sexta-feira, 28 de outubro de 2011

SINDROME DE DOWN E REJEIÇÃO: UM CORPO ESTRANHO ENTRE NÓS?


imagem publicada - a capa promocional do filme O Guardião de Memórias, baseado em um best-seller homônimo, com os atores do filme. À direita está o Dr. David Henry ( ator-Dermot Mulroney) o médico ortopedista, e à esquerda a sua esposa Norah no fime ( atriz-Gretchen Mol). No meio, em tamanho menor, está uma enfermeira, com casaco vermelho(atriz - Emily Watson) segurando um bebê recém-nascido. Este filme basea-se na história de que no inverno de 1964, sua esposa Norah esta prestes a dar a luz aos gêmeos Paul e Phoebe. David se vê obrigado a realizar o parto e assim acontece. Porém, Phoebe nasce com ´SÍNDROME DE DOWN'. Imediatamente David é remetido as lembranças de sua infância, a doença que levou sua irmã quando era apenas uma criança. Ele não queria passar por tudo aquilo novamente e não queria que Norah "sofresse". David decide então pedir para que sua enfermeira Caroline Gill (a atriz Emily Watson) leve Phoebe a uma instituição para crianças com deficiência. Caroline leva Phoebe, mas não para a instituição e sim para sua vida. David diz para Norah que Phoebe não resistiu e morreu no parto, ele não sabia mas essa mentira destruiria sua vida e a de sua esposa. A partir dai o casal se distancia intimamente, o casamento que antes era alimentado por amor agora passa a ser alimentado por pura casualidade. Norah se fecha em um mundo de frustrações e David em um mundo de fotografias. Na história original do livro de Kim Edwards há um ''corpo estranho e rejeitado" que se torna a luta de Caroline, que criando Phoebe, passa a lutar pelos direitos das crianças com síndrome de down. Talvez esta ficção seja mais realidade do que muitos imaginam... Acho que já assistimos esse filme muitas vezes como dura realidade. Agora com re-apresentação ''real'' no Rio.

Quando e como podemos rejeitar uma criança com Síndrome de DOWN ? A pessoa com esta condição pode vir a se tornar um "corpo estranho entre nós'', como a personagem do filme? Estas perguntas surgiram após episódios, já em repetição quase naturalizada, de um casal que ''abandonou'' seu filho com esta condição humana em uma Clínica particular, na Zona Sul, no Rio de Janeiro.

O meu passado nas navegações, em águas profundas e baixo-fundas, de inconscientes de familiares não me foi suficiente para dar respostas mais claras ou convincentes. Relembrei do filme "Guardiões", pois para mim são 03(três),para me reavivar as memórias, mas elas só me advertiram o quão temerário é apenas "explicar" estas ações ou rejeições de um Outro e sua diferença.

Para que meus leitores e leitoras possam entender o que estarei interrogando trago o que saiu na mídia. No dia 14 de outubro foi noticiado que: "Segue internado em estado grave o bebê com síndrome de Down abandonado pelos pais logo após o parto em uma clínica particular na zona sul do Rio.A criança nasceu há uma semana e está internada na UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) neonatal, com problemas cardíacos. No hospital, o bebê é o xodó dos médicos e enfermeiros. O abandono da criança foi parar na Justiça, que pode encaminhá-la para adoção. Os pais, de classe média alta, podem ser processados e condenados a até três anos de prisão".

Nesse mês que dizem ser das bruxas, e também de alguns profissionais da saúde (médicos, dentistas), esta ocorrência repetida de abandono nos re-apresenta mais um um "corpo estranho". Um corpo estranho entre nós? Perguntarão porque essa associação com uma criança com Síndrome de Down.

É a forma que encontrei para me/nos provocar uma reflexão crítica e bioética sobre o que se passou com o casal que abandonou recém nascido: Por quê uma criança com Síndrome de Down?. Sei que sua condição foi o fato gerador de toda a indignação pública e notória.

Mas, mesmo negando, sabemos que nesse mesmo dia muitos outros também foram ''abandonados''. A singularidade da condição desse recém nato é que fez e faz a diferença. Ele sintetiza em seu corpo com suas características genéticas visíveis e, para muitos, gritantemente, a xenofobia. É um estranho entre nós, vem de outro país, outra terra, outro planeta, é visto como pertencente a uma outra ''raça'' ou ''etnia'': os que foram chamados de "mongolóides'' (muito bem representados no filme O Oitavo Dia).

Por ter a experiência de me tornar pai, duas vezes, de filhos com deficiência sou afetado profundamente por estes acontecimentos. E, exatamente, por isso posso tentar entender/refletir o que Jackie Lichie Scully chama de ''corporificação'' da deficiência. Uma experiência que se aproxima, na minha concepção, do conceito da empatia.

Para esta autora, que vivencia o Movimento Surdo, a corporificação (embodiment) ocorre pois temos percepções diferenciadas na dependência dos ambientes que vivenciamos. Ela diz que, segundo a epistemologia, alguns grupos humanos, como as mulheres, os pobres e os negros, por exemplo possuem uma forma privilegiada para compreender a realidade que os cerca (e cerceia).

