domingo, 31 de maio de 2015

NEGROS, DEFICIENTES E MESTIÇOS – AS ENCRUZILHADAS DAS NEO/VELHAS-EUGENIAS e de um biólogo estrangeiro entre os novos ‘selvagens’.

Imagem publicada – uma fotografia histórica em preto e branco de um grupo de jovens ‘meninos’ da Juventude Hitlerista, com seus uniformes e perfilados militarmente, como parte de uma grande massa atrás deles, todos nazifascistas. São todos “brancos, belos, loiros ou de cabelos bons, bonitos, saudáveis, higiênicos, normais, sem defeitos ou degenerescências morais, incorruptíveis, guerreiros, patriotas, sem nenhuma deficiência física ou mental, nascidos de casamentos e famílias arianas, ideais, perfeitos, racialmente puros e compõem a elite de seu povo e sua nação...”. Assim podem, ainda nos dias de hoje, se postularem arrogantemente alguns que se considerarem a elite que deve governar e disciplinar a vida dos Outros. Principalmente, se na fotografia distorcida, tivéssemos atrás deles uma massa de seres de muitas raças, degenerados e, em especial, muitos negros, muitos sujeitos com deficiências, pior ainda se forem todos refugiados ou imigrantes da modernidade líquida. Entretanto, o nosso retrato é colorido e bem maquiado, apesar dos apocalípticos e difusores de biopolíticas do medo, pois os nossos jovens neofascistas ainda são uma das diferentes e múltiplas minoria  da Terra BRasilis.

“O Brasil está destinado, como país da imigração, ser o rebotalho movediço(...) seremos o refúgio dos piores imigrantes. Da análise de nossas estatísticas manicomiais e criminais pode o observador atento concluir que a emigração não desejável (dos norte-americanos) é a que constitui o principal fator de aumento de alienados e delinquentes em nossos manicômios e prisões(...)” (Juliano Moreira apud Cunha Lopes, 1940)

O que acontece se um britânico tropeça e cai em um aeroporto brasileiro? A sua testa e olho são feridos. A sua massa encefálica continuará sendo a mesma? Lógico que sim, a mente desse homem que aparece elogiando a atenção médica e os pontos que recebeu no SUS, não difundida, é a de um eugenista em pleno século XXI. Falo de Richard Dawkins. O mesmo que, ainda hoje, tropeça em discursos higienistas e eugenistas do século passado, no mesmo tom do protopsiquiatra Moreira e do higienista Cunha Lopes.

O seu acidente teve notoriedade pela sua afirmação sobre o SUS, eis a manchete: “BIÓLOGO BRITÂNICO ACIDENTADO EM SP ESCREVE TEXTO ELOGIANDO ATENDIMENTO DO SUS”. Afora a sua surpresa de nossa presteza e rapidez no seu cuidado, seu olhar colonialista continua subjacente na sua surpresa e comparação com seu país. Para ele: “... o atendimento médico na Inglaterra é muito demorado”.

Nenhuma das notícias diz que palestras, que temas e onde proferiu suas ideias. Muito menos sobre seus polêmicos discursos sobre pessoas que não deveriam nem ser concebidas.

Saiamos do Aeroporto de Guarulhos e seus tropeços. Vamos aqui abrir umas páginas da História de nossos primeiros eugenistas. Nelas é que encontrei e encontro respostas, ainda inconclusas, sobre as encruzilhadas que transversalizaram e transversalizam tanto os negros, os mestiços quanto as pessoas com deficiências. A questão racial foi preponderante, a meu ver, para que milhares de pessoas com deficiências, em especial as intelectuais, serem quase uma maioria dentro dos hospícios do século XX.

Indagam-me, recentemente, se não transformaria essa já velha pesquisa em material acadêmico. Respondo que, na minha modesta opinião, ainda não foi criado no mundo científico e universitário um verdadeiro e novo paradigma sobre o tema, a partir de uma visão dos afetados. No futuro quem sabe ou quem desejará fazê-lo? Ainda estão muito distantes de doutoramentos e suas pós, mesmo com as ações afirmativas, os nossos negros, nossos sujeitos possuidores, em um só e no mesmo corpo, desses estigmas da mestiçagem, da deficiência e da escravidão.

Já há um magnifico trabalho da Prof.ª Dr.ª Lilia Lobo, da UFF, sobre os “Infames da História: pobres, escravos e deficientes no Brasil”, tese e livro nos quais, em sua metodologia foucaultiana, desnaturaliza todo o constructos históricos sobre o corpo deficiente, e sua submissão às dominações e disciplinarizações seculares. Lá também são levantadas questões que ainda me faço, já que tive o privilégio da interlocução e convívio com a autora.

