quarta-feira, 27 de julho de 2011

A TOLERÂNCIA É MAIS QUE UM BACALHAU NO MEU FEIJÃO COM ARROZ ? em busca da Empatia , para além da Antipatia...


Imagem publicada - a capa de um dvd do filme: "Arn,o Cavaleiro Templário", com o ator empunhando um espada, vestindo uma armadura e vestes brancas, manchadas de sangue, com o símbolo da Cruz que os cavaleiros templários ostentavam e defendiam nas Cruzadas. Este filme me retornou à mente após o atentado da Noruega, pois se trata de um conto de poder, coragem e traição, ambientado na Suécia, conta a inesquecível história de amor de Arn Magnussson, jovem culto e exímio esgrimista, e Cecilia, separados pela guerra entre cristãos e muçulmanos, quando ele é enviado como cavaleiro templário para a Terra Santa. A capa traz escrito: "a missão de um heróico cavaleiro nas sangrentas cruzadas", que justificaram, e ainda justificam, as ações de invasão, guerra e destruição dos que foram os primeiros acusados do que ocorreu em Oslo e na Ilha Utoeya. É a mesma cruz dos cavaleiros estampada no texto que o assassino e terrorista norueguês colocou na capa de seu Manifesto da Internet.(An European Declaration of Independence - 2083" Uma declaração de Independência Europeia - 2083)...

...em busca da Empatia , para além da Antipatia...

Eu confesso, não como bacalhau. Isso mesmo não posso nem com o seu cheiro à mesa, principalmente quando rodeado de boas batatas e muitos outros legumes, inclusive com meu idolatrado azeite extra virgem. Mas uma coisa é não gostar do bacalhau da Noruega. A outra é tornar todos os ''noruegueses, portugueses, espanhóis ou europeus'' que gostam deste prato em suas mesas, em motivo de repulsa, ódio, nojo, desgosto ou ''alguma coisa que não consigo engolir...''. Não podemos tornar nossos pratos, culturalmente identificatórios, em motivo para alimentar nossos fanatismos ou narcisismos de pequenas diferenças. Há muitos que não comem feijoada, principalmente, nesse momento, na Somália. 

O viking templário nos trouxe volta para a questão da tolerância. E fui buscar meus pensamentos sobre o tema. Descobri que já apresentei um texto de antevisão sobre estes seres humanos que confundem suas visões fascistas com a forma que cada um vê, experimenta e usufrui da Vida. Meu texto escrito para uma conferência em julho de 2006 já me colocava uma interrogação: Telepatia, Empatia ou Antipatia: por onde caminhamos nas trilhas da Diferença? Já o reproduzi, em parte, no meu texto A Máquina da Empatia.

Apresentei-o no XV Congresso de Leitura do Brasil. Na ocasião se discutia a temática deste importante evento. Era um "encontro que se propunha pensar as “crianças mudas telepáticas” em nós e para além das hecatombes e violências do cotidiano precisamos buscar um ‘metadiálogo’, ou seja uma conversa acerca deste problemático caminhar nas trilhas da diferença em um tempo de homogeneização e de produção serializada de subjetividades. 

Nossas trilhas das Antipatias se acentuaram, agora gritam para além das paredes de uma Escola em Realengo, escapando dos seus muros, agora sob vigilância, embora no esquecimento público. No texto de 2006 eu já afirmava: ... [naquele] Congresso que aponta(va) para as Crianças Mudas Telepáticas é (era) o desejo de uma maior implicação com a transformação da irredutibilidade dos processos de exclusão, assim colocados quando naturalizados, bem como dos processos de inclusão que podem nos fazer crer, a ferro e a fogo, que o melhor para os diferentes é torná-los ‘normais’...

Era e é um ato de fragmentação ou de glorificação de identidades, que o recente atentado da Noruega nos reapresentou. Hoje, reassistimos, telepaticamente, a busca da homegeneização e a negação das diferenças culturais. Tudo em nome de uma suposta diversidade cultural euro e egocêntrica de apenas um homem: Anders Behring Breivik. Ele me provoca novamente: por onde caminhamos nas trilhas da Diferença?