Esta autora pode nos ajudar na busca de entendimento bioético do que acontece com as rejeições ou in extremis a aniquilação de pessoas com deficiências. A visão eugênica e biomédica do corpo com alguma forma de deficiência, fundamentador de paradigmas ainda em transição, justificou, historicamente, desde a Antiguidade Clássica e Grega a ''eliminação'' destes corpos diferenciados e ''estranhos''.

Ainda pode ser este modelo espartano e o sacríficio dos ''defeituosos'', que, transversalizado, atualizado e naturalizado, justificaria os 'abandonos e os abandonados'' na Idade Mídia. Não mais os atiramos do alto do monte Taygetos, não mais os colocamos em experimentação pela medicina nazista, não mais os entregamos na roda dos rejeitados. Modernamente, deixá-mo-los nascer em clínicas e lá os deixamos, continuando a ficção dos Guardiões da Memória.

Esta história real de abandono pode se tornar um bom e real caso ''Phoebe'' como no filme. Porém mais do que isso deverá ser um bom motivo para que continuemos ajudando na mudança dos paradigmas que se aplicam às deficiências. E, em especial, aquelas que mais ''rejeição ou repulsa'' provoquem nos inconscientes individuais ou coletivos. É lá que temos de provocar a derrocada dos nossos ideais eugenistas ou preconceituosos. Estas idéias, continuo afirmando, tem mais ''imprinting'' ou impregnação profunda da sociedade atual do que se diz ou denuncia-se.

È lá que devemos provocar a crise e o contraste entre um paradigma biomédico e o atual chamado de social. Para o primeiro ainda se justificam medidas de exclusão baseadas na idéia de aborto seletivo, já que, por exemplo, uma síndrome de down por ser genéticamente detectável, alguns pais poderão (e podem) desejar evitar estes ''filhos indesejáveis'' (como no texto que escrevi nesse blog: A pagar-se uma criança com Síndrome de Down).

Surgem daí as interrogações bioéticas sobre autonomia, as institucionalizações, os aconselhamentos genéticos, a prevenção das deficiências, e a questão e dilema dos abortamentos. Aí se apresentam os temas que não podemos deixar de enfrentar, discutir e buscar respostas para o futuro.

As conceituações, assim como os pré-conceitos, que damos aos termos saúde, normalidade e deficiência, não são claras ou objetivas. São construídas ou naturalizadas para justificar, historicamente, as diferentes tecnologias ou métodos de segregação a que pessoas com deficiência foram, e, lamentavelmente, ainda são aplicadas tanto na saúde como na educação.

Para isso é que urge a afirmação do que chamamos de Sociedade Inclusiva e sua concretização. E pessoas, como estes bebês "Phoebe" com Síndrome de Down, caso sobrevivam a todas as formas de abandono, tornar-se-á, quando incluídos, sem nenhuma forma de discriminação ou exclusão, em todos os espaços da vida, da família a escola, uma possibilidade vital e não mais um ''corpo estranho'' entre nós...


copyright jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)

Referências Bibliográficas no texto:
Corporificação da deficiência e uma ética do cuidar - Jackie Lichie Scully, in Admirável Nova Genética: Bioética e Sociedade, Débora Diniz (Org.), Editora UNB/Letras Livres, Brasília, DF, 2005.

'Páginas da vida' na vida real =Pais abandonam criança com Síndrome de Down em hospital no Humaitá
http://oglobo.globo.com/rio/mat/2011/10/14/pais-abandonam-crianca-com-sindrome-de-down-em-hospital-no-humaita-925586800.asp#ixzz1bqhJVNQC

Pais abandonam trigêmeas em hospital http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?id=1111797

Filmes indicados para reflexão e re-pensar:
- O GUARDIÃO DE MEMÓRIAS -Direção: Mick Jackson -Lançamento: 2008 http://www.interfilmes.com/filme_20163_o.guardiao.de.memorias.html
- Gattaca - A Experiência Genética - 1997 http://www.interfilmes.com/filme_13454_gattaca.a.experiencia.genetica.html

- Leon y Olvido - 2004 - http://www.youtube.com/watch?v=KLzmSj24nTY

Leia também no BLOG

O VIGESSIMO PRIMEIRO DIA - CINEMA E SÍNDROME DE DOWNhttp://infoativodefnet.blogspot.com/2010/03/o-vigessimo-primeiro-dia-cinema-e.html

A PAGAR-SE UMA PESSOA COM SÍNDROME DE DOWN http://infoativodefnet.blogspot.com/2010/09/pagar-se-uma-pessoa-com-sindrome-de.html

01 NEGRO + 01 DOWN + 01 POETA = 01 DIA PARA NÃO SE ESQUECER DE INCLUIR http://infoativodefnet.blogspot.com/2011/03/01-negro-01-down-01-poeta-01-dia-para.html

QUEM SÃO ELAS? O ABORTAMENTO 'POLÍTICO' DO ABORTO http://infoativodefnet.blogspot.com/2010/10/quem-sao-elas-o-abortamento-politico-do.html

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

VAN GOGH - A CONSTRUÇÃO DE UMA A-NORMALIDADE


Imagem publicada - a capa do livro Van Gogh - ou enterro no campo de trigo (escrito em frances- Van Gogh ou l'enterrement dans les blés), da escritora francesa VIVIANE FORRESTER, que abre uma outra visão sobre o pintor e sua biografia. Na capa um autoretrato famoso como um homem branco, de barba, vestindo um paleto simples e de olhar profundamente penetrante,sobre um fundo azul. Um homem indecifrável, apesar de todas as biografias ou patografias que se escrevam sobre ele. Apenas um homem que amava sem ser amado...