São apresentadas em sua obra como as Vidas Nuas em que se transformavam os corpos cativos negros que podemos buscar algumas raízes de corpos infames. Ainda no Império forjaram as imagens monstruosas, dos corpos marginais, passando pelos ‘alienados’ dos manicômios, e, tendo seu ápice nas imagens de anões nus e constrangidos diante de objetivas de laboratório eugênicos no início do Século XX.

Pelos discursos dos eugenistas é que poderíamos buscar os atravessamentos que, trans historicamente, ainda persistem em muitos dos discursos oficiais ou autorizados dentro das universidades e do meio social. O modelo de higiene mental e de eugenia nasceu, foi propagandeada e proliferou exatamente através das falas dos ‘mestres’. Como Lopes ou Moreira, ou mesmo o nosso consagrado Monteiro Lobato e seus amigos.

Na posição de uma das mais eminentes figuras de nossa Psiquiatria, lá em 1906, Juliano Moreira já antevia, nos Arquivos Brasileiros de Psiquiatria, comentando sobre as moléstias ligadas à herança, dizia que “... em breve surgirá a época da higiene profilática”. Este discurso serviu anos depois para que Cunha Lopes, em 1917, com apoios de outros eugenistas pudesse forjar a constituição da Comissão Central Brasileira de Eugenia.

Esta Comissão tinha como objetivos: a) manter no país o interesse pelo estudo das questões de hereditariedade e eugenia; b) propugnar a difusão dos ideais de regeneração física, psíquica e moral do homem; c) prestigiar ou auxiliar, ad libitum, toda organização científica ou humanitária de caráter eugênico. Poderíamos, retirando o termo eugenia, atualizar e encontrar esses objetivos em discursos de biólogos, geneticistas e até bioeticistas nos tempos atuais? Em que espaço social encontramos maior respaldo de suas ideias e suas crenças científicas?

Encontrem as respostas lendo Dawkins e outros muito atuais defensores da ‘boa herança genética’ ao modo de Gattaca. Para eles e Cunha Lopes se deveria e se deve ‘aumentar a descendência de casais (heterossexuais e puros) geno e fenotipicamente sadios. Aí também se cruzam os discursos de fanáticos religiosos e alguns pastores evangélicos.

E, para atingir as metas eugênicas não teríamos, por esse discurso naturalizado, de procurar limitar o máximo possível a descendência de anormais e restringir a multiplicação de indivíduos hereditariamente inferiores?

Para Cunha Lopes, em 1940: “As medidas que decorrem da eugenia ... dependem do esforço das elites e da educação das massas populares”. Não ouvimos, assistimos e lemos recentemente esse mesmo discurso de ‘limpeza’ de nossas ‘’impurezas político-sociais’’ de nossas chamadas “elites” brancas e verde amareladas? Afinal, segundo ele: “...cruzamento de raças próximas costuma dar bons resultados no tocante ao físico e também para o lado psíquico, ao passo que a mistura de raças mui diversas (esses pardos e pardais) entre si dá resultados desfavoráveis”.

Estamos realmente no Século XXI? Ainda temos de ouvir e ler sobre ‘regeneração nacional’, ‘aprimoramento das populações marginais e miscigenadas’, ‘controle social das degenerescências e corrupções herdadas’? Acho que o biólogo britânico veio por aqui nos lembrar das políticas de esterilização em massa, dos controles biológicos das possibilidades heredológicas desviantes, da castração de inaptos e inferiores de cores de pele perigosas quando associadas a deficiências, inclusive as morais e políticas.

Como então, reagir diante das novas selvagerias e violências que estes ‘neo-selvagens’ e anormais da Terra Brasilis, fazem proliferar? Abolindo a faixa etária para seu extermínio? Antecipando sua tendência para ser cordialmente miscigenado? Construindo novas e sutis formas de controle populacional dessas minorias que são maiorias da cor de pele? Embranquecer os negros, inclusive os ‘portadores’ de ‘invalidez’ social e econômica? Prevenir o surgimento de novos ‘defeituosos genéticos’ e novos sujeitos que se afirmem em suas deficiências como singularidades? Sanear de todos os ‘malditos e infames’ a nossa gloriosa Pátria?

Seriam, como já publiquei, a utilização de novos ‘choques’ e novos ‘testes e técnicas psicológicas’, ou seja ‘científicas’, a maneira perversa e contraditória, para erradicar os preconceitos, as discriminações e as ‘eliminações’ desses Outros anômalos? 

