quarta-feira, 15 de maio de 2013

RETORNAR À CASA VERDE, RETROCEDER E INSTITUCIONALIZAR A LOUCURA? OU SOMOS “TODOS” LOUCOS?



Imagem publicada – uma cabeça humana dividida em áreas, com cores diferentes, representando as características que deveriam (ou segundo alguns ainda hoje em dia) compor uma unidade do cérebro com a mente, criada pela Frenologia. Segundo seu fundador, o médico austríaco Franz Gall, a mente e seu órgão físico não podem ser separados. Antecipadores de algumas descobertas das neurociências, ainda no Século XIX, os frenologistas tornaram-se os melhores cirurgiões do cérebro. Entretanto, usaram outros métodos diagnósticos e classificatórios. Através de um exame exterior da cabeça de um indivíduo, afirmavam determinar nas nossas dobras e protuberâncias cerebrais, as nossas dobras interiores da Moral, das Faculdades Intelectuais, da Benevolência, da Combatividade, da Destrutividade e outras que nos tornariam “portadores de boa saúde” física e mental. Em alguns caminhos trilhados nos EUA se aproximou da Eugenia, e constitui-se um dos primórdios dos modelos que desejam inclusive diagnosticar o grau de criminalidade possível de cada um, singularmente, pelos caroços e imperfeições de nossa calota craniana.

“Torrente de loucos.
Três dias depois, numa expansão íntima com o boticário (farmacêutico) Crispim Soares, desvendou o alienista o mistério do seu coração.
- A caridade, Sr. Soares, entra decerto no meu procedimento (hoje seria ou será o seu DSM ou a internação compulsória?), mas entra como tempero, como o sal das coisas, que é assim que interpreto o dito de S. Paulo aos coríntios: ‘ Se eu conhecer quanto se pode saber, e não tiver caridade não sou nada’. O principal nesta minha obra da Casa Verde é estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar lhe os casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio universal. Este é o mistério do meu coração. “Creio que com isso presto um bom serviço à humanidade...” (O Alienista – Machado de Assis, 1882).

Eis um menino que poderíamos ter tornado um “caso clássico para um tratamento clássico”. Machado de Assis era negro, pobre, gago e epiléptico. Um menino mestiço que nasceu de uma família extremamente humilde, no Morro do Livramento, uma comunidade, uma favela, no Rio de Janeiro, em 1839.

Entretanto foi, quem sabe, esta origem que lhe permitiu vislumbrar uma das mais importantes obras que criticam, em literatura, a institucionalização da Loucura. O seu Alienista, como no texto acima, desejava o que a Psiquiatria, também nascida nesse século XIX, estudar e classificar todos os quadros de anomalias mentais e psicopatias.

A evocação literária deste escritor-maior é para colocar em questionamento a atual produção de subjetividades adoecidas pelo modelo de controle, higienização, internação compulsória e falsa solução de todos os chamados transtornos mentais e os abusos de drogas.

Uma das alegações mais frequentes nas páginas de jornal, revistas, manchetes, destaques, falas apocalípticas pela TV, sobre os que são e estão nesse campo das saúdes mentais, é que ao ‘soltá-los dos hospícios, clínicas, comunidades, manicômios’, com as ditas reformas os ‘deixamos abandonados à própria sorte’... E os loucos pululam (pós-Lulam?) e poluem as nossas ruas, calçadas e embaixo dos viadutos.

Qual então será a solução se continuamos, alienistas e higienistas, buscando uma Sociedade limpa, organizada, normal, feliz, sem conflitos, sem dramas pessoais ou coletivos? Pelo olhar do personagem machadiano da Casa Verde, os Simãos Bacamartes, hoje neo-alienistas, primeiramente deveriam estar todos incluídos nos esquadrinhamentos e estatísticas sobre as loucuras. Todo mundo lá pode estar, ficar e nunca sair.

Essa é, então, a solução encontrada recentemente pela chamada ‘Bíblia da Psiquiatria’, o DSM, que indo para sua 5ª Edição, o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders ou DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, em tradução livre).

Segundo a APA (Associação Americana de Psiquiatria (American Psychiatric Association, ou APA, na sigla em inglês), os “novos diagnósticos”, resultantes do trabalho de especialistas, “...poderão impactar o diagnóstico de doenças mentais, em um momento em que, segundo estudo da Universidade de Harvard, quase metade dos americanos adultos em algum momento da vida sofrem de algum transtorno mental”.

Mas será que devemos nos incluir entre estes insanos, drogados, marginalizados, empobrecidos, excluídos e desfiliados? Quem sabe hoje o ‘mulato de Assis’ teria utilizado um ‘machado frenológico’ para criar um divisor de águas.

De um lado os habituais frequentadores da Casa Verde, inclusive todas as Câmaras, nas três ou mais esferas de poder, que lá iriam só de passagem. Nesse grupo de elite estariam os que são íntegros, de bom caráter, sem impulsividades ou compulsividades (em especial a cleptomania ou outras psicopatias corruptíveis dos bons).

Porém, dentro no outro grupo maior e mais ativo socialmente, estaríamos, nessa perspectiva, todos e todas incluídos. Os cidadãos e cidadãs, essa população inteira sem equilíbrio total das faculdades mentais.

