência, como anomalia, de presença da síndrome de down entre pessoas da ''raça'' negra. A pergunta que muitos se fazem: " é verdade que a Síndrome de Down não ocorre em pessoas com a pele negra?"

Essa ''inclusão" , que ora faço, é uma afirmação da coincidência de comemorações, pois dia 21 é também o Dia Internacional da Síndrome de Down. E uma pesquisa do CDC dos EUA afirma que as pessoas negras com Síndrome de Down têm sete vezes mais probalidades de morte precoce do que as brancas. Mas não há mais ou menos negros ou asiáticos que pessoas brancas down no mundo. O que há é uma visão medicalizada que transforma as crianças negras em populações mais vulneráveis. E vistas como minoria portanto mais marginalizável, com piores condições de vida, ainda mais por serem negras, reforçando-se a visão biologicista das mesmas.

A trissomia 21 é tratada assim como a ''pele'', dentro da visão puramente médica, e algumas perguntas explicitam a visão preconceituosa: Down como doença, e for negra debaixo de duplo preconceito, com a visão racista. Fala-se de ficar ''imune', ''não ter essa anomalia'', "quero saber se os negros tem alguma resistência a isso", enfim na vox populi, ou seja o senso comum do chamado ''povo'', a noção de prevenção afirma que a ''síndrome'' deve ser tratada como uma ''doença a ser evitada'', e se necessário eliminada por um abortamento eugênico.

No bojo das frases e falas sobre a existência de negros com síndrome de Down está latente a questão da eugenia. A condição genética da Síndrome de Down a coloca inteiramente inserida no campo da medicina por esta óptica. Já temos, por notícia recente, um teste preditivo sobre a existência de um feto com a síndrome ainda intraútero.

Por exemplo, a visão do Dr. Eduardo Fonseca, da Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia: "“O nosso sonho é tirar o sangue da mãe e mapear os problemas do bebê. Essa descoberta seria o ‘Santo Graal’ da medicina fetal”. E nessa cruzada pela pesquisa de DNA, como no filme Gattaca, a experiência genética é determinante para a seleção de uma elite humana, dos que ''são válidos", ou seja eugenicamente perfeitos. Um ser humano nascido negro com síndrome de Down seria ''um azar enorme, como se um urubu tivesse feito uma m** duas vezes na mesma cabeça", é o que diria uma médica neurologista que passou e conheci na minha própria história de pai de pessoas com deficiência.

Portanto há, para além das crises e catástrofes que nos englobam e engolfam, visões preconceituosas. São modos de ver, sentir, catalogar, segregar ou discriminar que ainda transversalizam, práticas, ações, reabilitações ou até mesmo as legislações. 

 Temos a presença de nossos preconceitos, desde os altos escalões da macropolítica, dos bem intencionados das diversas religiões ou crenças, dos magistrados que ainda creem e vêem somente "portadores de necessidades especiais hipossuficientes", das famílias que justificam o isolamento suave ou o encarceramento duro dos seus filhos diferentes, dos profissionais de saúde que ainda andam de braços dados com o "retardo mental", dos políticos que se sentem ''legais'' com os ''deficientes mentais''.

Falhamos, na comemoração, pelo esquecimento de que todos e todas ainda não conhecemos, nem celebramos com a mesma intensidade e dedicação, um outro Dia da Diferença, um dia para a afirmação de direitos humanos que deveria, transversalmente, combater essas concepções. Um dia em que Down, negritude e poesia se misturam sem perder suas diferenças, porém exigem a mesma igualdade em direitos. E esse dia é todos os dias, a cada segundo, a cada rotação da Terra.

O dia 21 de março também tem uma comemoração "esquecida" assim como negros e pessoas com síndrome de down, é o Dia Internacional da Poesia. Essa comemoração também é uma diferença esquecida, talvez por seu potencial e diversidade. E com certeza em tempos de consumo, individualismo, egocentrismo e incertezas econômico-políticas, a poesia "não tem o mesmo valor".

Desde um HaiKai à um verso branco, passando por sonetos e rimas, a poesia pode ser um libelo, uma denúncia de nossos apagões da memória. A história e vida dos poetas que o diga. Por isso deixo como mensagem aos diferentes leitores e leitoras uma poesia de um negro, cubano, que dizia não ser um '' homem puro'', Nicolás Guilhén com suas Palabras Fundamentales:
Haz que tu vida sea
campana que repique
o surco en que florezca y fructifique
el árbol luminoso de la idea.
Alza tu voz sobre la voz sin nombre
de todos los demás, y haz que se vea
junto al poeta, el hombre.

