sexta-feira, 26 de agosto de 2011

CARTAS deVIDAs à DONA MORTE


Imagem Publicada - a foto do ator Al Pacino, com um par de óculos grandes, interpretando o Dr. Jack Kervokian. É o cartaz de propaganda do lançamento de um filme-documentário sobre a vida deste médico norteamericano que foi apelidado de ''Doutor Morte". Este médico patologista, obcecado com a questão a Morte, ficou conhecido mundialmente por defender, aplicar e criar uma máquina para o suicídio assistido de pacientes terminais. O documentário tem o título "You Don't Know Jack, The Life and Deaths by Jack Kervokian" (2010), foi, este ano, exibido pela HBO em seu canal, um mês antes da morte do médico. É um excelente exemplo da performance de Al Pacino e desmitifica o médico, trazendo-nos para o debate bioético e a crítica sobre o direito à morte com dignidade, para além de quaisquer questões ideológicas ou religiosas. Este cartaz tem uma interrogação no alto: "Is this a face of a killer?" ( Este é o rosto de um assassino?).

Estimada, querida, ilustrada/ ilustríssima e desejada 

Sra. 
DONA MORTE 
(hoje tão naturalizada, mas resisto em re-conhecê-la assim...) 

Tenho passado estes dias me perguntando se a Morte é a coisa depois da qual nada acontece aos Outros? Minhas interrogações são fruto de intenso e profundo questionamento sobre o morrer e a dignidade que a Sra. nos oferece ou oferecerá. Aliás, quem nos anda oferecendo uma ''boa ou dolorosa morte" é uma outra senhora: a Dona Medicina. Com seus avanços biotecnológicos, sempre acompanhados de uma ''boa e eficiente'' biopolítica para nossos corpos e órgãos vitais. 

Para o poeta Pessoa a morte é um acontecimento único, solitário, subjetivo, que não causa aos outros senão uma lembrança vaga. Uma lembrança que o tempo se encarrega de apagar. E, ao morrermos por aqui, nos tornamos apenas mero motivo de alguma forma de carpidação, ou seja lamúrias bem pagas que relembram/choram o morto e sua história já passada. E, para ele, o verdadeira mente morto, restará o esquecimento. Seremos lembrados apenas aniversariamente. 

Entretanto, Caríssima/Custosa Sra., digo-lhe nessas mal traçadas linhas que ainda és um enigma nos nossos singulares pós-mortem. Continuando um dilema enquanto somos considerados vivos. E, para lhe dar a deVida explicação, desta celeuma, lhe antecipo ser um médico, depois um psiquiatra e, pior ainda para seus admiradores, me aventuro nos des-caminhos psicanalíticos. 

Não me destes, nesses anos de Klínica, ou mesmo de convívio com a Loucura ou as neuroses, inclusive com meu temor ou pulsão, as respostas que gostaria. Por isso continuarei a interrogando e me assombrando com meus próprios fantasmas. 

Meus dias atuais me trazem de volta ao seu convívio. Não é um reencontro prazeiroso, Dona Thanatós. É, como pensou Canetti, refletindo sobre sua ''distinta'' figura: "o maior esforço da vida é não se acostumar com a morte". Realisticamente não lhe considero uma boa e agradável ''vizinha''. 

Embora a saiba rondando todos os espaços que frequento, passeie ao meu lado pelas ruas, me assombre em pesadelos ou se disfarce em agradáveis sonhos, até mesmo, principalmente, hodiernamente, na vida sexual. Basta lembrar como lhe deram uma nova metáfora, uma nova epidemia. Andaram e andam lhe associando à Aids. 

Associam-na com doenças ou sofrimentos. Imputam-lhe estigmas e preconceitos. Por isso lhe digo:- Cara distinta e nada distinguidora Dona Morte, a vetusta e impávida não pode ser a dona da Vida, embora alguns adeptos a considerem assim. Até mesmo o velho Freud a colocou em aparente separação/simbiose com Eros, mas vieram os existencialistas prá complicar nossas vivências e tentativas de vã filosofia. A sua presença, mesmo negada, está hoje até nos videogames, portanto, agora vivemos/ensaiamos também ''mortes'' digitais. 