"La tristesse durera toujours" (em francês, "A tristeza durará para sempre" frase que marca seu último suspiro nos braços de seu irmão)

O Cão de Van Gogh é amarelo. Amarelo como os seus girassóis, como seu trigal e os corvos, como o início de seu crepúsculo em Arles. É o amarelo de uma dor profunda e inesgotável de quem se tornou o maior mito de loucura da história humana. A sua obra é transversalizada pelas idéias preconceituosas sobre os loucos, mas não sobre o seu sofrimento ou sua alienação pela Sociedade e seus a-normais.

Nunca é tarde para a construção ou desconstrução de um mito. Nunca é tarde para que a história traga novas luzes ou sombras sobre os homens. Um novo estudo sobre sua vida pode trazer um homem genial para a ''claridade'' ou para o enevoamento? como se fôsse possível obscurecer um pintor que amava a luz.

O homem "depressivo" que nasceu e logo recebeu o mesmo nome de seu avô paterno e também daquele que seria o primogênito da família, morto antes mesmo de nascer exatamente um ano antes de seu nascimento: Vincent Willen Van Gogh. Esta pode ter sido uma de suas primeiras atormentações que sedimentaram sua genialidade e vida. Eu sou o passado morto e não o futuro que a Arte me revelou.

Antonin Artaud o denominou ''o suicidado da sociedade'' em seu brilhante texto. Ele é VAN GOGH (1853-1890). O holândes que foi denominado de ''louco'', "esquizofrênico'', ''epiléptico'', "drogadicto'', "alcóolatra", "maníaco-depressivo'' e, finalmente "suicida''. Hoje ele é um dos mais utilizados exemplos pela indústria farmacêutica psiquiátrica como transtorno bipolar.

Tornou-se, como qualquer ícone ou mito, um ''brand sense'', uma peça de marketing ou de propaganda. Hoje é um símbolo de ''riqueza'' quando um Banco o torna uma ''conta para privilégiados'' clientes. Ele continua "vivo" embora sempre renovadamente suicidado pelo consumo de sua arte impressionante e pós-impressionista.

Em 29 de julho de 1890, em Auvers-sur-Oise, na França, faleceu de um agora "suposto" tiro no próprio peito. Termina nos braços de seu irmão após agonizar por dois dias dizendo: "a tristeza durará para sempre". Conforme a descrição que conhecia primeiro, em brilhante texto de Juan Antonio Vallejo-Nágera, um psiquiatra espanhol, que com seu Loucos Egrégios, escreve sobre o Crepúsculo deste artista. Ele me apresentou as Cartas a Theo, donde iniciei meus questionamentos sobre a patologização de Van Gogh. São 821 cartas que muitas vezes transpiram mais lucidez e sofrimento do que o que chamamos de loucura.

Hoje, dois escritores premiados pelo Pulitzer trazem uma nova versão que poderá mudar a visão patologizada e anorma deste mestre dos impressionistas. Segundo Steven Naifeh e Gregory White Smith em nova biografia livro "Van Gogh: The Life" (Van Gogh: A Vida, em tradução livre); para eles o pintor foi vítima de uma bala perdida de um suposto duelo de dois jovens que se vestiam de cowboys. A arma que matou Van Gogh nunca foi encontrada, eis o ponto de partida para esta pesquisa e livro destes autores.

Segundo a matéria jornalística publicada: "Nesta nova biografia, os autores escrevem ainda que a família de Van Gogh terá tentado internar o pintor, que sofria de epilepsia, num asilo. Steven Naifeh e Gregory White Smith defendem que Van Gogh viva sob grande aflição e que terá sido a mistura de sentimentos, entre a mania e a depressão, que terão provocado a sua epilepsia." Estas aflições já o haviam atormentado antes, já se expressavam em sua arte e nas cartas dirigidas ao irmão Theo, seu provedor e protetor. Para quem se lamentava que este " tenha que viver como um pobre para me sustentar''...

Era um homem que se atormentava ou era atormentado na pobreza? Ambas as situações, vivenciadas por ambos e sua família, demonstram que a época que viveu ajudou muito a sua exclusão social. Após alguns incidentes em Arlés, sul da França, escreveu para Theo: " Escrevo-lhe de plena posse de meu espírito e não como um louco; como o irmão que você conhece... Pessoas daqui enviaram ao prefeito (acho que se chama Tardieu) uma nota, com mais de 80 assinaturas apontando-me como um homem indigno de viver em liberdade ou coisa semelhante... Já estou aqui há muitos dias, debaixo de chaves, ferrolhos e guardiões, no manicômio. Se não contivesse a minha indignação, julgar-me-iam um louco furioso..."

E fala de sua espera paciente pela ''liberdade'', uma liberdade que, solitário, só conhecia com pincéis, tinta e terebentina, ao ar livre.

Ele, em pleno século das incipientes internações, continuou motivo de ''tratamentos'' posteriores, como os que foram realizados pelo médico Dr. Gachet, em Auvers-sur-Oise, a quem retratou no período em se internou "voluntariamente", após considerar em carta para Theo: "Acho que está tão doido como eu".