Llena todo tu espíritu de lumbre;
busca el empinamiento de la cumbre,
y si el sostén nudoso de tu báculo
encuentra algún obstáculo a tu intento,
¡sacude el ala del atrevimiento
ante el atrevimiento del obstáculo!


Façamos, com inspiração, a soma de:
01 poeta negro + os atores do fime City Down (* E NO FUTURO, QUE NÃO ESPERÁVAMOS TÃO PRÓXIMO, OS COLEGAS-2013) + um pouco de ousadia e coragem + o desejo de outro mundo possível + ações para que nossas memórias não sejam apagadas ou melhor deletadas e distorcidas, e teremos uma combinação luminosa e rica de criatividade e invenção para a Vida na Terra em convulsão...
Vamos nos atrever na busca de resultados de outras matemáticas do viver?


copyright jorgemarciopereiradeandradedefnet (favor citar a fonte, autores e referências em republicações livre em quaisquer meios de comunicação de massa ou mídia)

Referências do texto na Internet:

"É verdade que a Síndrome de Down não ocorre em pessoas com a pele negra?"
http://diariodebiologia.com/2009/10/e-verdade-que-a-sindrome-de-down-nao-ocorre-em-pessoas-com-pele-negra/

Massacre de Shaperville - UM DIA PARA LEMBRAR. UMA INFÂMIA PARA ESQUECER http://racabrasil.uol.com.br/cultura-gente/130/artigo127852-1.asp

Cientistas criam novo teste para detectar Síndrome de Down durante a gravidez 
http://oblogcerto-ge.blogspot.com/2010/07/reportagem-da-revista-veja-sindrome-de.html

FILME - CITY DOWN - A história de um diferente - http://citydown.webnode.com.br/

DIA INTERNACIONAL DA SINDROME DE DOWN
Mais informações: http://fbasd.blogspot.com/

NICOLÁS GUILLÉN - http://www.fguillen.cult.cu/guigale/08.htm

VER TAMBÉM NO BLOG -
O VIGESSIMO PRIMEIRO DIA - CINEMA E SINDROME DE DOWN
http://infoativodefnet.blogspot.com/2010/03/o-vigessimo-primeiro-dia-cinema-e.html


A PAGAR-SE UMA PESSOA COM SÍNDROME DE DOWN
http://infoativodefnet.blogspot.com/2010/09/pagar-se-uma-pessoa-com-sindrome-de.html


* AOS MEUS "COLEGAS", INTOCÁVEIS E INDEPENDENTES - O CINEMA REVERENCIA AS DEFICIÊNCIAS - http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/08/aos-meus-colegas-intocaveis-e.html

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

QUAL É A SUA RAÇA? - Nada a declarar...


Imagem Publicada - uma foto em Preto e Branco de Martin Luther King Jr, o homem negro e ativista de direitos civis, um norte americano que não retornou à África, conforme o desejo de seu presidente Abraham Lincoln, mas afirmou " Eu tenho um sonho..." ( I have a dream) e morreu em 04 de abril de 1968, em Memphis, assassinado... mas deixou o caminho aberto que culminou na presidência dos EUA, agora com um negro.
Foi também perseguido e difamado, como tentativa de apagá-lo da História.

" Vós e nós somos raças diferentes. Existe entre ambas uma diferença maior do que aquela que separa quaisquer outras duas raças. Pouco importa se isto é verdadeiro ou falso, mas certo é que esta diferença física é uma grande desvantagem mútua, pois penso que muitos de vós sofrem enormemente ao viver entre nós, ao passo que os nossos sofrem com a vossa presença..."

De quem é esse pensamento? de Martin Luther King Jr. é que não é... esta é uma afirmação de Abraham Lincoln quando convocou um grupo de negros americanos, hoje chamados de afrodescendentes ou melhor afro-americanos, para um "diálogo" na Casa Branca. Isso ocorreu em 14 de agosto de 1862, quando o presidente tentava lhes explicar o seu desespero quanto ao futuro da "raça" negra nos EUA e o seu interesse em esquemas que os mandasse de volta para a 'mamma' África. Assim começa a história da LIBÉRIA...