As mortes "reais" que acontecem a granel, seja no Haiti ou na Somália, passando por Trípoli ou alguma comunidade pacificada do Rio, já são hoje pré-contabilizadas. Não nos sensibilizam tanto, e, tristemente, confirmam o Fernando Pessoa, são lembradas muito pouco depois que desligamos nossas tele-visões desses mortos alhures... 

Canetti nos diz que: "A monstruosa estrutura de poder surgiu dos esforços dos indivíduos para evitar a morte. Um número infinito de mortos foi exigido para a sobrevivência de um só indivíduo..." . Continuamos chamando isso de História?? 

Mas esta singela cartinha, ou melhor essa morte-ssiva, uma aglutinação de missiva com a Senhora, é apenas um princípio do nosso diálogo. Espero ter a chance de novas des-conversas, aliás monólogos, até o momento que a deseje mais que qualquer coisa da Vida. 

A grande chance é de que possa ter esse papo interrompido, coisa que não passa muito em nossas cabeças quando não estamos nos braços da depressão ou do suicídio. Por isso é que deveríamos lhe escrever mais vezes e tentar manter alguma proximidade ou acercamento subjetivo. 

Mando hoje esta mensagem, pensando em quem eu não gostaria que morresse, ou que a moda de Dr. Kervokian, pudesse ter uma ''morte digna''. Há um novamedicina reconhecida: os cuidados paliativos. 

Como já escreveu Raquel M. Ainsengart, com quem já tive a honra de trabalhar, o árduo trabalho dos paliativistas, em Utis (Unidades de Tratamento Intensivo), com os chamados ''pacientes FPT'' ( fora de possibilidades terapêuticas), gera uma nova administração do fim das nossas vidas, e: "...a assistência paliativa é solução para inúmeros dilemas éticos engendrados por uma determinada forma de exercício da medicina".

Dona Morte, com a deVida reverência às suas democráticas formas de extermínio, ainda não a naturalizei. Continuo como Simone de Beauvoir em busca de uma morte suave, porém digna. Continuo em busca de uma mirada bioética e crítica para a produção da ''boa morte'', as eutanásias, as distanásias e, mesmo aprovadas, as ortotanásias. NENHUMA DELAS SUAVIZA MEU CONFLITO COM A DONA MORTE. São as produções humanas diante do fato de não há uma morte, qualquer forma de morrer, ou qualquer morto que seja ''natural''. 

Para não me alongar, embora o tema de nosso confronto seja infinito, peço-lhe, hoje, que concedas aos moribundos um momento de poesia. Quereria estar em todas as máquinas que mantêm os sujeitos FPT sobrevivendo para lhes injetar, com todo respeito, um novo lenitivo. Iria lhes dar em doses progressivas o texto de Jacques Prévert, seu poema denominado Canção do Mês de Maio

O Burro, o Rei e Eu 
Estaremos mortos amanhã 
O burro de fome 
O rei de tédio 
E eu de amor. 

Um dedo de giz 
Na lousa dos dias 
Escreve os nossos nomes 
E o vento nos álamos nos nomeia 
Burro Rei Homem. 

Sol de Pano preto 
Já nossos nomes foram apagados 
Água fresca dos Pastos, Areia dos Areais, 
Rosa do roseiral vermelho 
Caminho dos alunos 

O burro, o rei e eu 
Estaremos mortos amanhã 
O burro de fome 
O rei de tédio 
E eu de amor 
No mês de maio. 

A VIDA É UMA CEREJA 
A MORTE UM CAROÇO 
O AMOR UMA CEREJEIRA.

PS - Uma última pergunta: porque seu nome, como a Terra, foi inventado no feminino? Assopre a resposta em meu ouvido... fico lhe devendo outras perguntas.

copyright jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)

Sobre JACK KERVOKIAN - Morre, aos 83, Jack Kervokian, conhecido como 'Dr. Morte'
http://veja.abril.com.br/noticia/saude/defensor-do-suicidio-assistido-morre-aos-83-anos

Indicações para uma ''boa'' leitura sobre a morte e o morrer:

 Em Busca Um Sentido (para a Vida) - Viktor Frankl (trigéssima edição), Ed. Vozes, Petrópolis, RJ.