 Uma população que tende sempre para as transgressões, para as perversões, neuroses, psicoses e outros novos quadros classificados pela DSM. Há ainda que incluir os que, parvos, cretinos, imbecis e débeis, cometem os Sui-CID-ios, ou que, na sua santa e sacrossanta debilidade mental, nem têm capacidades para tal ousadia.

Já que nosso padrão internacional, oriundo de apenas um país, onde a democracia, inclusive a racial, é ‘mentalmente perfeita’, afirma cientificamente que 50% dos seus habitantes é passível de diagnóstico psiquiátrico, quem somos nós os ‘cucarachas’ latino-americanos para contestá-los?

Lá não se praticam os mesmos atos de vandalismo, as mesmas barbaridades, as mesmas loucuras sociais. Lá não se matam pessoas com crueldade. Não cometem esse distúrbio ignóbil de atirar a esmo. Não violentam e nem discriminam negros, homossexuais, pessoas com deficiência, mulheres ou crianças. Muito menos abandonam os seus velhos e suas velhacarias. Tendem ou para angelicais ou semideuses?

 E, no nosso reinado, frenológicamente diagnosticável, da imperfeição intelectual e das qualidades mentais, esses ‘subdesenvolvidos mentais’, abaixo do Muro do México, pela visão eugênica e racista, quem sabe não são 100% enquadráveis nas novas nosologias e patologias? Somos, então, mesmo no luto ou na tristeza, passíveis do ‘remédio universal’ de Simão Bacamarte.

Resta, porém, até mesmo nos Paraísos Artificiais, nos mais ‘desenvolvidos mentalmente’, os que se colocam como os filósofos, na dúvida e no questionamento dessas tabulas rasas e desses enquadramentos. Se não o que já nos teria acontecido?

Há os que pautados pela ética e pela bioética gostam de duvidar, questionar e interrogar: "Como presidente da Força-Tarefa do DSM-IV, eu devo assumir responsabilidade parcial por essa inflação de diagnósticos. Decisões que pareciam fazer sentido foram exploradas por empresas farmacêuticas em campanhas de marketing agressivas e enganosas. Elas venderam a ideia de que problemas da vida cotidiana são na verdade doenças mentais, causadas por desequilíbrios químicos e curadas com uma pílula", diz Frances, que é professor emérito da Universidade de Duke, na Carolina do Norte, e um dos maiores críticos do DSM-5.

O temos de inventar ou criar para controlar as manifestações mais recentes de cunho populacional ampliado? Como resolver as resultantes sociais e patológicas do crescente consumo de substâncias psicoativas proibidas? Como solucionar o crescente e estimulado número de pessoas que vivem em situação de rua? E os meninos e meninas que se alimentam de luz e cola, como resolver sua proliferação? Como classificar os atiradores que entram em cinemas, escolas, universidades e matam indiscriminadamente?

Aos menores quem sabe alguns dirão que cabe uma institucionalização compulsória. Afinal para que esse tal de Estatuto? ECAS não aprenderam ainda que esses seres proliferam como essas bactérias super resistentes aos antibióticos? Se aplicarmos as medidas a este infratores menores com penalizações maiores não estaremos reduzindo este número exponencial e sem controle biopolítico?

Desde o Século XVIII estamos nos aperfeiçoando, mundialmente, para que as formas de controle biopolítico e social se alicercem nas ciências e nas práticas sociais da Educação e da Saúde. No campo da saúde mental já vivemos muitos processos de hiper institucionalização e hospitalização da loucura e dos loucos.

No nosso país assistimos ou participamos de um processo de desHospitalização, ou melhor uma desinstitucionalização, que vem sendo questionadas e discutidas, principalmente pelo chamo de contra-reforma psiquiátrica. Há uma intenção de apresentar todo o processo de construção de políticas públicas de saúde mental como unicamente centradas nos Centros de Atenção Psicossocial.

Nos Caps, como uma das tecnologias possíveis, temos de cuidar intensamente da sua exclusão e seu processo de reterritorialização, principalmente nos estados mais conservadores como São Paulo. Há que promover uma intensa discussão sobre a sua transformação lenta e progressiva em novas Casas Verdes. E, mirando a desinstitucionalização, aceitar as ambiguidades que acabamos por promover junto com o Estado e os Estados.

Não são somente os Centros de Atenção que podem dar conta de tamanha população bacamartiana. São hoje e serão mais ainda pelo DSM os frequentadores cotidianos de novos mini-cômios que estão para ser construídos dentro de grandes hospitais. Veja(m) o que já escrevi sobre a reinserção e manutenção, apesar e fora da lei 10216, de Caps dentro de Hospitais.

Preciso, por força de hábito e experiências, de repetir: SAÚDE MENTAL? QUANDO INTERNAMOS OS CENTROS DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL?

Se formos também diagnosticar quais são as mazelas de nossos equipamentos criados para substituir os modelos higienizadores, com o cuidado de autocrítica e reflexão coletiva, encontraremos em ação alguns efeitos colaterais ou repetições que nos comprometem com a visão bacamartiana.

Não fechamos as portas e os portões como no passado? Não buscamos o enquadramento dos ‘pacientes usuários’ em nossos conhecidos e velhos diagnósticos? Não lhes prescrevemos mais medicamentos?  Não centralizamos as ações dos chamados territórios em um único espaço físico? Não nos isolamos das ‘comunidades’ que nos cercam ou cerceiam?

