domingo, 11 de setembro de 2011

NOSSAS IN -DEPENDÊNCIAS da DONA MORTE em 11/09/11


Imagem Publicada - a capa de DVD do fime "11"09'01", realizado por 11 diretores de diferentes nacionalidades, culturas e pontos de vista acerca do ataque terrorista às Torres do WTC, em Nova York, em 11 de setembro de 2001. São episódios de curta duração, alguns minutos que condensam a sensibilidade e a diversidade humana diante de tragédias coletivas. A capa traz recortes, fotográficos, dos episódios, como se fossem as torres gêmeas, e o nome de todos os 11diretores de cinema abaixo do título,11 de Setembro, em letras vermelhas.


Caríssima e sempre atemorizadora Sra.
Dona Morte

Assisti muito pouco da cerimônia de homenagem aos mortos das duas torres. Apenas observei, quando despertava de mais uma noite mal dormida, por minhas dores, que as dores dos familiares ainda estavam presentes nesse espetáculo-lembrança. Lá estavam,atrás de vidro blindado, os presidentes, o passado Bush e a atualidade Obama.

Cara Dona Morte, ultimamente reforçou-se em mim as lembranças de um velho livro: A NEGAÇÃO DA MORTE. Nele seu autor, Ernest Becker nos traz uma das mais preciosas leituras sobre as nossas in-dependências da morte. Nele se explica um pouco do modelo norteamericano agora reificado e midiatizado, a transformação de nossos heroísmos codificados em solução para as nossas mortes em massa. Apesar de querermos ser livres na sua presença oculta em nós, por temor e terror, somos seus melhores aliados quando se fala sobre e com as massas.

Se estivesse podendo convidá-la para assistir a uma boa reflexão sobre nossos modos biopolíticos de lidar com esse evento, a queda do World Trade Center, a convidaria para assistir o filme coletivo ''11'09''01". Esse precioso trabalho foi realizado pelos cineastas: Samira Makhamalbaf (Irã), Claude Lelouch (França), Youssef Chahine (Egito), Danis Tanovic (Bósnia), Idrissa Ouedraogo (Burkina Faso), Ken Loach (Reino Unido), Alejandro González Iñárritu (México), Amos Gitai (Israel), Mira Nair (Índia), Sean Penn (EUA) e Shohei Imamura (Japão).

Já citei a beleza e reverência, sem extensão, ao episódio construído pela direção de Samira Makhamalbaf. Eu a citei no meu texto em homenagem aos professores: Um pedaço de giz na lousa digital. O que esta cineasta iraniana nos traz é um pouco mais de reflexão, quiçá o melhor e mais ético episódio do filme, através de uma professora cheia de realismo.

Tudo começa em uma olaria, um local pobre, na fronteira do Irã, onde um homem morre ao cair em um poço. O importante, a seguir, é o que a professora faz para chamar a atenção das crianças que estão amassando barro. Ela vem distribuindo livros. Eles, então, se reunem em um espaço onde se sentam sobre o chão. O quadro negro é precário, e nele a professora representará do que ocorreu naquele dia 11 de setembro de 2011.

Essa professora de Samira interroga aos seus alunos, assim como aos espectadores, se sabem o que aconteceu de importante nessa data. Elas, respondem sobre a presença concreta de sua dignissima pessoa: a Dona Morte. Uma menina fala dos homens que cairam no poço em busca da água, quando um deles morreu, e outra da sua tia que foi morta apedrejada por talebans no Afeganistão. São todos alí um resultado das guerras e dos processos geopolíticos de migração após as mesmas.

A naturalização de sua presença, Dona Morte, faz com que essas crianças só conheçam um presente muito fugaz. Estão fazendo tijolos para se abrigarem de ''bombas'' que podem ter de enfrentar logo depois de suas aulas. Afinal lá também se temem homens-bombas e exércitos estrangeiros.

Dona M., se assim posso lhe chamar, ficam explicados pelo realismo de Samira a sua atividade criativa de Vida naquela aldeia miserável do Irã. Lá onde, até hoje, refugiados afegãos esperam uma espécie de ''solução final". Porém lá não há campos de extermínio eficazes como os nazi-fascistas. Lá só permanecem campos de exílio ou de refúgio.

A persistente e resiliente professora é um baluarte da compreensão que todos deveríamos ter. Ela instiga seus educandos, com os pés descalços, a responder o que aconteceu lá longe. Ela lhes conta das torres gêmeas. As crianças afegãs não conhecem torres imperiais. Ela lhes mostra então as chaminés, fumegantes, feitas de tijolo.

Se nos transportamos para este cenário, se nos sentarmos naquele chão batido e sofrido, talvez respondessemos como as crianças, de 5 para 6 anos. Diríamos que foi Deus que destruiu as torres. Porém uma das crianças retruca que não foi, pois 'Deus não destrói as coisas, mas apenas os homens', nós a parte carnal de sua criação. Teríamos, então, uma boa discussão politica e teológica, e, quem sabe, encontraríamos as respostas sobre o que os terroristas em aviões pensaram minutos antes de obrigarem dois aviões causarem aquela demolição do símbolo máximo dos EUA.