Sobre a Morte - Elias Canetti , Ed. Estação Liberdade, São Paulo, SP, 2006.

Em Busca da Boa Morte - Antropologia dos Cuidados Paliativos - Raquel Aisengart Menezes , Ed. Fiocruz/Garamond, Rio de Janeiro, RJ, 2004.

Uma Morte Muito Suave - Simone de Beavoir, Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, RJ, 1984.

Poemas - Jacques Prévert, Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, RJ, 1985

Leia também no blog -
O SUICÍDIO E A DOR - 
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2015/09/o-suicidio-e-dor.html
Aos pais que aprenderam com (ar)dor a perda -
http://infoativodefnet.blogspot.com/2011/08/aos-pais-que-aprenderam-com-ar-dor-as.html
A pagar-se uma pessoa com Síndrome de Down
http://infoativodefnet.blogspot.com/search/label/Mar%20Adentro
Saúde Mental : Quando a Bioética se encontra com a Resiliência 
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/10/saude-mental-quando-bioetica-se_11.html
A DONA MORTE É GLOBAL, MAS NOSSO TESTAMENTO PODE SER VITAL 
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/09/a-dona-morte-e-global-mas-nosso.html

domingo, 14 de agosto de 2011

AOS PAIS QUE APRENDERAM COM A(R) DOR AS PERDAS


Imagem Publicada - a foto colorida da capa do filme AS CHAVES DA CASA (com título em francês: Les Clefs de la Maison), com os atores Kim Rossi Stuart e Andrea Rossi, interpretando os papéis de pai e filho, com os rostos próximos. É a história de um filho com paralisia cerebral (Andrea Rossi), com 15 anos, que faz com que o pai tenha uma grande transformação e mudanças em seus preconceitos e culpabilizações. O pai (Kim Rossi Stuart) tem um encontro dramático com uma mãe de outra pessoa com deficiência, interpretada por Charlotte Rampling, que lhe faz superar suas velhas dores afetivas ligadas ao filho.

Minhas dores já se tornaram minhas velhas companheiras, me ensinam. Já disse, outro dia, que ainda vou escrever sobre as fagulhas e as agulhas das dores. Mas as minhas dores, hoje, são primordialmente físicas. As dores que eu vivencio, hoje, não se comparam as que guardo como pai. E, para os pais que aprenderam a viver e conviver com as suas dores mais recônditas, muitas vezes escondidas ou negadas, é que escrevo nesse chamado, também comercial, Dia dos Pais. Há pais que não ficam, nem ficarão, mesmo no carinho e amor de suas famílias, longe de suas dores...

A dor que nos ensina vem de nossas experiências com nossos filhos. Escolhi dois filmes italianos, que gosto muito, para me lembrar da existência de pais que dificilmente se recuperam quando as perdas os atingem. Temos, provavelmente, muitos pais que, nesse momento, estarão perdendo seus filhos. Principalmente pelo que hoje vem sendo cometido contra a nossa juventude. Em algum lugar, em alguma cena triste ou de pesar, há alguém recebendo a notícia dessa perda inesquecível. O Dia dos Pais não nos exime de perder aqueles que nos homenageam hoje e sempre.

O que me perguntei ao assistir o filme foi: As Chaves da Casa - onde estão as chaves??. Para ter "chaves" de uma casa primeiramente precisamos de ter uma "casa". A que me refiro e penso não é necessariamente do programa Minha Casa, Minha Vida, embora possa parecer título de cinema. É uma casa mais simbólica do que concreta e de concreto. É a casa construída dentro do imaginário e das nossas recordações. Onde podemos guardar/recordar de outro filme, outra história: O Quarto do Filho.

Uma casa do passado onde as minhas, as suas e as perdas afetivas de filhos de alguns pais tem suas sombras, suas nuances e suas claridades possíveis. Lá estão guardadas as dores, na diferença de intensidade de cada um. Já escrevi: nós, pais, somos diversos além de diferentes.