Em estudos posteriores sobre a vida e a obra do pintor atribui-se ao médico algumas dos seus sintomas. Dr. Gachet é retratado com uma planta em sua mão: a digitalis. A mesma que pode ter contribuído para algumas das alterações psíquicas vivenciadas como efeitos colaterais deste tratamento.

Trago, então, novas tintas para o quadro "patográfico" de Van Gogh. Primeiramente evoco, como transversalidade histórica, o fato de ser no período de maior criatividade e também de ''loucura'' de Van Gogh que se construiu, conforme Foucault, a articulação do modelo asilar. Nascem os primeiros espaços de segregação dos que, como Van Gogh, sofressem de "Loucuras".

E isso se dá exatamente como nos mostra Foucault: "...o asilo (a internação) tinha se constituido no prolongamento do modelo familiar - o asilo do século XIX funcionou com base no modelo de um micropoder próximo do que podemos chamar de poder disciplinar...- creio que podemos situá-la entre 1860-1880 - e é simplesmente a partir daí que a família pôde se tornar modelo no funcionamento da disciplina psiquiátrica, mas sobretudo pôde se tornar o horizonte e o objeto da prática psiquátrica." (pág. 153- O Poder Psiquátrico)

Reinvindico a atualização de uma construção de a-normalidade para os Van Goghs nesses tempos atuais. O que estamos assistindo, ou melhor teleolhando, é a afirmação de que na Era ou Idade Mídia todos podem ser transformados em ''a-normais''. Estamos no tempo em que um artista com TOC pode propor uma ''arrumação'' de grandes artistas e sua obras. Para que a sociedade disciplinar, de Foucault, dê passagem à Sociedade do Controle a que nos estamos acostumando, é preciso ''deixar o mundo (globalizado) mais arrumado''.

Há uma revoada de corvos políticos sobre o trigal que não poderemos modificar. As massas, seus dessaranjos e dessassosegos, teimam em se indignar com tanta necessidade de ordem e progresso à custa de muitas misérias.

Penso e repenso sobre Van Goghs nesses tempos de tantas e tamanhas movimentações da Dona Morte em busca, obssessivamente, da Ordem e do Progresso. Mata-se um ditador na Líbia enquanto, sob o mesmo solo árido e fecundo da África, alguns mercenários brincam de cowboys. Matam e violentam, quaisquer seres vivos considerados Vidas Nuas, na Somália ou outros solos que tragam sangue e petróleo misturados. Genocídios tornam-se naturais e banalizados, dizem que se constroem novas democracias, e também, por que não novos mercados. E, nesse cenário em ruínas, são pintados os quadros neo-capitalísticos.

Portanto, os que procuram um diagnóstico retrospectivo do pintor precisam estar alertas para as barbáries que se gestam nos nossos corações solitários e ações coletivas. Podemos continuar acreditando que a melhor solução para as loucuras individuais seja ainda a ''grande internação'', mas nos esquecemos de colocar antipsicóticos ou antidepressivos na ''caixa d'água'' dos que lubrificam, com miséria, guerras e fome, as máquinas de destruição.

Ainda não li o novo livro biográfico reformulador da morte de Van Gogh. Espero que o traduzam e possamos compará-lo ao texto de Viviane Forrester. Ela, na minha compreensão, já estava atravessada pela paixão das cores do holandes maldito. E será sempre um contraponto às formas de captura das biografias no nosso hipercapitalismo e pós-modernidade.

Foi ela que nos anteavisou sobre o Horror Econômico, ao afirmar que "os ricos não precisam mais dos pobres''. Uma Europa que hoje assistimos em sua derrocada econômica, e produzindo no Velho mundo as mesmas massas de desfiliados que ajudou a produzir, no passado, em nosso Novo mundo latino-americano.

Um bom exemplo, para nossa reflexão, é quando um banco espanhol nos propõe que façamos os ''investimentos Van Gogh". Eles estão trabalhando, nessa peça publicitária que: ..."têm como objetivo gerar uma reflexão nas pessoas sobre o hábito de investir, estimulando os clientes a fazê-lo sempre e de maneira certa, proporcionando mais liberdade de escolha em suas vidas e apoiando a realização de sonhos e projetos futuros, mesmo que eles ainda nem saibam exatamente quais são neste momento".

E assim poderemos um dia, bem protegidos em nossas finanças e condomínios, nos distanciarmos do mundo onde vivem somente as minorias despossuídas, os loucos de toda sorte, e todos os outros excluídos destas poupanças ou proteções financeiras. Para eles/elas, mesmo que artistas ou gênios em potencial, ficarão os viadutos, a rua, os ''abrigos'' ou o manicômio.

Retomemos, então, o cuidado e a suavidade para com os que recebem muitos rótulos ou estigmas. Os que colocamos como marginais da história, seja na arte, na política ou na filosofia, acabam retornando de suas tumbas para nos assombrar com revelações de nossas essências universais. Van Gogh ainda deve continuar sendo um nome a re-conhecer, para além de quaisquer de suas ''loucuras''.

E que se torne também um paradigma estético para uma nova ética sobre como pintar um outro mundo possível. Um planeta Terra cheio de luz, com muitos girassóis e trigais, sem os corvos macropolíticos que se alimentam de nossos escombros ou cadáveres midiatizáveis . E, então, continuo sonhando que os nossos cães, como já disse, ladrarão. E, obsoletas, por pura utopia ou sonho, nossas massas microrevolucionárias passarão.