Há muitos anos atrás quando iniciava meus caminhos na psiquiatria me indaguei das relações e origens comuns entre a Psiquiatria, a Psicanálise e a Religião. Hoje, com a recorrência de títulos das matérias sobre o novo manual DSM, tenho uma sensação de dejá vu. Não é apenas um significante que se apresenta com esta nova ‘Bíblia’ para os especialistas.

É também a recorrência e a repetição de um movimento conservador que, utilizando nossos próprios ‘diagnósticos institucionais’, nos diz que estamos falidos ou fracassados se não seguirmos um novo/velho dogma: constituir e instituir novas Casas Verdes.

Não é por simples conhecimento bíblico que Machado de Assis nos cita São Paulo. É que em seu tempo, para ele que viveu na pele a  exclusão e preconceito por sua cor e epilepsia, já se manifestavam as técnicas e métodos de cura ou de tratamento pela hospitalização.

Quando o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras nasceu, em 1839, já tinham nascido nos estertores do Século anterior os progressos da medicalização fisicalista e rigorosa, como diz Foucault, também “militante e dogmática, da sociedade, por uma conversão quase religiosa, e a implantação de um clero de terapeutas...”.

O que o alienista acreditava é uma ‘saúde da alma’. E para conquistá-la ou promovê-la a sua ciência “tem o inefável dom de curar todas as mágoas”. Como um ‘verdadeiro médico’, como já se esperava de um higienista, em sua Itaguaí, criticou a vereança pelo descaso com os dementes.

Naquele município, como muitos ainda dizem ocorrer séculos depois: “... é que cada louco furioso era trancado em uma alcova, na própria casa, e, não curado, mas descurado, até que a morte o vinda defraudar do benefício da vida; os mansos andavam à solta pela rua...”.

Nós, aqui, os habitantes da Aldeia Global, portadores da nova doença heteronômica, que abre espaço para uma nova iatrogênese (doenças causadas ou inventadas pela medicina), veremos os novos Simãos Bacamartes, pedir às autoridades dos Governos uma reforma nova desses costumes tão ruins.

Simão, no texto “machadiano“,,, pediu licença à Câmara para agasalhar e tratar no edifício que ia construir todos os loucos de Itaguaí e das demais vilas e cidades, mediante um estipêndio (hoje um financiamento governamental), que a Câmara lhe daria quando a família do enfermo o não pudesse fazer...”.

E que existam hoje os milhares de sujeitos com esquizofrenia, bipolaridade, drogadição, depressões e neuroses graves não se pode negar. Entretanto, eu aqui com minhas mazelas psíquicas e físicas, me dou o direito de não enquadrar meus lutos ou perdas em sintomas de novos estresses pós-traumáticos.

Não deixaremos de ter nossas ‘torrentes de novos loucos’. Não deixaremos de ter sofrimentos psíquicos ou dramas existenciais. Não deixaremos de ter ideações confusas, delirantes ou paranoicas, principalmente estas últimas tão em moda em alguns macropolíticos evangelizadores.

A única diferença entre nós e o alienista de Machado será apenas a de uma distância temporal e histórica? Ou estamos no retorno da Casa Verde, retrocedendo, mais uma vez, diante dos avanços, mesmo que tortuosos, que a Saúde Mental conquistou no Brasil?

Há um para além desse momento que desejamos construir? Que temores temos de fugir às padronizações e protocolos internacionais diante de nossas singulares formas de enlouquecer, neurotizar ou adoecer em verde amarelo? Nossos grandes alcoolismos são menores por não serem dependências apenas do uísque?

Podemos ir além dos Serviços Residenciais Terapêuticos, dos Caps, CapsAD, dos Centros de Convivência, dos demais equipamentos que norteiam e se consolidam como os locais substitutivos aos velhos manicômios e seus antigos portões e arquiteturas panópticas?

Recentemente foi feita uma comemoração da Luta Antimanicomial em Porto Alegre onde se propuseram, com a Arte na Rua, além das ações artísticas, também trocar em improvisados ‘consultórios’ na rua o mal-estar dos transeuntes.

Por meio do grupo de voluntários do grupo Espaço Liso, coordenado por professores da Ufrgs, um pseudo-consultório psiquiátrico foi montado no meio do Largo. Artistas e psicólogos usavam jalecos e sentados a uma mesinha realizavam consultas na hora. Os pacientes não eram convidados e mesmo assim, fizeram do espaço um dos mais requisitados da oficina. “Eu vi o pessoal da medicina aqui e sentei para conversar um pouco”, relatou Jorge A. M da S, como mais um típico brasileiro, que parou para um ‘atendimento’.

Ele, como muitos Outros, ao verem alguém com um jaleco ou identificados como médicos buscam seu número na CID 10 ou no DSM. Lá naquela rua: “Sem saber que não se tratavam de médicos ou psiquiatras, o senhor de 59 anos parou e realizou longa conversa com as ‘doutoras’. Ao final, recebeu um receituário especial que na verdade o recomendava seguir falante e animado com a vida, além de alguns pequenos chocolates coloridos, para simular medicamentos”.

Eu andante de outras ruas e outras esquinas de dúvidas lhe receitaria, como Guattari, apenas um pouco de poesia... Ou Machado de Assis.
OU seja, o Outro Jorge também sabe que, mesmo nos iludindo, somos todos a-normais. 