O primeiro filme. "As Chaves da Casa", em uma leitura simplista, pode parecer nos convidar para entrar em um universo sentimental que geralmente chamamos de lar. O filme, porém, nos traz uma abordagem da relação com a deficiência que precisa ser pensada, pois em um momento crucial do mesmo é afirmada mais uma vez a relação errônea entre Doença e Deficiência.

A atriz Charlotte Rampling, mãe de uma moça com paralisia cerebral, que freqüenta o hospital onde se faz a reabilitação, dirige-se a Kim Rossi Stuart, no papel de pai de Paolo, o jovem filho, também com paralisia cerebral e lhe diz que ele “tem sorte, pois a doença o protegerá pelo resto da vida...”, e não foi erro de tradução, pois o italiano usado pelos atores é perfeitamente traduzível para nossa concepção de enfermidade.

As deficiências, de nossos filhos, não são uma proteção eterna. Muito menos são doenças. Há uma relação a ser descoberta com o título dessa película. Acredito que o autor e diretor do filme quis nos levar a pensar primeiro em AUTONOMIA, pois quem tem todas as chaves da casa neste filme é o sujeito com deficiência.

Paolo (Andrea Rossi) é que sabe das chaves, tendo inclusive uma chave para o ladrão. Ele também é o filho que foi "abandonado" pelo pai há muito tempo pois recebeu a culpa da morte de sua mãe. E, sendo um sujeito com uma deficiência, nos imprime também alguns temores, inclusive o de nossa igualdade na fragilidade física.

Eis aí um prato cheio para uma psicanálise das fontes de culpabilização que se imputam aos pais de filhos com deficiência. O jovem Paolo nasce e sua mãe morre no parto. Ficam, então, o pai e o filho, separados por 15 anos, com o futuro para se aproximarem e, dolorosamente, aprenderem a amar um ao Outro. E, somente após seus lutos reconhecidos, poderão descortinar que não há nenhum vácuo, vazio ou ausência na morte. Há também possíveis re-nascimentos afetivos.

São estes re-nascimentos afetivos que podem ajudar a cicatrização de nossas feridas. As mesmas que nos causam mais dores do que as físicas. As que surgem das perdas ou traumas com os nossos filhos. Há aí um exemplo fidedigno na belíssima obra de cinema: O Quarto do Filho (vencedor da Palma de Ouro e o Prémio FIPRESCI na 54ª edição do Festival de Cannes).

Nesse filme de Nanni Moretti, diretor e protagonista, nos mostra o que um pai pode guardar da dor ao perder um filho. Ele interpreta um psicanalista que vive às voltas com seu trabalho analítico com a loucura, as neuroses, as fobias, e as dores dos outros.

Ao ter seu filho morto em um acidente em uma praia, ao tempo em que trabalhava, passa a viver a dor da culpa de não estar ao lado dele. A dor que se mistura com culpa por não ter ''salvo'' o filho. Muitos pais já experimentaram essa amargura. A eles envio minha solidariedade, mas também meu aprendizado de transformação do luto em paixão pela vida.

Uma lição sobre como não cair na mesma situação representada por Nanni Moretti. O seu psicanalista, Gianni, reencontra-se com a crise familiar diante da tragédia. Ele para de trabalhar com os outros e passa ao mais árduo dos trabalhos: a auto-análise crítica e a elaboração de sua perda filial.

Os dois filmes italianos, mantidas as suas diferenças e propósitos, nos trazem nos títulos a presença de nossas vidas "intradomus", ou seja dentro da família, dentro de nossos lares e seus conflitos. Trazem também, como já disse, um outro tipo de "casa ou quarto". Trazem os sótãos e os porões de nossos inconscientes onde se abrigam ou se refugiam nossas dores, as nossas dores de amores perdidos.

E a perda de um filho ou filha pode ser, hoje, a única lembrança de algum pai, em todos os lugares. A estes pais que não superaram as suas perdas, qualquer que sejam seus motivos, envio hoje um abraço doce, forte e caloroso. A eles dedico um pouco de minha lembrança do dia em que perdi meu filho Yuri.