E, nós os psiquiatras, psicanalistas, psicólogos e outros mais modernos psis, cuidaremos, com respeito, ética e muita suavidade de outras ou nossas próprias loucuras... Van Gogh descansará em seu campo de trigo...bem longe da porta giratória dos bancos e dos banqueiros. Entra-se triste e se sai sempre mais triste de lá. A TRISTEZA DURARÁ PARA SEMPRE?


copyright jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de massa)

Fontes sobre o texto na Internet:

Vincent van Gogh - http://pt.wikipedia.org/wiki/Vincent_van_Gogh

Nova biografia- Afinal Van Gogh não se suicidou, foi vítima de uma bala perdida http://ipsilon.publico.pt/artes/texto.aspx?id=295239

Van Gogh não cometeu suicídio, revela nova biografia - http://www.correiodoestado.com.br/noticias/van-gogh-nao-cometeu-suicidio-revela-nova-biografia_128631/

Em nova campanha, Santander propõe reflexão às pessoas http://exame.abril.com.br/marketing/noticias/em-nova-campanha-santander-propoe-reflexao-as-pessoas

Para deixar o mundo mais organizado, artista com TOC rearranja quadros famosos http://exame.abril.com.br/estilo-de-vida/arte/album-de-fotos/artista-suico-com-t-o-c-rearranja-quadros-de-pintores-famosos

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS INDICADAS -
- LOUCOS EGRÉGIOS - Juan Vallejo-Nágera - Editora Guanabara Dois, Rio de Janeiro, RJ, 1979
- Van Gogh - O Enterro nos Campos de Trigo - Viviane Forrester , Editora LPM, Porto Alegre, RS, 1989.
- O Poder Psiquiátrico - Michel Foucault - Editora Martins Fontes, São Paulo, SP, 2006.

LEIA TAMBÉM NO BLOG -
Os Nossos Cães desColoridos - nossas ''depressões'' no Dia Mundial da Saúde Mental -
http://infoativodefnet.blogspot.com/2011/10/os-nossos-caes-descoloridos-nossas.html

terça-feira, 11 de outubro de 2011

OS NOSSOS CÃES desCOLORIDOS - Nossas "depressões" e o Dia Mundial da Saúde Mental



Imagem Publicada - A capa do livro "Eu Tinha um Cão Negro - seu nome era depressão", escrito e ilustrado por Mattew Johnstone, onde desenhado em fundo avermelhado está projetada a sombra de um cão que se estende a partir de um homem sentado sobre uma pedra, uma sombra que atravessa uma faixa mais clara em tons cor creme. Um homem que medita, apoiando a cabeça com as duas mãos, ele em tons cinza, como a pedra que o sustenta e se projeta com sua sombra que o assombra por muito tempo...

Andei com dificuldades para escrever estes dias. Muitos sonhos, muitos pesadelos obscuros e, em contraponto, muitas horas poéticas ensolaradas. Talvez meu último encontro com, como missivista, a Dona Morte tenha me deixado com um certo alívio de sua companheira: a outra Senhora de todos, a Dor. Mas, hoje me senti compelido a escrever sobre um tema que nos pertence a todos e todas. Reabri e reli o livro de Mattew Jonhstone. As depressões que tomam formas de animais ou de ''nuvens''. As mesmas que se usam para denominar as quedas dos impérios econômicos na história, as ''depressões'' que vem no rastro das falências sócio-econômicas mundiais: os dias ''negros''.

Mattew aborda de forma criativa e ilustrada o tema difícil e complexo da Depressão. Eu já havia pensado sobre sua abordagem não-clássica,humanizada e vivenciada na forma de belos desenhos que apontam o Cão Negro com uma metáfora da depressão.

Havia também feito uma crítica interna sobre o título, pois para mim o "cão PRETO" que pertubou até Winston Churchill ou Nietzche não deveria ser tão racista.Critiquei o uso de ''negro'' para definir o estado/doença/transtorno que afligiu o autor do livro. Basta lembrar o que na vox populi significa "negro" como adjetivo pejorativo e estigmatizante, quando associado a idéia de sofrimento ou pesar. O luto é negro sempre?...

Hoje as depressões, no plural, pois são multifacetadas e imbricadas com outras enfermidades, afligem a mais de 40 milhões de pessoas em todo mundo. Diria que o livro ficaria, na minha opinião, mais forte, menos racial com o título neo-traduzido: Eu tive um CÃO SEM COR, predominantemente preto e às vezes até descolorido. Para mim as depressões fazem perder o ''colorido'' vital.

O autor nos propõe em frases simples como vivenciamos a depressão. Ele nos conta que: "Quando penso no meu passado vejo que o Cão Negro entrava e saia de minha vida desde os meus vinte e poucos anos. Sempre que aparecia eu me sentia vazio e a vida parecia ficar lenta...".

E, nas minhas andanças do passado também ouvi, escutei, pressenti, compartilhei e cuidei intensivamente de muitos que honraram com a entrega de seus mais íntimos sofrimentos depressivos. Aprendi com eles/elas como este cão ou outras metáforas como a de um enorme Onda escura se agiganta e parece um tsunami paralisado sobre nós... É dramática e profundamente dolorosa essa vivência...