Creio como Becker que estes estavam imbuídos, no seus fanatismos, do contrário que as crianças refletem nesse lindo episódio fílmico. Eles, sob a alegação do extremismo ideológico, passam a se crerem também ''superiores'' àqueles que devem exterminar. Repetem como os criadores de câmaras de gás ou de cremação a mesma transformação em Vidas Nuas a existência de um Outro e suas diferenças a destruir.

Houve um outro 11 de setembro a para não apagar da História, lá no Chile também se praticou esse tipo de terrorismo e ideologia da superioridade. Lá o extermínio foi iniciado em campos de futebol.

Digo-lhe, então, que os Pinochets tornam-se muito próximos de nós, independente de sua nacionalidade, seja o recente terrorista Breivik (ing) ou de nosso exterminador da Escola de Realengo. Todos acreditam não ter medo da Senhora Dona Morte. Ao contrário, eram, são e serão seus adoradores, psicopaticamente, tendo-a como uma redenção de suas próprias vidas amargas.

Os extremistas, em seus narcisismos das pequenas diferenças negam as vias políticas para resolução dos messianismos ou dos fundamentalismos. Aproximam-se de mártires religiosos e crêem, piamente, em suas 'outras vidas'.

O que Samira Makhamalbaf faz com sua micropolítica representada por seus ''alunos'' afegãos é romper, silenciosamente, com esta visão. Ela aponta o medo que temos da Dona Morte e por isso precisamos, artesanalmente, de amassar o barro, endurecê-lo e com ele construirmos, juntos, um minuto, apenas um minuto de reverência a Morte do Outro, dos Outros, mesmo que nomeados "nossos inimigos". Não importa quantos quilômetros nos separem no mundo globalizado. Somos todos "vizinhos-próximos" da Senhora Dona Morte.

Por isso, Dona Morte, mesmo que, assombradamente me pertube, nos últimos dias, levando-me parte de meu coração, ainda quero me afastar das soluções geradas pelo ''terror'' de sua vinda e presença. Prefiro reler e revisar minhas leituras dos anos 70, como o livro de Becker, ou procurar uma resposta em afirmações de vida, sem as prerrogativas de encontrar meus entes queridos em "outra vida''. A vida feita em tijolos é ainda a realidade que gostaria de mudar.

Não creio, como solução, nas demolições de torres ou em campos de concentração, de extermínio ou Guantanamos da vida. Quanto mais deixarmos de temê-la e propagá-la como temor, Dona Morte, mais vidas lhe obrigaremos a não ceifar.

Aos que me deixam, quando a Senhora ganha terreno e nos obriga a reconhecer sua irreversibilidade, dedico hoje minha reverência pessoal. Dedico ainda a minha reverência, como Samira, aos que sobre-vivem indefesos para além de vidros blindados. Dedico minha total e silenciosa consternação aos que ainda estão morrendo por tentarem salvar das cinzas os que tombaram nas torres. E deixo para todos e todas o convite à reflexão, não distanciada, dos outros episódios dos diretores do filme "11'09''01".

Dona Morte há nesse filme, também, o que nos pode salvar. É o humor do diretor Idrissa Quedraogo, que nos traz também crianças como protagonistas principais. Eles são os meninos que crêem, à época, terem visto Osama Bin Laden, e partem para a sua captura, pois, afinal, sua cabeça custava mais de $25 milhões de dólares. E, nós, os que vivem abaixo do Equador, principalmente em Burkina Fasso, sonhamos em sair da miséria, comer bem, vestir um sapato e até andar de ''cadilacs''...

Portanto caríssima senhora, envio mais esta missiva, em tempos de criação de anti-heróis na vida prática, com a permanência de busca de heróis que possam morrer de overdose, para que a distinta possa nos assolar menos, dando-nos um tempinho para tomar fôlego para aprendermos a reconstruir nossas metas e criarmos nossas novas cartografias e ecosofias aliadas. Em tempos de GPS e localização imediata de onde estamos geograficamente, ainda não respondemos a algumas perguntas:

"Na misteriosa rota em que a vida nos é concedida na evolução deste planeta, isso nos empurra na direção de nossa própria expansão. Não o compreendemos simplesmente por não conhecermos a finalidade da criação; somente sentimos a vida latejando em nós e vencemos os outros enquanto se entredevoram. A vida tenta propagar-se em uma direção desconhecida por motivos desconhecidos..." (Ernest Becker)

Texto em homenagem póstuma a um ''índio'' da floresta amazônica que amava a floresta da Tijuca e o Rio de Janeiro... e lá se despediu em
busca de seu abraço, apenas por amor...

copyright jorgemarciopereiradeandrade 2011-2012 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)

FILME - ''11'09'01'' - França - 2002 -
 http://cinema.terra.com.br/ficha-filme/0,,OI678-EI1176,00+11+de+Setembro.html
VIDEO NO YOUTUBE http://www.youtube.com/watch?v=7vrSq4cievs

Referências no texto: A NEGAÇÃO DA MORTE - Ernest Becker - Editora Círculo do Livro, São Paulo, SP, 1977.

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UM PEDAÇO DE GIZ NA LOUSA DIGITAL -
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