O aprendizado que meu filho me deu, assim como a dor de sua perda, têm me alimentado a resiliência vital. Em busca de uma outra forma de lidar com o que muita gente ainda considera uma "doença", ou seja uma 'deficiência' em um filho, aprendi que nós é que podemos nos adoecer e, até enlouquecer, se não re-conhecemos, para além de quaisquer profissões ou aprendizados, a sabedoria cotidiana de reverenciar nossos mortos. A sabedoria de aprendermos a morrer vivendo intensa e criativamente.

E, COM ARDOR COMEMORAMOS, AMOROSAMENTE, NOSSO DIA... nossos dias... carpem diem...

A TODOS OS PAIS e também às mães, em seus dias de não ficção cinematográfica da dor ou das perdas deixo minha poesia:

NENHUMA MORTE DEVE SER EM VÃO

RÉQUIEM para um filho amado
Te procurei entre as nuvens
pela janela pequena dos meus olhos tristes...
Voando
Te procurei entre as nuvens, última esperanca
de vê-lo voando no tapete branco das nuvens
Mas não se distiguem os anjos das nuvens !
Não se pode ver o branco sobre o branco,
onde não há diferenças ou nuances
Nem mesmo com a dor-vontade de vê-lo agora
FILHO MEU ! filho que partiu como um devir entre as nuvens
Tuas diferenças e teu cândido olhar falante,
para além de todas as falas e palavras ditas,
me ensinou, e ensina ainda, a buscar além das nuvens
a sonhar com um mundo-céu-azul
onde as criancas de todas as cores, como você
e todas as outras tão diferentes, tão diversas,
nos ensinam que
só há um vôo a realizar,
APRENDER E ENSINAR A AMAR TODAS DIFERENÇAS
.

PARA YURI, o `TERNO` COM TODA TERNURA E AMOR DO SEU PAI Jorge Márcio Pereira de Andrade.
"O poema acima foi escrito hoje (15/04/2000) ao voltar de viagem,num avião, onde sómente a escrita pode dar conta da minha dor e paixão pela perda de meu filho, Yuri, com 13 anos,e uma pessoa muito especial, para além de ser paralisado cerebral ou pessoa com DEF - Distúrbio de Eficência Física" (www.defnet.org.br abril de 2000)

O MESMO RIO QUE NOS LEVA PODE TRAZER NOVAS ÁGUAS, E NÃO APENAS SEIXOS ROLANDO EM SEU FUNDO...

Filmes citados no texto:
AS CHAVES DA CASA
http://www.adorocinema.com/filmes/chaves-de-casa/
Título original: (Le Chiavi di Casa) Lançamento: 2004 (França, Alemanha, Itália) Direção: Gianni Amelio

Atores: Kim Rossi Stuart, Andrea Rossi, Charlotte Rampling, Alla Faerovich.

Duração: 105 min Gênero: Drama

O QUARTO DO FILHO - http://www.adorocinema.com/filmes/quarto-do-filho/

Título original: (La Stanza del Figlio) Lançamento: 2001 (Itália) Direção: Nanni Moretti

Atores: Nanni Moretti, Laura Morante, Jasmine Trinca, Giuseppe Sanfelice.

Duração: 98 min Gênero: Drama

 
LEIA(M) TAMBÉM NO BLOG - 


 EXISTEM PAIS DIFERENTES OU DIVERSOS PAIS?
http://infoativodefnet.blogspot.com/2010/08/existem-pais-diferentes-ou-diversos.html


O MUNDO ENVELHECE, AS INJUSTIÇAS AINDA PERSISTEM, E, ENTRETANTOS, O MEU PAI FAZ 102 ANOS http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/04/o-mundo-envelhece-as-injusticas-ainda.html

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

AS SEXUALIDADES NÃO SÃO "DEFICIENTES"...