Hoje a OMS está convocando o mundo inteiro para uma reflexão no Dia Mundial da Saúde Mental. Neste 10 de outubro, 10/10/11 a Organização Mundial de Saúde tem uma estimativa de mais de 450 milhões de pessoas em todo o mundo que sofrem de alguma forma de transtorno mental. Mas o que devemos realizar é que para além da ''doença'' devemos buscar, como Mattew, uma solução para as diferentes formas de sofrimento psíquico singularmente. Não podemos cair nas estragégias globalizantes ou apenas estatísticas. Sim há milhões em sofrimento e nesse milhões uma parcela considerável vem sendo ''atacadas'' por cães de diferentes cores.

Temos para além dos cães negros, como já disse também há outros que se tornam até multicoloridos, é quando na busca de uma saída para os infernos dantescos alguns saem pela porta de disforias maníacas ou autoagressivas ou compulsivas. São outros tipos de caninos que laceram, simbolicamente, os narciscismos e outras defesas que nutrimos ou utilizamos.

Há os cães cinzentos que geram depressões pelas guerras, pela fome, pela miséria, pelas drogas, pelos preconceitos, pelas eugenias, pelas repressões políticas ou sexuais, pelos Estados autoritários e genocidas, pelos vizinhos homofóbicos, pelos carolas ultra-extremistas, pelos racistas, pelos eugenistas,pelos fanáticos, pelos que alimentam e fomentam as máquinas de destruição ou de poluição de nossa Gaia, por muitos outros que violentam direitos humanos e mantêm essas violações a custa de corrupções e poder.

Por isso precisamos de muitos dias para que os cães negros possam ser ''domesticados'' por seus ''donos''. Um dia para a Saúde Mental, já o vivenciei na prática, é muito pouco para a mudança de cultura e mentalidades sobre temas como a esquizofrenia e seus estigmas. Precisamos de muitos mais que o aumento de número de CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), e já o afirmei no documento sobre os Direitos Humanos em Saúde Mental da IV Conferência Nacional. Precisamos de um olhar ampliado para que toda a sociedade e cada um/uma se torne um multiplicador de ações em direção à Grande Saúde como o afirmava Nietzche.

Uma iniciativa a ser prestigiada é a do Ministério da Saúde com seu Curso de Gestão de Empreendimentos Solidários de Saúde Mental, resultado de uma parceria entre Coordenação de Saúde Mental do Ministério da Saúde e a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Universidade Federal do Rio de Janeiro (COPPE/UFRJ. Este curso atingirá um público específico: os usuários, seus familiares e trabalhadores inseridos em projetos de geração de trabalho e renda/empreendimento solidário.

É aí que os nossos cães negros, pardos ou sem cor passam a ser nossos ''passados'' sem seus passos ou sombras nos acompanhando. É no processo criativo e micropolítico de grupos de inclusão social e participação coletiva que, como as massas que agora retomam as ruas em protesto, que se germinam as revoluções moleculares que darão conta de todo esse canil das nossas loucuras, individuais ou coletivas. A economia solidária pode ser o antídoto/cura das ''recessões'' mais íntimas...

Mas essas ações, sejam governamentais ou não-governamentais, não podem se esquecer dos ''esquecidos''. Não podem se esquecer dos vivos-mortos nas Casas dos Mortos de Custódia, os velhos manicômios judiciários, onde as grades ainda servem para os suicidados se livrarem destes cárceres. Não podem se afastar dos princípios que já foram conquistados na luta antimanicomial e cairem em falsas políticas de asssistencialismo ou de reinternação de todas as formas de loucuras.

É preciso romper, não a moda de Pinel, as invisíveis formas de encarceramento como forma higienista de solução para os drogadictos. Não, não podemos reformar os hospitais com a criação de capsciosas estratégias abrigantes para meninos e meninas das ruas cheias de cães cinzentos...

Na releitura de um livro que aponta uma saída do que o autor chama de Cão Negro decidi, hoje, começar também buscar a cor de meus cães. Ele me incitou na direção de continuar buscando uma interlocução com a Dona Morte. Essa mesma senhora que se esconde sobre véus pretos enlutados que muitos acreditam ser a única saída de suas depressões profundas e arrastadas.

Como aprendi também de um outro autor, Stig Dagerman, que a "nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer''.Ele mesmo se trancou com a Dona Morte em uma garagem e dela se intoxicou, mas antes deixou um obra que deveríamos, afetuosamente, respeitar assim como sua única saída da depressão.

Os cães já foram considerados também filósofos. Assim denominaram a Diógenes, o pré-socrático e sua Escola dos Cínicos, ou melhor os ''cara de cão''. Ele também pode com sua filosofia nos apontar, no momento que estamos atravessando mundialmente, o quanto devemos combater os verdadeiros cinismos macropolíticos atuais. O quanto devemos convocar algo de revolta e de indignação contra toda e qualquer forma de opressão.

Mesmo aquela que os nossos cães íntimos nos impuserem. Mattew nos inspira a continuar lutando, cada um/uma, com seus próprios ''demônios'': " O Cão Negro pode me acompanhar pelo resto da vida. MAS APRENDI QUE, COM PACIÊNCIA, HUMOR, CONHECIMENTO E DISCIPLINA, ATÉ O PIOR CÃO NEGRO PODE SER CONTROLADO"...