E uma consulta regada por arte, poesia ou fantasia talvez, sem nenhuma intenção diagnóstica ou terapêutica, possa artisticamente nos curar de nossa mais profunda aspiração: tornarmo-nos corpos perfeitos, imortais e sem nenhuma doença ou imperfeição.

Corpos e mentes irremediavelmente humanos e incuráveis, em nossa finitude e transitoriedade, pois, no fim das contas nenhum de nós é tão belo como a Angelina e nem tão puros e ungidos como o Feliz sem ano.
Até mesmo um poeta, Walt Whitman, em 16 de julho de 1849, buscou a Frenologia. A saúde, principalmente a física, era uma de suas paixões. Pela quantia de três dólares, um ‘frenólogo’, Lorenzo Fowler, “examinou a parte externa do crânio de Whitman para determinar força e a proporção de suas faculdades mentais”.

 Fowler para elogiar, após várias características descobertas pelas medidas cranianas, este ilustre frenólogo, disse sobre o poeta:” Este homem possui uma grande construção física e força para viver até uma idade avançada. Ele sem dúvida descende da raça mais rija e sadia...”.

De quem seria esse cérebro medido em suas partes apenas mais brilhantes? É o de um dos mais reverenciados poetas norte-americanos, ele escreveu as Folhas da Relva, naqueles tempos de Guerra Civil Norte-Sul, de um povo nada belicoso. Considerado, pois um dos mais sadios de seu país, pois segundo essa visão da Frenologia. Diziam “... Toda beleza vem do sangue belo e de um cérebro belo”.

Em qual gaveta ou diagnóstico fechado estaria hoje Whitman? Afinal além de poeta, vendedor de livros, jornalista, enfermeiro e profundamente humanitário, ele era homossexual. E, por essa visão distorcida de alguns psicólogos e pastores deveria, moral, evangélica e modernamente, ser submetido a algum processo de ‘cura’ de suas homem-sexualidades.

E, para os curiosos ou que leram todo o texto, o gran finale do Alienista deixo, para que os que não leram ou o conhecem pessoal e intimamente como eu, buscarem a resposta.

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)



LEITURAS PARA CRÍTICA, REFLEXÃO E DIFUSÃO –

O ALIENISTA – MACHADO DE ASSIS – Princípio Editora, São Paulo, SP, 1993.

A EXPROPRIAÇÃO DA SAÚDE – NÊMESIS DA MEDICINA – IVAN ILLICH, Editora Nova Fronteira,

Discapacidad Intelectual inclusión y derechos (Via Internet – disponível para Dowload, em formato PDF grátis) http://www.discapacidadonline.com/discapacidad-intelectual-inclusion-y-derechos.html

O PODER PSIQUIÁTRICO – MICHEL FOUCAULT, Editora Martins Fontes, São Paulo, SP, 2006.

FONTES – 
NA INTERNET – matérias citadas ou indicadas no/pelo texto:

Nova 'Bíblia da psiquiatria' amplia lista de transtornos e gera polêmica


Movimento antimanicomial (Conheçam a História para entender a necessidade e sua implicação com esse movimento) http://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento_antimanicomial

O Marketing da Loucura *(VIDEO) http://www.youtube.com/watch?v=OhxqNqQDxwU

JUIZO – Documentário  de Maria Augusta Ramos – sobre jovens infratores e suas realidades - http://www.youtube.com/watch?v=EDtN2Xs_eMU


Papel no Varal traz a loucura em forma de poesia http://www.alagoas24horas.com.br/conteudo/?vCod=147394

Arte e loucura nas ruas aproximam população da luta antimanicomial http://www.sul21.com.br/jornal/2013/05/arte-e-loucura-nas-ruas-aproximam-populacao-da-luta-antimanicomial/


LEIAM TAMBÉM NO BLOG –


O MANICÔMIO MORREU? PARA QUE O MANTEMOS VIVO EM NÓS?

SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS COMO DESAFIO ÉTICO PARA A CIDADANIA https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/06/saude-mental-e-direitos-humanos-como.html

SAÚDE MENTAL? QUANDO INTERNAMOS OS CENTROS DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL? 

ALÉM DOS MANICÔMIOS - 18 de maio/ Dia Nacional de Luta Antimanicomial https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/05/alem-dos-manicomios-18-de-maio-dia.html

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EUGENIA – Como realizar a castração e esterilização de mulheres e homens com deficiência? 

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domingo, 5 de maio de 2013

A ILHA DE FELIZ SEM ANO E SEU INTRUSO, E, NÓS TAMBÉM. (apenas um re-conto)



Imagem publicada – Uma fotografia colorida de uma ilha deserta, com um monte  pétreo ao fundo, parecido com um vulcão. Ao longe está um lindo céu azul, depois de uma vegetação rasteira típica e insular de cor entre o verde e o laranja, tendo em primeiro plano uma gaivota de asas abertas. Seríamos felizes se tivéssemos de viver, como Fernão Capelo, degredados ou isolados nesse paraíso?

“É uma ilha ou uma montanha, ambas ao mesmo tempo, pois a ilha é uma montanha marinha e a montanha uma ilha ainda seca. Eis a primeira criação tomada da recriação que se concentra numa terra santa ou no meio do oceano. Segunda origem do mundo, mais importante do que a primeira é a ilha santa: muitos mitos nos dizem que aí se encontra um ovo, um ovo cósmico...” Gilles Deleuze.