Imagem publicada - a capa do Dvd do filme Nascido em 04 de Julho ( Born on the Fourth July) que está com o rosto do jovem soldado Ron Kovic, interpretado por Tom Cruise, entre as duas faixas de anúncio do filme, com uma bandeira dos Estados Unidos, com suas listas brancas e vermelhas alternadas, com seu azul cheio de estrelas, que lhe serve de fundo, de forma suave. O filme nos trará um drama sobre um jovem que vai à Guerra do Vietnã (1955-1975) em seu idealismo insuflado dos Anos 70, e, após ser ferido, torna-se paraplégico. Ao voltar ao seu país terá o confronto com a família, as perdas, sua nova condição humana, a exaltação de um heroísmo preso à sua cadeira de rodas. E, principalmente, enfrentará/sofrerá as mudanças de seu corpo e de sua sexualidade. Um tema que já havia sido tratado em outro premiado filme: Amargo Regresso (1978), título que também caberia nessa história e tema em repetição.

Sobre direitos sexuais e reprodutivos de pessoas com deficiência

Hoje revi e repensei sobre o filme Nascido em 04 de Julho (1989). Nesse mesmo momento a Bolsa de Nova York nos diz que o mundo hipercapitalista reconhece seu próprio risco econômico. Rebaixam o Império ao mesmo nível que rebaixaram o México que aparece no filme de Oliver Stone. Lá estão as mulheres mexicanas, prostituidas, que podem resgatar a virilidade perdida pelo personagem vivido por Tom Cruise, "paralítico", impotente e veterano de guerra.

Uma mulher, representada no filme com o nome Maria Helena, protagoniza uma das melhores cenas, quando o faz descobrir que, apesar de sua paraplegia, há muito que sentir quando a sensibilidade e o desejo se cruzam em um encontro sexual. Para além de todas as repressões e impotências.

Estamos, hoje, está em um patamar bem diferente dos tempos vividos pelo personagem do filme. Relembro, eram tristemente , tempos de Vietnã, os famosos Anos 70 da economia de guerra para os EUA e dos Anos de Chumbo da Ditadura por aqui. Os soldados mutilados lá, os torturados por aqui... E o sexo aprisionado apenas nos bordéis para os que se tornavam marginalizados ou párias.

Estes tempos que ainda se repetem, com novos slogans, com novas Vidas Nuas sendo tratadas como matáveis. Diziam, à época: ..."se você não ama os EUA, caiam fora daqui..., replicamos isso em nossa Terra Brasilis: " Ame-o ou Deixe-o". Mas também dizíamos: "Peace and Love". O modelo conservador conseguiu não dar uma chance à Paz e ainda mantemos a negação da repressão que atravessa nossos corpos, agora transparentes e líquidos.

Hoje, em tempos de hiperexposição dos corpos, as formas de reprimir e disciplinar são bem mais sutis e não tão disciplinadoras, somos menos libertários. Caminhamos, como já disse, mais para a antipatia pelo Outro do que para uma empatia que nos preserve, em direitos iguais, com o direito à Diferença e à heterogeneidade. As pessoas com deficiência, por suas diferenças visíveis ou conotadas, além dos sentimentos eugenistas, ainda são sexualmente segregadas?

A existência de vida sexual para as pessoas com deficiência e seus direitos reprodutivos já são um tema que já abordei. Este filme integrou um projeto de levar os cegos ao cinema. Foi em 1998, no IAB, Instituto dos Arquitetos do Brasil, quando organizei, pelo DefNet, um Ciclo de Cinema e Pessoas com Deficiência, cujo nome já indicava nosso sonho: "Um Olhar para Além do Olhar".

Era a tentativa de provar que pessoas com deficiência visual poderiam frequentar e ''ver'' filmes. Criamos uma figura: os ''ledores de cinema''. Era uma incipiente tentativa de audiodescrever o que se passava na tela. Era também a tentativa de abordar temas que suscitassem polêmica, debate e reflexão. A questão da sexualidade negada de pessoas com deficiência foi, à época, trazida pelo Nascido em 04 de Julho.

Resgatar esse filme, hoje, me trouxe para o que há de atual ainda em seu modelo denúncia e crítica. Atualmente as nossas ''guerras'' são mais sofisticadas tecnologicamente, e os veteranos já estão sendo projetados como futuros ''avatares''. As suas cadeiras de rodas e seus corpos podem ser reciclados. Porém, me pergunto se perduraram os preconceitos quantos às suas sexualidades? Sim, devemos dizer retumbantemente.