Eu, aqui continuo afirmando, como Stig Dagerman que, com sabedoria, amorosidade, indignação, criatividade e muita dedicação: NINGUÉM, NENHUM PODER INSTITUÍDO, NENHUM ESTADO, NENHUMA RELIGIÃO OU SUA MISTIFICAÇÃO,NENHUMA FORÇA PODERÁ FAZER SECAR EM MIM O DESEJO DE VIVER... um OUTRO MUNDO, UM OUTRO E SEMPRE NOVO MODO DE SER NO MUNDO.... E COM O MÁXIMO DE SAÚDE MENTAL, aquela sem a qual as outras formas de ser e estar com saúde perdem todas as cores e intensidades.

E os nossos cães uivarão, mas não serão melhores ou maiores que minha/nossa paixão poética pela vida, para além de todas as misérias, dores, sofrimentos, doenças ou mortes.


copyright jorgemarciopereiradeandrade 2011/2012 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)

Matérias indicadas no texto:
Dia da Saúde Mental: OMS pede mais investimento em prevenção
http://www.pernambuco.com/ultimas/nota.asp?materia=20111010191853&assunto=31&onde=Brasil

Dia da saúde mental: é possível voltar ao estado normal após um AVC; saiba como
http://saude.terra.com.br/noticias/0,,OI5399626-EI16560,00-Dia+da+saude+mental+e+possivel+voltar+ao+estado+normal+apos+um+AVC+saiba+como.html

Prorrogado o prazo para inscrições no Curso para Gestão de Empreendimentos Solidários da Saúde Mental
http://portal.saude.gov.br/portal/saude/visualizar_texto.cfm?idtxt=37989

Leituras indicadas e contra-indicadas (para os que temem seus próprios cães) -
Eu tinha um Cão Negro, seu nome era Depressão - Mattew Johnstone - Editora Sextante - Rio de Janeiro, 2008
O Demônio do Meio Dia: uma anatomia da depressão - Andrew Solomon - Editora Objetiva - Rio de Janeir,2002
Perto das Trevas - William Styron - Editora Rocco, Rio de Janeiro, 1991.
Nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer - Stig Dagerman , Ed. Fenda, Portugal, 1989
( http://livrosfenda.blogspot.com/2010/12/stig-dagerman-nossa-necessidade-de.html
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ALEM DOS MANICÔMIOS Dia Nacional de Luta Antimanicomial 18 de maio

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INCLUSÃO/EXCLUSÃO - DUAS FACES DA MESMA MOEDA DEFICITÁRIA
http://infoativodefnet.blogspot.com/2011/02/inclusaoexclusao-duas-faces-da-mesma.html

SAÚDE MENTAL e DIREITOS HUMANOS COMO DESAFIO ÉTICO PARA A CIDADANIA
http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/dhjorgemarcio.pdf

sábado, 1 de outubro de 2011

NENHUMA DOR A MENOS OU A MAIS


Imagem publicada - A alegoria de duas mãos, juntas, estendidas porém abertas que libertam quatro borboletas, cuja cor predominante é o vermelho. Um desejo de ficar livre ou de libertar que está dentro de cada um e de todos os seres humanos... mas que muitas vezes, ou quase sempre, pode se tornar exatamente o seu oposto, se não damos asas às nossas frágeis e insistentes borboletas imaginárias.


Estes dias tive um sonho. Era um sonho agitado e de final surpreendente. Estava cuidando de um pássaro que minha filha gostava muito: uma calopsita. E, apos tentativas de aprisioná-lo o danado do voador não parava em nenhum lugar. Tento aprisioná-lo na gaiola e não consigo. Após um tempo ele está encurralado e ao me aproximar ele me bica o dedo. E, eis que aparece o que estava latente nesse sonho cheio de vôos e peripécias: uma dor indescritível. O dedo que aprisiona é aprisionado e preso na dor...

Mas o sonho não fica por aí. E como uma redenção dessa dor aparece um filhote de pássaro, que não consigo lembrar qual, ele pousa, suavemente, na ponta de meu indicador. E lá fica para meu espanto, no que me apresso para chamar a atenção para esta suave e doce lembrança à minha filha, mas ela não me ouve e o sonho se esvai.

Fiquei matutando sobre os possíveis significados desse sonho, e excluídas as ligações freudianas mais óbvias e já banalizadas, pensei no melhor significado para a minha ´própria' vida. Era a Dona Morte conversando novamente comigo, mas através de uma mensagem Epicurista: a dor só pode ser combatida com a felicidade.

Minhas atuais leituras estão me levando a considerar o tema da dor como muito próximo da morte. Estive mandando as minhas Cartas à Dona Morte. Porém como ela não entende essas '' mal traçadas linhas'' ou melhor nem dá bola para nossos queixumes ou interrogações, não tive ainda nenhuma ''resposta oficial''. 

Apenas esses telegramas oníricos, que, se devidamente interpretados, podem nos trazer muitas mensagens ou melhor algumas missivas até extensas e complexas. Mas só aprendemos sobre nossas dúvidas geradas por esses metadiálogos se nos tornamos ''meio-filosóficos'', ou melhor, produzimos novos e intrigantes conceitos.