E, também sendo chocado, o Ovo da Serpente.

ERA UMA VEZ UMA ILHA... Como aquela do Saramago, QUE SE ENCONTRA NA PERDIÇÃO. E que, por ser utópica, AINDA NÃO FOI RE-CONHECIDA nem REVELADA...

 Era uma vez..., contou-me um dia um marujo vindo do Planalto da Atlântida perdida, uma ilha situada nas costas de um país chamado Terra Brasilis. Um local paradisíaco, ainda não descoberto por resorts ou ecologistas. Um local afastado das costas du Brésil, conforme o diário de bordo, isolada no meio de um oceano chamado Corruptiones Terribilis.

Nessa ilha, por acaso e destino está um náufrago. Ele foi degredado pelos seus pares. O pobre abandonado nas praias desse isolador mundo é um ex-deputado. O quase desnudo homem tem o nome de Feliz, porém pelo seu estado de degradação humana, cada mês, dia, minuto ou segundo ele se autodenomina: sou o Feliz-sem-anos.

Um dia, segundo a carta encontrada dentro de uma garrafa, escrita pelo Pedro Vais Sofazinho, parente distante de Pero Vaz Caminha, revelou uma inusitada e surpreendente revelação. O sobrevivente náufrago não se apaixonou por uma bola de vôlei, Wilson, como a do personagem no cinema. Ele teve um “caso” muito sério de amor proibido.

O Feliz-sem-anos caminhava pelas matas inebriantes e lúbricas da ilha quando o encontrou. Foi o encontro com uma maldição. Ele descobriu que sua solitária permanência estava sendo invadida penetrantemente por um intruso. E, como uma estória já escrita, o nosso replicante Robinson Feliz Com o Zé (do povo) teve, tristemente, de se ajustar à presença incômoda de um negro. Um (01) negro na ilha?

Este encontro, como são os imprevisíveis e não desejados, gerou uma sensação de flash back no pobre abandonado pelo Galeão, chamado Câmara Di Profundis. O nome dessa embarcação enorme, mais capaz de coletar e distinguir espécies e gêneros que a Arca de Noé, lhe fora dado pelo pelos capitães do Brejo da Luz, depois tornados coronéis do Sertão da Água Seca. Hoje estão todos no mesmo barco...

A sua cassação foi devido a um motim da marinhada de direita, após um golpe de gancho de direita no Capetão. O castigo que sempre defendeu para seus desafetos, por suas heresias e blas-fêmeas abusivas, devido à sua visão fundamentalista e fascista, acabou por gerar sua própria Inquisição e excomunhão. E o mar entrou em agitação vermelha e engoliu parte do galeão.

Ele, o “tadinho” tão difundido pela mídia, acabou deletado na prancha digital e pós-moderna do pregão da Nau dos Menos Insensatos. Estava prejudicando a boa imagem (e os votos) de seus pares. Após sua queda de prestígio e notoriedade acabara, então, degredado na ilha. Não esperava por se sentir um puro e imaculado, além tanto desaforo, ainda ter que encontrar tal maldição. Um nativo na sua privada ilha sem privada, e com aquela cor da pele tão ruim e discriminada.

O capelão-psicólogo da nau tentara, antes do desembarque abandonativo, em vão, lhe exorcizar, mas o Feliz Neo Robinson não acreditava nas Escrituras do Regimento Interno, muito menos nas Tábuas legislativas, sempre rasas e por interesses apropriadas nessa embarcação sem rumo certo. Ali prevalecia a lei dos mais ricos ou mais fortes.

Como, todos e todas, poderíamos nos colocar na pele deste sofredor abandonado. Teríamos o mesmo preconceito étnico e racial diante do intruso? A nossa sobrevivência nessa ilha seria como naqueles realities shows? Teríamos também uma crise histérica religiosa diante da figura de alteridade de um ser tão diferente de minha pureza racial? Como tocar no côco (ainda com acento para não gerar dúvidas ou más-línguas), com sua água salvadora, se a boca negra e maldita também bebeu por lá?

O outro incômodo, que ele combatera e pregara a extinção em seus discursos pastorais, podia e era sua única companhia. O que seria, então, sua suprema felicidade ou suprema solidão?

Ele descobre, como todos/todas em situação de confinamento, como os rapazes e moças BBB, que “vale tudo” para que EU seja o sobrevivente. No programa ainda se ganhava mais mídia e dinheiro. O modelo original que copiou os campos de concentração e extermínio.

Nessa ilha, onde estou só e isolado, somente mais “calor humano” nas horas de tempestade poderá aliviar ou me salvar? Indagava torturadamente o pobre iN-feliz-sem-ano.

Foi assim, para encurtar esta estória/conto/lenda, que resolveu do alto de sua magnitude, dar um nome para o seu intruso predileto. Primeiro corou-se a si próprio como o Rei, ou melhor, o Ditador, igual ao de Chaplin. Lembremos que ele se considerava um fidalgo, já que tinha pedigree, à diferença dos outros da Nau dos Menos Sensatos e Mais Corruptos, sentia-se ungido e protegido pelos “deuses” da  Terra do Pau Brasilis.