Nossos tempos são de homofobias, xenofobias e, exagerando, ''deficientefobias''. O que diriam os vereadores paulistanos, em recente reação ao Dia do Orgulho Gay, se soubessem que muitas pessoas com deficiência são gays? Na sua intolerância, disfarçada de "democracia", iriam, demagogicamente, propor um projeto de lei "especial" para o Dia do Orgulho dos Heteros Deficientes?

Ainda passamos com um carro denominado Progresso, Ordem e Intolerância sobre o corpo-social de Pasolinis? Precisamos estilhacar e despedaçar o corpo-guerreiro de Aquiles para provar que nossas novas e americanas Tróias imperiais, conservadoras e belicosas são, apesar de derrotadas, eternas? Precisamos de corpos-serializados e perfeitos para provar para Breivik (ing)* e seu ''povo eleito'' que o terror não inibirá o desejo e muito menos a vida amorosa e sexual dos diferentes ou miscigenados? Precisamos de corpos-disciplinados, em reality-shows, competitivamente esculpidos em formas ideais, para provar que só podem fazer sexo aqueles que forem considerados "video-normais"?

Estes dias republiquei uma matéria de um vereador de Salvador que deseja ver os motéis de sua cidade acessíveis para as pessoas com deficiência. Veio em boa hora, um lembrete para que todas as cidades, seus políticos e cidadãos se lembrem da existência de uma considerável parte de suas populações: as pessoas com deficiência. E elas desejam, sentem, aspiram, respiram e fazem sexo. Assim também se amam ou não...

A proposta propõe a acessibilidade em motéis e hotéis da capital baiana, agora tramita na Câmara Municipal de Salvador. A proposta é de autoria do vereador Henrique Carballal (PT). Os estabelecimentos, hotéis e motéis, com mais de 20 leitos seriam obrigados a realizar adaptações para beneficiar pessoas deficientes ou com mobilidade reduzida.

a Enquanto a lei não os obriga, imaginemos uma nova cena para a sexualidade livre de pessoas com deficiência. Outro dia um amigo mineiro, com histórica vivência de Paralisia Cerebral, me consultava se não seria motivo de prisão o fato, não ocorrido, de que sua namorada o levasse a um motel. Como ele é pessoa com paralisia cerebral, e tendo alguma dificuldade para explicar em palavras seus atos e desejos, como ficaria quando ele pedisse uma máquina de escrever, como aquela da Gaby, no filme Uma História Verdadeira, para explicar seu tesão e desejo pela namorada, que não é uma pessoa com deficiência??.

Então, ele começaria a digitar, hipoteticamente, com o pé esquerdo, a seguinte mensagem: " - Eu estou aqui por livre e espontânea vontade. Ela não me obrigou ou obrigará a fazer quaisquer dos atos libidinosos que nós dois estamos intensamente desejantes.


 EU TAMBÉM QUERO AMAR E SER AMADO, COM TODA INTENSIDADE QUE QUALQUER OUTRO SER HUMANO. E, caso ela fique grávida eu terei o maior prazer de me tornar pai e ajudar a cuidar de nosso filho. Apesar que isso não acontecerá, pois eu já aprendi a usar preservativos há muito tempo. Sei que pessoas com deficiência vivem também nos tempos da Aids. 


Portanto, caros senhores e senhoras, seres cinzentos da Censura e da falsa Moral, não há porque me manter em uma posição de dependência e total vulnerabilidade. Não continuem negando minha existência com direito às diferentes formas de sexualidade humana. Sou eu quem pediu para vir a este motel, aliás, inacessível..."

Somos, então, Diferentes, não somos desiguais em direitos. Semelhantes? sempre seremos, em muitos desejos. Por isso, reafirmamos, não somos assexuados. Somos parte de uma diversidade humana que, em suas pluralidades e singularidades, também afirmam como o poeta: Qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amar. A(s) Sexualidade(s) não são deficientes nem deficitárias: são as expressões máximas da vida, quando são livres das amarras de nossos íntimos preconceitos ou temores.

O maior cuidado é quando nos tornam apenas objetos, Vidas Nuas. É quando passamos a vítimas de violências, inclusive, e, principalmente, meninas e mulheres com deficiências.