Nessa linha de pensamento é que meu atual livro de cabeceira é: Crônicas da Dor, de Melanie Thernstrom, que, partindo de suas próprias vivências dolorosas, constroi um didático e envolvente caminhar pela história da Dor na vida humana. É o que mais tem me feito refletir sobre a relação de cumplicidade da Sra. Dor com a Dona Morte. Este livro pode ajudar a libertar algumas borboletas resilientes em nós.

Explico isso pelo viés da Bioética, pois é no ápice da via crucis de quem está com uma dor insuportável que pensamos ser melhor a via libertadora da morte.
É, por exemplo, quando estamos no leito de uma UTI e nossas 'dores' só são 'parcialmente' aliviadas. Nesse momento, mesmo que negando, a idéia de uma solução final nos aflige. É o momento crucial de resolvermos como nos livramos desse algoz, desse torturador, desse infame que nos vilipendia e atormenta a nossa frágil constituição humana. Até Freud o vivenciou em seu leito de morte...

Penso e já pensei antes que muitos dos que foram humilhados, seviciados, destituídos de suas resistências, como o foram os que passaram pelos porões da Tortura institucionalizada no Brasil, estiveram muitas vezes próximos demais de aceitarem a ''fruta ou o elixir que aplaca todas as dores'', o doce e inconsciente veneno da autodestruição: o suicídio redentor. 

Creio que foi este o bálsamo que foi ingerido pelo Frei Tito de Alencar, assim como outros suicidados pelo regime militar brasileiro. É no momento do ápice de dor de um torturado que a perversa ação de um torturador busca sua total entrega e derrocada. É nesse momento que muitos também, amarrados física e mentalmente, passam pela perigosa ponte em busca da Dona Morte como ''salvação". Pode ter sido isso que atravessou a mente de uma criança, o Davi, na Escola Alcina Feijão ao se suicidar?

Segundo Thernstrom: " Sentir dor física é estar num terreno diferente, num estado do ser diferente de todos os outros, numa montanha mágica tão distante do mundo conhecido quanto a paisagem de um sonho..." Por isso entendi a busca libertadora do '' passarinho vivo e pequeno'' de meu sonho. Era e é o indica-dor.

Muitas vezes, após as anestesias que inventamos, a dor pode cessar um pouco. A gente acorda, mas a lembrança não é de um sonho para quem têm a dor que persiste e insiste, sempre acordamos como que de um pesadelo, e tentamos esquecê-lo o mais breve possível. Mas como já disse uma poetisa, dramaturga e 'doente mental' portuguesa, Emma Santos: "... por mais que tomes suas drogas, como os amplictil, os haloperidol, os outros, o AMANHÃ SEMPRE VEM..." (O Teatro)

Para os que vivem com a dor, e dela extraem algum aprendizado, pois estamos agora mais livres e democráticos, é que afirmo e confirmo o que já escrevi: o alívio da dor é um direito humano. E será mais ainda se conquistarmos um outro olhar e um outro modo de cuidar da Medicina diante da dor crônica. 

Mais ainda se conquistarmos mais adeptos para o reconhecimento do princípio bioético da Justiça e da Autonomia como pilares fundamentais e indispensáveis para o exercício da beneficência. Devemos caminhar para um futuro onde haja espaço para compreensão e o respeito à dor do Outro. E QUE TODOS OS ALGOZES SEJAM BANIDOS, em especial todos os torturadores... A eles em verdade nunca coube ou deverá caber o perdão nem a Anistia.

Da mesma forma que estamos desejando, apesar das resistências conservadoras, passar a história dos Anos de Chumbo a limpo também deveríamos aprender a história da dor. Ao conhecê-la e, quicá compreendê-la, experimentando sua complexidade, mudar nossos paradigmas. Ao mudá-los tentar compreender que dores físicas não podem ser reduzidas, por nossa onipotência e impotência curativa, a meras situações de ''fantasmas, fantasias, depressões ou histerias''.

O CORPO NÃO PODE SER REDUZIDO A APENAS UMA METÁFORA OU A UMA VIDA NUA, em todos os espaços e latitudes, seja em uma atendimento médico ou em uma sala de torturas. Em ambas, como exemplo, o exercício de poder deverá sempre ser contrastado pelo novo paradigma ético e bioético de ressignificação da VIDA DIGNA, e, portanto, do direito à não-dor e o ardor do viver....MITO, SONHO ou POSSIBILIDADE?

Faltou dizer que no sonho que tive, para aliviar a dor imensa que sentia vivenciei um dilema: só poderia me livrar da dor se o frágil pássaro preso a outra mão fosse morto. Fiquei sem saber a resposta desse dilema., preferi, talvez por meu temor da Dona Morte, uma saída vital e inventei um pequeno ser voa-dor que suavemente me indica como sair desse aprisionamento sem pactos com a Dona citada: dar asas às minhas mais férteis e loucas imaginações... e voltar a sonhar com um dia sem nenhuma dor a menos ou a mais.


copyright jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)

Indicação para Leitura e reflexão: AS CRÕNICAS DA DOR - Tratamentos, mitos, mistérios, testemunhos e a ciência do sofrimento - Melanie Thernstrom - Editora Objetiva, Rio de Janeiro, RJ, 2011.

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O APRENDIZADO DA DOR - O ALIVIO DA DOR É UM DIREITO HUMANO?http://infoativodefnet.blogspot.com/2010/09/imagem-publicada-foto-de-uma-mulher.html