 Como estava imposta a presença indesejável do Outro, em sua nobreza suposta pela paranoia, deu, como clemência, um nome ao apelidado negro. Passou a chamá-lo de meu “pretinho básico”, já não seria mais o “Sexta-feira Amaldiçoado”, foi convertido e revertido/invertido, e, magnanimamente, o acolheu em sua caverna.

E VIERAM OS TEMPOS DE ESCURIDÃO E DE FOME DE VOTOS... Nesses momentos o utilitarismo, assim como o fascismo, proliferam. O Feliz-Sem-Ano-Robinson encontrou sua solução para os muitos dias de SECA AFETIVO-SEXUAL. Como uma raposa no mato, que cercava sem limites todo o território da Ilha, deixou de ser o caçador e passou a ser a caça.

Como disse, no meio da contação, alguém encontrou, tempos depois, nas praias da Terra Brasilis, o tal diário de uma insuspeita e intensa paixão. Não há como tirar um ganso da garrafa, na mesma em que cresceu, sem ter de ferir ou quebrar o recipiente.

E o nosso Robinson teve de romper todas as suas convicções, todos os seus falsos princípios, todas as suas pregações, todos os seus discursos moralistas e discriminatórios. Aquela ilha só tinha dois habitantes. Oh!

Deixo aos leitores/ouvintes a conclusão deste minireconto provoca-ação. Cada um por imaginar o que quiser, de acordo com suas convicções ou ideologias, afinal a Ilha era desconhecida, nem os cartógrafos a encontravam ou descreviam, e podemos dizer que ficava, para nosso alívio, na Terra do Nunca Aceito Diferenças ou Diversidades.

Para mim eles se casaram, tempos depois da aprovação de uma nova lei pelo Ditador da Ilha (ele mesmo), que aprovava e permitia a união entre pessoas do mesmo sexo. Ressalvando que mesmo assim ainda restavam, em seus âmagos, interrogações e dúvidas sobre a pluralidade e a multiplicidade do que chamamos de sexualidades.

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livre pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)

Fonte da imagem –

LEITURAS RECOMENDADAS, SUBTERRÂNEAS ou CITADAS NO TEXTO –.

O CONTO DA ILHA DESCONHECIDA – JOSÉ SARAMAGO - http://www.releituras.com/jsaramago_conto.asp

A ILHA DESERTA – GILLES DELEUZE, Editora Iluminuras ltda., São Paulo, SP, 2006.

ROBINSON CRUSOE - DANIEL DAFOE - http://pt.wikipedia.org/wiki/Robinson_Crusoe

FERNÃO CAPELO GAIVOTA – RICHARD BACH - 

LEIA TAMBÉM NO BLOG –

A CORÉIA DO FANATISMO POLÍTICO E O FANATISMO RELIGIOSO DO PASTOR – estamos no Século XXI?  http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/04/a-coreia-do-fanatismo-politico-e-o.html


A TOLÊNCIA É MAIS QUE UM BACALHAU NO MEU FEIJÃO COM ARROZ? – EM BUSCA DA EMPATIA, PARA ALÉM DA ANTIPATIA... http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/07/tolerancia-e-mais-que-um-bacalhau-no.html

A DIFERENÇA NOSSA DE CADA DIA, SEMEANDO A IGUALDADE DE DIREITOS. http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/09/diferenca-nossa-de-cada-dia-semeando.html

quarta-feira, 1 de maio de 2013

SOMOS TRABALHADORES COM "SAÚDE"? COM DOR OU ARDOR NAS LUTAS E LABUTAS? ATÉ QUANDO?


Imagem – a figura de SÍSIFO, em uma pintura clássica de Tiziano Vecellio, datada de 1549, onde está pintado o mítico mortal que traz sobre as costas uma enorme pedra, em movimento de subida de uma montanha. Ele recebeu um castigo de Zeus, por suas ousadias, espertezas e tramas, condenado a rolar uma grande pedra de mármore com suas mãos até o cume de uma montanha, sendo que toda vez que ele estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até o ponto de partida por meio de uma força irresistível. Por esse motivo, a tarefa que envolve esforços inúteis passou a ser chamada "Trabalho de Sísifo". Quem são e serão os Zeus destes tempos da Idade Mídia? Os Sísifos nós já os somos e sabemos.

“OCULTO retêm os deuses o vital para os homens, senão comodamente em um só dia trabalharias par teres um ano, podendo em ócio ficar [...] Mas Zeus encolerizado em suas entranhas ocultou, pois foi logrado por Prometeu de curvo tramar, por isso para os homens tramou pesares: ocultou o fogo(Hesíodo – Os Trabalhos e os Dias)

Esta citação a utilizei em um texto de 2007, dentro de um artigo publicado no livro A Reforma Psiquiátrica no Cotidiano II, onde já falava, como antevisão pessoal, a resposta à indagação deste trecho onde indagava sobre a nossa saúde ao trabalhar.

O texto era sobre o Risco como potencialidade no trabalho com Saúde Mental. Estava ainda no combate cotidiano de um Caps III aqui em Campinas. Não imaginava que iria vivenciar, dois anos depois, um “acidente de trabalho”. Não tinha a resposta sobre a dor que pode nos acompanhar a cada dia nas lutas e, mais ainda, nas labutas.