No ano passado quando estava imóvel e superdoloroso em minha cama, após a minha neurocirurgia, resolvi começar este Blog. Foi em 14 de novembro de 2009. A primeira postagem era sobre a necessidade de se comprovar o crime de racismo. A primeira postagem teve como título: Atitude racista deve ser comprovada, quando em Minas Gerais o TJ, por maioria de votos negou pedido de indenização por danos morais, pelo servidor R.P.P contra I.A, acusada de atitude racista, por não haver prova suficiente nos autos.

Segundo o ofendido, entre as agressões verbais, ela o teria chamado de “ladrão”, manifestando preconceito racial por declarar que ele deveria voltar para a senzala. E essa afirmação eu já a conhecia muito bem. A minha condição de afrodescendente me chamava para um protesto, para um manifesto e para um alívio de minhas dores. Nasceu e começou assim a história de libertação da dor, como uma chibata, com o blog Infoativo.DefNet.

A atitude de permanência do diversos tipos de racismo na história da humanidade é um fato indiscutível. Podemos separá-lo, a partir de ideologias ou outros modos políticos, da sua existência e persistência, mas não poderemos nunca negar sua presença ainda viva em muitos corações e mentes. As observações de A. Lincoln nos refletem quanto à crença uma ''diferença'' nas relações entre pessoas de raças diferentes, o que não ocorreria entre as pessoas de uma mesma raça. Esquecemos, por isso, que esta visão de 1862, ainda atravessando os séculos, também se permeia de causas políticas, econômicas e sociais.

Ontem deveríamos ter feito uma busca de harmonia com os nossos Diferentes. Ontem poderíamos ter feito uma experiência de educação em Direitos Humanos e Tolerância. Em 16 de Novembro de 1996, a Assembléia Geral da UNESCO convidou os Estados Membros a celebrar o Dia Internacional da Tolerância , de cada ano, com atividades dirigidas às escolas e ao público em geral (resolução 51/95, de 12 de Dezembro). 

Hoje, passados alguns anos, ainda precisamos reafirmar a possibilidade de convivência pacífica com os que denominamos de "diferentes de nós"... dias atrás alguns de nós, racistas de plantão, ainda pretendia, por motivos racistas e excludentes, "afogar" aqueles que ainda usam os paus-arara para migrarem do Nordeste e ajudarem a construir o Sudeste.

Por isso é que a tolerância vem se tornando cada dia mais uma resultante, ou melhor, uma atitude reativa à intolerância, principalmente a que nos é provocada pela violência, pelos movimentos xenofóbicos, homofóbicos, pelo racismo, pela discriminação de pessoas com deficiência, pela segregação de pessoas com transtornos mentais, enfim, todos os movimentos que alicerçam as desigualdades sociais e promovem a Exclusão.

Mas como combater todos estes “males” que estão, transcultural e históricamente, enraizados em nossas mentes e corações? Como combater um preconceito permanente contra toda forma de alteridade ou diferença? O Outro é trasmutado, sempre, em um alienígena que virá nos destruir ou tomar a nossa querida e preciosa Terra ou território identitário.

Para sua exclusão ou até seu ''extermínio'' não precisamos mais apenas dos discursos eugênicos, à moda de Francis Galton ou nazistas, basta que os transformemos em ''pássaros pintados" de outras cores, outras idéias, outros partidos, outras diferenças, outros modos de ser e estar no mundo globalizado. Renasce, então, a busca de uma "raça pura" a ser produzida pelas biotecnologias a serviço de um mundo homogêneo e homegeneizador. O mundo dos ''sem defeitos genéticos ou raciais".

A idéia de raça, portanto, é uma ótima oportunidade para a segregação e para o exercício de "narciscismos das pequenas diferenças", como bem já o demonstrou Freud. É na idéia de que o Outro tem algum atributo, hiper qualificado ou totalmente desqualificado, que o colocamos como "sangue ruim", maléfico e contagiante. O outro passa a ser a encarnação do Mal. E muita gente, em especial alguns políticos neo-liberais, recentemente procuraram se associar à imagem de serem os "homens do Bem".

O Outro, na Idade Mídia, passa a ser visto como o ‘mal’, pois é radicalmente uma invenção maléfica, como o disse Frederick Jameson: o mal é caracterizado por qualquer coisa que seja radicalmente diferente de mim, qualquer coisa que, em virtude precisamente dessa diferença, pareça constituir uma ameaça real e urgente a minha própria existência....” ,

Assim sendo podemos localizar os “bárbaros” fora de nossa sacrossanta e pura imagem de nós mesmos, afinal ‘malvados’ sempre serão os outros, que podem ser tanto um índio, um morador de rua, um doente mental, um favelado, um deficiente intelectual ou alguém que é estranho ou fala uma outra língua.