Vejam o que se pode propor para eliminação dos racismos e machismos na experiência desenvolvida em universidades dos EUA (matéria InfoNotícias DEFNET recém publicada no blog). Poderíamos submeter toda aquela tropa de jovens hitleristas às lavagens cerebrais que apagariam de suas memórias os ódios raciais? E dos novos ‘guris’ neo-liberais dos dias de hoje?

Há muitos que ainda se deixam iludir e seduzir pelas nossas colonizadas imagens e sonhos eurocêntricos ou norte-americanófilos.  Nossos eugenistas também o fizeram, visitaram a Inglaterra, os Estados Unidos, a Itália, e, principalmente, a Alemanha, antes e depois dos Nazifascismos surgirem como desejo de massa. Aspiraram serem herdeiros daquelas ‘ciências’.

Foi seu modelo eugenista que se naturalizou através dos muros e das instituições que construímos, fossem os hospícios, as colônias agrícolas ou os manicômios. Nestes espaços instituídos forjaram-se muitas formas de ‘tratamento’, ‘reeducação’, ‘reabilitação’ e ‘educação’ que depois se transformaram nas encruzilhadas institucionais onde se miscigenou o corpo negro, o corpo pobre e o corpo deficiente. E os ‘homens-elefante’ daqui tinham, além de seus feiuras morais também os vícios e defeitos genéticos a serem extirpados.

Há, pois, que também desnaturalizar a fala de um neo-eugenista e biólogo estrangeiro, mesmo que esteja nos elogiando o sistema único de saúde. A sua visão não foi modificada pelo tombo brasileiro. Os seus preconceitos arraigados e ‘cientificamente’ estruturados não foram abalados. Assim com eles há também os nossos conterrâneos contemporâneos, brasileiros e brasileiras, que como as elites do passado ainda pensam obtusamente de ‘de olhos virados para trás’. Pedem até a ‘tortura na hora certa’ e a Ordem como ditadura.

A eles peço que reflitam após assistir como podem os que se considerem melhores, mais puros, mais inteligentes e mais fortes, assim como desejavam os médicos eugenistas, tanto aqui como na Alemanha Nazista, transformar a morte e extermínio, no caso de forma ‘indolor’ pelo gás, de corpos e mentes defeituosas em práticas ‘empresariais’. Assistam o Action 4 urgentemente. Os doutores dessa História também colecionavam cérebros.

E, por favor, convidem o nosso estrangeiro biólogo para esta reflexão. Não se esqueçam de lembra-lo que o SUS foi uma resultante de muita luta pelo direito humano inalienável à saúde para todos, sem discriminação, sem exceções. A família Hulk que o diga.

 E, lhe digam que ainda temos muito a aprender para que os corpos, nas suas diferenças, inclusive as resultantes de nossas inconscientes colonizações, permaneçam na busca da chamada liberdade sócio-política. A mesma que pode ser o antídoto para que nossos desejos eugenistas e fascistantes possam ser combatidos.

Já sabemos que a maioria de nossos corpos deficitários podem ser, estatisticamente, classificados como ainda pobres, marginalizados, negros, violentados, eliminados, neo-escravizados e, perversamente, tornados os principais objetos dos discursos de inclusão. Somos mesmo apenas 24 a 25 milhões de pessoas com deficiência? Qual é mesmo a cor da pele dominante de nossas a-normalidades?

Avisem, enfim, que não é a maioria, ainda, das massas que desejam retornar às garras duras dos Anos de Chumbo, mas que é preciso RE-EXISTIR. O rio da Vida que escolhemos tem águas turbulentas, mas continua correndo, apesar de tentarem represa-lo. O preferimos às águas pantanosas dos lagos estagnados de quem só quer os cérebros para a dominação, a perfeição de si e o ódio ao Outro.

Copyright/left jorgemárciopereiradeandrade 2015-16 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação e dominação de massas)

Matérias da Internet ligadas ao texto -

Richard Dawkins diz que "é imoral" uma mulher dar à luz um filho com síndrome de Dow http://oglobo.globo.com/sociedade/saude/richard-dawkins-diz-que-imoral-uma-mulher-dar-luz-um-filho-com-sindrome-de-down-13680998

BIÓLOGO BRITÂNICO ACIDENTADO EM SP ESCREVE TEXTO ELOGIANDO ATENDIMENTO DO SUS http://br29.com.br/biologo-acidentado-em-sp-escreve-texto-elogiando-atendimento-do-sus/

LEITURAS CRÍTICAS INDICADAS –

A HORA DA EUGENIA – Raça, Gênero e Nação na América Latina, Nancy Leys Stepan, Editora Fiocruz, Rio de Janeiro, RJ, 2005.