Hoje, Dia Internacional do Trabalho, ou seja, do trabalha-a-dor, resolvi relembrar este artigo e o que indiquei sobre nossos riscos, principalmente os criativos, mas também os que são negados sobre a realidade dos muitos que se arriscam em todos os campos da atividade laborativa, para que o “trabalho seja um sucesso”.

Somos ainda uma mistura de Sísifos com Prometeus? Sim, pois nosso mundo hipercapitalista, gestado e gerado nos tempos das fábricas do modelo fordista, com sua serialização alienante, indo até os ambientes mais humanizados, com suas ginásticas laborativas, nos ditos tempos modernos, ainda não nos deu o direito ao “fogo” oculto por Zeus.

Aquele que Prometeu roubou há milênios era apenas o que acende e apaga. O fogo que crepita, que ilumina, resolve nosso temor do Outro na escuridão e que nos deu, como história, as nossas primeiras guerras.

O “fogo da grana” que, simbolicamente, atualmente é fugaz e consumidor, ainda nos mantêm fascinados pelo trabalho. E, contentes, como os anões da Branca de Neve, vamos com nossas hipermodernas picaretas extrair novos valores das novas e maquiadas Serras Peladas.

Segundo o sociólogo Richard Sennet estamos nos iludindo, apesar de todas as mudanças para melhor com as novas tecnologias no trabalho, já que a fugacidade de nossos empenhos nos deixa sem um objetivo maior. Nossas construções têm mais de Torres Gêmeas de Wall Street do que Muralha da China para este autor.

Ele nos indaga, com sua posição sobre o trabalho como gênese de nosso caráter, como traços pessoais a que damos valor em nós mesmos. Hoje não mais seriam os que esperamos ou buscamos para que outros nos valorizem.

Estou cercado, onde moro, por trabalhadores e os ruídos que produzem. E, invadido por sua dodecafonia intensa, pois erguem um enorme prédio, posso ver sua célere dedicação à construção, como na música do Chico Buarque.

 As suas atividades não cessam nem mesmo na hora do almoço. Devem fazer turnos para o mesmo, como nos Tempos Modernos de Chaplin. Eu os imagino sendo submetidos àquela máquina à qual Carlitos, experimentalmente, como cobaia humana, engole porcas e parafusos junto com uma espiga de milho. Uma máquina que otimiza o tempo fabril, aumenta a produção e garante, já 1936, apenas lucros. Assistam ao filme e o compreenderão como uma antevisão que nos avisa até da Sociedade do Controle.

Nessa obra prima já poderíamos incluir as indagações de Sennet: “Como decidimos o que tem valor duradouro em nós numa sociedade impaciente, que se concentra no momento imediato?”.

Por isso nos tornamos Sísifos? Por essa velocidade que temos de ter e responder socialmente que não nos deixa ver o fardo que nós carregamos, descarregamos e, inconscientes, novamente carregamos até o monte final e imediatista do lucro.

Não bastou terminarem o grande prédio, a ser totalmente comercial, e, na outra esquina, da mesma rua, grandes máquinas e seus operadores já batem as estacas de outro “empreendimento totalmente vendido”.

A não sinfonia dos motores, serras, brocas, martelos, e, imagino, das mãos sôfregas reinicia uma jornada prometeica. Há trabalho, há riscos e há necessidade de mais uma construção. Surgirá ali mais um templo para os trabalholatras e sua trabalholatria.

O novo momento imediato comprova que novas massas e cimentos, assim como a de homens, se formam/reproduzem para erguer, apesar da dor e do cansaço um novo espaço para outros trabalhadores ou adoradores do próprio umbigo trabalhista.

Em 2007, com citei, já refletia que o “trabalho tem em sua derivação etimológica um componente indicativo de uma das  suas possibilidades de afetar a saúde de quem o exerce”.

Hoje, à tarde, tive de fechar os olhos,o nariz, a boca e os ouvidos. Estavam lançando quilos e mais quilos de poeira da obra. Eles, os trabalhadores em atividade, não pensavam no que inalavam e nem o que, aos transeuntes, impunham como castigo prometeico também.

Segundo a história do trabalho, este termo deriva de ‘tripalium’, do latim, que eram os três paus ou estacas de madeira utilizados para a ‘tortura’ de quem recebia por e para ser um escravo.

 Aquele Império, o mesmo que nos legou o Direito, se sustentava com essas práticas e com o ‘sal-ário’ (salário) utilizados para o disciplinamento e submissão dos corpos que alicerçavam e pavimentaram os monumentos e as Vias Ápias de Roma e de todo o Império.

Os nossos gregos, hoje desempregados e não mais clássicos senhores ou patrões, há alguns milênios nos distinguiram a diferença entre os radicais: “erg” e “pónos”. O ergón se aplicava apenas ao trabalho agrícola, à mão na enxada. Este radical está no meu nome: George = agricultor, aquele que trabalha terra.

Já o “pónos’ poderia ser traduzido como ‘fadiga’. É este o trabalho árduo, o dos que carregam as pedras, como Sísifo, e é o termo grego para um dos males que saiu da jarra de Pandora, aplicados aos homens por Zeus. Os ‘males’ que nos restaram como punição a Prometeu que ousou nos entregar o fogo divino.

Nessa mitologia, que aproximo dos nossos dias incendiados da modernidade cansada pela cultura do medo, repetimos, neurótica e histericamente, a submissão dos nossos corpos adestrados, já que “tendo escondido o fogo (pyr), o homem, desfalcado, precisa trabalhar”.