E, para lembrar Zumbi e sua potência a comemorar, apenas um "negro"... E aí nascem um dos mais persistentes modos de excluir e de estigmatizar esses outros de coloração epidérmica diferenciada. Nascem e renascem, de modo sútil, no reino da democracia étnico racial do Brasil, os novos racismos.

AOS VISITANTES, LEITORES, COMENTARISTAS, COLABORADORES E SEGUIDORES DO BLOG INFOATIVO.DEFNET ENVIO HOJE MEU AGRADECIMENTO E UM DOCE ABRAÇO PELOS MAIS DE 15.000 ACESSOS AO BLOG. E TODOS E TODAS CONVOCO PARA UMA REFLEXÃO SOBRE NOSSOS MAIS ÍNTIMOS E RECÔNDITOS PRECONCEITOS, POIS "NÃO PENDEMOS INTEIRAMENTE PARA O LADO DOS ANJOS"...


NÃO PRECISAMOS COMPROVAR, CONFORME A DECISÃO DO TJMG, A PRESENÇA DA DISCRIMINAÇÃO E DA SEGREGAÇÃO, MUITO MENOS O DESEJO DE ALGUNS DA PERMANÊNCIA DA ESCRAVIDÃO, DO TRABALHO ESCRAVO E DA DESFILIAÇÃO SOCIAL PARA HOMENS, MULHERES, CRIANÇAS, IDOSOS, QUE TENHAM SIDO CLASSIFICADOS OU DE PARDOS OU DE NEGROS NO ÚLTIMO RECENSEAMENTO DO IBGE. O CENSO DIRÁ, OS NÚMEROS AINDA CONFIRMARÃO...

Por isso ainda precisamos nos lembrar de ZUMBI DOS PALMARES... Resistir é preciso, viver é im-preciso. Se me perguntarem qual é a minha raça, sabendo-me apenas humano, demasiadamente humano, responderei: NADA A DECLARAR, como aquele histórico personagem dos anos de chumbo da Ditadura no Brasil, pois já me reconheci em meu NEGRUME. E dele, poeticamente, me apropriei... como Frantz Fanon e Beatriz Nascimento. E, no meu âmago, não preciso explicar que, continuarei de muitas e múltiplas cores, dores, amores, odores e dissabores, tentando vencer meus próprios preconceitos.

copyright jorgemarciopereiradeandrade (favor citar as fontes e autores em reproduções livres pela internet ou meios de comunicação de massa)

INDICAÇÕES PARA LEITURA:

A IDÉIA DE RAÇA - Michael Banton, Edições 70, Lisboa, Portugal, 1977

O RACISMO EXPLICADO A MINHA FILHA - Tahar Ben Jelloun, Ed. Via Lettera, São Paulo, SP, 2000.

*SOBRE A LIBÉRIA - http://pt.wikipedia.org/wiki/Lib%C3%A9ria

ATITUDE RACISTA DEVE SER COMPROVADA
http://infoativodefnet.blogspot.com/search/label/Racismo

COMO FAZER A CABEÇA COM BEATRIZ NASCIMENTO
https://infoativodefnet.blogspot.com/search/label/Beatriz%20Nascimento

NA NOITE GLOBAL TODOS OS SERES TORNAM-SE PARDOS http://infoativodefnet.blogspot.com/search/label/Frantz%20Fanon


MARTIN LUTHER KING Jr.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Martin_Luther_King_Jr.

vídeo - I HAVE A DREAM - http://www.history.com/videos/martin-luther-king-jr-i-have-a-dream

LEIA TAMBÉM NO BLOG -
RACISMO, HOMOFOBIA, LOUCURA E NEGAÇÃO DAS DIFERENÇAS: AS FLORES DE MAIO https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/05/racismo-homofobia-loucura-e-negacao-das.html

RACISMOS, NEGRITUDES E INTOLERÂNCIAS, CONSCIÊNCIA PARÁ QUÊ? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2014/11/racismos-negritudes-e-intolerancias.html

RAÇA, RACISMO E IDEOLOGIA: ZUMBI ERA UM VÂNDALO, UM BLACK O QUÊ? 
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/11/raca-racismo-e-ideologia-zumbi-era-um.html