O tema é vasto, profundo, polêmico e necessário. Não se esgotará neste texto. Apenas espero que muitos jovens com deficiência, sem distinção de suas orientações e escolhas sexuais, possam gozar dos mesmos direitos sexuais e reprodutivos de todos os outros jovens daqui, dali e de todo o mundo. E que todos os motéis possam descobrir esses novos e prazeirosos frequentadores. E a acessbilidade deixe de ser apenas a remoção das barreiras físicas e arquitetônicas...

PS - Em tempo, sobre o projeto do vereador -
Segundo o Decreto 5296, de 2004, todos os hotéis, motéis, pousadas ou abrigos deveriam já devem estar com plena acessibilidade para as pessoasa com deficiência.
Segundo a lei: Art. 8o 

Para os fins de acessibilidade, considera-se: I - acessibilidade: condição para utilização, com segurança e autonomia, total ou assistida, dos espaços, mobiliários e equipamentos urbanos, das edificações, dos serviços de transporte e dos dispositivos, sistemas e meios de comunicação e informação, por pessoa portadora de deficiência ou com mobilidade reduzida

VII - edificações de uso coletivo: aquelas destinadas às atividades de natureza comercial, hoteleira, cultural, esportiva, financeira, turística, recreativa, social, religiosa, educacional, industrial e de saúde, inclusive as edificações de prestação de serviços de atividades da mesma natureza;


IMPRESCINDÍVEL LEITURA E APLICAÇÃO: DECRETO Nº 5.296 DE 2 DE DEZEMBRO DE 2004

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/decreto/d5296.htm

copyright jorgemarciopereiradeandrade 2011-2012 ( favor citar o autor e as fontes em republicações livres na Internet e outros meios de comunicação de massa)

Indicações para LEITURA
A Revolução Sexual sobre Rodas" (Ed. Nome da Rosa ) - Fabiano Pulhman

A sexualidade da pessoa com deficiência - Leandra Migotto Certeza -
http://www.inclusive.org.br/?p=12340

Inclusão e Sexualidade: na voz de pessoas com deficiência -Ana Cláudia Bortozolli Maia (Editora Juruá) www.jurua.com.br

Indicações de publicações na Internet -
VEREADOR QUER MAIS ACESSIBILIDADE NOS MOTÉIS 
http://www.otabuleiro.com.br/blog/?p=11803

Vereador quer acesso para deficientes em Motéis -
http://www.bahianoticias.com.br/noticias/noticia/2011/08/05/99306,vereador-quer-acesso-para-deficientes-em-moteis.html#

Direitos (Sexuais e Reprodutivos) da pessoa com deficiência serão discutidos em seminário (no Piauí)
http://180graus.com/geral/direitos-da-pessoa-com-deficiencia-serao-discutidos-em-seminario-446318.html

Brasil: Orgulho Hétero ou Intolerância Homo?
http://pt.globalvoicesonline.org/2011/08/07/brasil-orgulho-hetero-intolerancia-lgbt/

Dica de filme: “Nascido em 4 de julho” - Diretor: Oliver Stone (1989) - Guia Inclusivo
http://www.guiainclusivo.com.br/2011/07/dica-de-filme-%E2%80%9C nascido-em-4-de-julho%E2%80%9D/

Gaby - Um História Verdadeira - Diretor: Luis Mandocki (1987)
http://incluirse.blogspot.com/2009/06/gaby-uma-historia-verdadeira.html

Alguns Blogs indicados sobre o tema:
Ações e reflexões sobre aids e deficiência: diferentes vozes
http://aidsedeficiencia2010.blogspot.com/

Sexo Eficiente http://sexualidadeficiente.blogspot.com/

Mão na Roda - Motel adaptado no Rio! http://maonarodablog.com.br/2010/02/26/motel-adaptado-no-rio/

¨*SOBRE  O TERRORISTA NORUEGUÊS BREIVIKING - Leia também no blog -
A TOLERÂNCIA É MAIS QUE UM BACALHAU NO MEU FEIJÃO http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/07/tolerancia-e-mais-que-um-bacalhau-no.html