Dessa constatação é que deriva a minha frase: “o Trabalho não dignifica o Homem. O Trabalho Danifica o Homem”, quando se torna escravizante, idolatrado, ocultador de valores, indigno, explorador das vulnerabilidades, desumano, contrário aos Direitos Humanos e pseudo-includente, ou seja, cria, como no caso de pessoas com deficiências, um espaço reservado, porém, sempre subalterno e submetido de quem é incluído.

Por isso, indo além da histórica greve de Chicago, passando, hoje, para as fábricas de roupas de marca que exploram imigrantes, deve-se reconhecer, como Hesíodo, que há “diferentes trabalhos”, assim como “diferenças no trabalho”, como a raça, a orientação sexual, as deficiências ou o gênero, que podem nos trazer ‘dias’ muito díspares. Uns mais duros do que outros. E, as greves já não têm os mesmos objetivos e ideais.

Por exemplo, aos trabalhadores que assisto de minha janela, distante da ‘mão na massa’, só parece restar muito mais ‘pónos’, estafa, exaustão e novas pedras para rolarem. Porém, reconhecendo que não há trabalho sem estes riscos, tento ver nos seus rostos um pouco mais que o suor. Há também sua possibilidade de construção e não corrosão de seu caráter.

Esta perspectiva de um futuro para todos e todas, trabalhadores e trabalhadoras, hoje termos que já não tem os mesmos significados e significantes do passado, exige de nós a construção de outro “prédio” a que chamarei de a Torre de Pisa da ética do trabalho. Um monumento que deverá ser mantido e preservado.

Somos agora, nesse instante das redes e da inteligência coletiva, passíveis de construirmos um novo equilíbrio, uma nova edificação para além das reengenharias, um novo e consistente modo de receber pelo que fazemos ou criamos ou inventamos.

Porém, enfim, será necessário que os sabotadores de nós mesmos, que tenhamos a ideia e não a ilusão de que nossos trabalhos, cada dia mais ‘especialistas’, não são uma ditatorial fonte da Vida.

Não podemos alegar, toscamente, que, por exemplo, se um jovem pode ter alguns “privilégios” como o trabalho com carteira assinada, sua maioridade penal já está consubstanciada por essa condição. Muitas vezes esses trabalhos não são nem serão sua garantia para o usufruto de direito dos bens sociais.

Em tempos de cultura e culto do Medo e da ideologia de segurança privada para alguns, com outras tendências microfascistantes do viver, é urgente que nesse cenário se produzam novas cartografias, novos agenciamentos e encontros, com a suavidade e a inversão de nosso temor de sermos tocados.

Outrora, na escuridão das noites pré-históricas, nos reuníamos em torno do fogo, e nos aproximávamos uns dos outros. Nossa sobrevivência dependia do Outro. Hoje, individualistas e tementes dos riscos, embora eles sejam imanentes a quaisquer trabalhos, aceitamos e naturalizamos quaisquer formas de escravidão, desde as visíveis até as mais sutis.

Voltei ao meu ‘trabalho’ escrito de 2007. Voltei também a refletir sobre a busca de um modo menos endurecido e cristalizador de trabalhar.

O ato de escrever não é, nem será menos nem mais do que aquele trabalho que vejo, sinto e escuto tão perto de minha janela, do meu chão, do meu teto. O que eles constroem para o trabalho futuro de outros também deveria ser mais “ergonômico”, e, dentro da minha visão, menos árduo, sem o temor de construir sincera e eticamente uma torre aparentemente torna e inclinada com estas letras.

Quando a dor ou o ardor do trabalho dos outros me afeta, e os resíduos ou entulhos ideológicos são lançados fora, abrimos novas portas e janelas para formar coletivos criativos de devir afetuoso.

Há futuro para os trabalhadores e trabalhadoras, no meu desejo, se não tememos ousar romper as correntes, visíveis e invisíveis, das estigmatizações, dos preconceitos, das segregações, das flexibilizações, da negação dos direitos adquiridos e conquistados, das ausências de dignidade, das explorações que ainda se perpetuam em nosso país.

O relógio de abertura dos Tempos Modernos não para. O tempo digital não perdoa. A nossa finitude é que continua a mesma, e continuará... Vamos escolher: dor ou ardor? Ou ambas? Ou não?

Copyright/left jorgemarciopereiradeandrade 2013/2014 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massas)

Termos e referências ligados ao texto (na Internet):



Dia do Trabalhador 

Tempos Modernos (1936) – Charles Chaplin – (legendado de português, mas ainda não audiodescrito) http://www.youtube.com/watch?v=_kh8QRoe8Bw

LIVROS/AUTORES CITADOS –

OS TRABALHOS E OS DIAS – Hesíodo, Editora Iluminuras, São Paulo, SP, 1990.

A REFORMA PSIQUIÁTRICA NO COTIDIANO II – Emerson Elias Mehry & Heloisa Amaral (Orgs) – O Risco como Potencialidade no Trabalho com Saúde Mental – Jorge Márcio Pereira de Andrade (págs. 82 a 106), Editora Hucitec, São Paulo, SP, 2007.

A CORROSÃO DO CARÁTER – Consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo – Richard Sennet, Editora Record, Rio de Janeiro, 2001.

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