ARQUIVOS DA LOUCURA – Juliano Moreira e a descontinuidade histórica da Psiquiatria,  Vera Portocarrero, Editora Fiocruz, Rio de Janeiro, RJ,2002.

OS INFAMES DA HISTÓRIA: Pobres, Negros e Deficientes, Lília Lobo, Editora Lamparina, Rio de Janeiro, RJ, 2009. (Veja e leia em - http://www.historiaecultura.pro.br/cienciaepreconceito/producao/infamesdahistoria.pdf

DOCUMENTÁRIO indicado para reflexão sobre eugenia, medicina, psiquiatria e nazifascismo Ação T4: Um Médico sob o Nazismo -   Direção: Emmanuel Roblin País: França Ano: 2014 (Legendado)  -Este documentário relata a história da chamada "Ação T4", que consistia em eliminar deficiências físicas e mentais e pessoas consideradas inúteis e prejudiciais pelo regime nazista. Em espaços médicos e psiquiátricos,  diferentes experiências para sua eliminação, de forma prática, indolor e eficaz foram realizadas, até o aperfeiçoamento das câmaras de gás. Dr. Julius Hallervorden, importante nome na ciência da patologia cerebral, contribuiu para o assassinato sistemático de alemães mentalmente doentes, ordenado por Hitler. Ele, no entanto, seguiu uma carreira brilhante no pós-guerra, impune, e morreu coberto de honras. Entre 1939 e 1945, pelo menos 200.000 pessoas com doenças mentais ou pessoas com deficiências foram assassinadas. Exibições no Canal Curta! - http://old.hagah.com.br/programacao-tv/jsp/default.jsp?uf=1&action=programa&canal=BQ4&operadora=25&programa=0000437625&evento=000000538832631&gds=1&hgh=0

LEIA TAMBÉM NO BLOG –

EUGENIA – COMO REALIZAR A CASTRAÇÃO E ESTERILIZAÇÃO DE HOMENS E MULHERES COM DEFICIÊNCIA? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/01/eugenia-como-realizar-castracao-e.html

OS MORTOS-VIVOS DO HOSPÍCIO QUE ENSINAVAM AOS VIVOS SOBRE A VIDA NUA... BARBACENAS NUNCA MAIS – https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/10/os-mortos-vivos-do-hospicio-que.html

"RACISMOS/PSICOLOGIA - Os preconceitos podem ser apagados dos nossos cérebros? Racismo e machismo podem ser apagados do cérebro"  https://infonoticiasdefnet.blogspot.com.br/2015/05/racismospsicologia-os-preconceitos.html


RETORNAR À CASA VERDE, RETROCEDER E INSTITUCIONALIZAR A LOUCURA? OU SOMOS TODOS ‘LOUCOS’? https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/05/retornar-casa-verde-retroceder-e.html

3 comentários:

  1. Suponho que haja algum engano na citação atribuída a Juliano Moreira, apud Cunha. Juliano Moreira SE OPUNHA a esse tipo de concepção. Empenhou-se especialmente em refutar Nina Rodrigues. Caso haja mesmo um texto desse teor em sua obra, deve estar apenas mencionando as ideias que busca rebater. Será muito triste fazer esse gênio negro brasileiro conhecido justamente pelas ideias a que se opunha!

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    1. Caro Ralf
      a citação de Juliano Moreira, também chamado de Pinel brasileiro, encontra-se dentro da vasta pesquisa de Vera Portocarrero, nas páginas 54-55, e revelam como os médicos e intelectuais apoiavam, apesar de suas ações na direção da consolidação de seus campos de saber, no caso a Psiquiatria, os ideários do movimento eugenista, cujas raízes estavam nascendo junto com os processos de medicalização da sociedade e de seus desviantes...Quanto a ser gênio não há discussão, ao fato de ser negro também, mas quanto ao médico psiquiatra há que ler seus textos nos ARCHIVOS DA PSIQUIATRIA para desmitificá-lo...e a questão central de meu texto é como os modelos eugênicos transpõem os séculos e seduzem até os que propõem uma eugenia positiva e liberal hoje em dia.... doceabraçoantimanicomial

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  2. A mestiçagem, o racismo, a escravidão, o preconceito, o estigma, a discriminação estão tão intimamente entranhados e arraigados que, nem mesmo os que as sofrem percebem, o quão injustiçados, desprezados e vilipendiados são! Ficam estagnados ante toda a miséria e veem tudo isso como "normal", acreditando que não poderia ser de outra forma... foi sempre assim! Foram tão profundamente apequenados, espezinhados e ultrajados que nem creem ter direito à revolta! Acham só ter a agradecer, pelas migalhas que recolhem...

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