Trabalhei, agora repenso, com essas 3 palavras ao léu, três movimentos, três ações que podemos realizar no tabuleiro do xadrez das relações humanas. E, neste sentido, os desejos da distância (tele), do dentro e do mesmo (empático) ou de uma maior exclusão (antipática,) nesta época do apagamento das distâncias geográficas, poderão nos conduzir a uma falsa empatia, encobridora da antipatia e da xenofobia que estes Outros diferentes, próximos distantes nos causam..., com os quais só teríamos futuros contatos virtuais e telepáticos? 

O jovem cristão norueguês, lamentavelmente, confirmou meus temores e angústias diante dos olhares e ideologias de exclusão que já se alimentavam, como o Ovo da Serpente, há muito tempo.

A tolerância vem se tornando cada dia mais uma resultante, ou melhor, uma atitude reativa à intolerância, principalmente a que nos é provocada pela violência, pelos movimentos xenofóbicos, homofóbicos, pelo racismo, pela discriminação de pessoas com deficiência, pela segregação de pessoas com transtornos mentais, enfim, todos os movimentos que alicerçam as desigualdades sociais e promovem a Exclusão. 


Os nossos ''políticos'' de ''direita'' andam fazendo sua parte nessa Terra Brasilis, onde, na cabeça e no bolso nada rico de inclusão, conhecimentos e afetos, alimentamos nossas pequenas e latinas intolerâncias.

Mas como combater todos estes “males ou defeitos” se estão enraizados em nossas mentes e corações como preconceitos permanentes contra toda forma de alteridade ou diferença? O Outro é sempre um alienígena que virá nos destruir ou tomar a nossa querida e preciosa Terra. 

Continuamos, eurocentricamente bem educados, angustiados com a ''invasão'' de nossos pequenos territórios, nossas pequenas ''propriedades'', nossos castelos narcisistas, onde o ideal é erradicar os que denominaremos como o ''mal'' ou como uma ''anormalidade ou disfunção''.

O Outro sempre visto como o ‘mal’, tornou-se radicalmente uma invenção maléfica, como o disse Frederick Jameson: “o mal é caracterizado por qualquer coisa que seja radicalmente diferente de mim, qualquer coisa que, em virtude precisamente dessa diferença, pareça constituir uma ameaça real e urgente a minha própria existência....” , assim sendo podemos localizar os “bárbaros” fora de nossa sacrossanta e pura imagem de nós mesmos. Nascem as 'guerras santas'...

Os que não são idênticos a mim, pertençam a minha gang, classe, etnia ou utopia devem ser excluídos. E, afinal ‘malvados’ sempre serão os outros, que podem ser tanto um índio, um negro, um morador de rua, um doente mental, um favelado, um deficiente intelectual ou alguém que é estranho ou fala uma outra língua,ou come pratos considerados exóticos para minha outra língua...

O manifesto do jovem cavaleiro templário norueguês, com sua cruz na capa de seu manifesto pré-terror, nos recoloca, na Idade Mídia, dentro da cultura do Medo. Ele ataca sua própria gente e ''raça Viking''. No seu radicalismo eugênico e racista busca eliminar com uma bomba, simbolicamente o Estado multicultural e progressista.

Ele, fantasiado de policial ou guerreiro, é o mesmo que explode balas especiais nos corpos jovens de um Partido Trabalhista. Planejada e meticulosamente construiu o "mal" a ser exterminado. Projetou-o nos jovens da ilha, o mesmo que, textualmente, havia projetado nos estrangeiros, inclusive nós brasileiros. Os colonizados ou os ''infiéis' podem contaminar sua terra, seu povo, seu país e toda a Europa. 

Por aqui, na Terra Brasilis, os extermínios também podem estar usando fardas ou uniformes. Não somo menos violentos e mortais do que os países que preferem o bacalhau à feijoada oriunda de senzalas. Temos, temporariamente, um momento de empatia com os que são violentados ou morrem nessas espetaculares ações de terror. Mas depois nos esquecemos da Chacina da Candelária, de Realengo, da Zona Leste, do Jardim Ângela e outros espaços de marginalização, miséria ou desfiliação social.

O sofrimento momentâneo com o ''mal'' pode, por efeito anestésico e midiático, tornar-se uma naturalização. Aceitamos e nos ressignamos, apoiados em ideologias ou religiões, a presença de novas Cruzadas, batalhões de choque ou choques de ordem. A presença de uma dimensão macropolítica nos atos de fanatismos são banalizadas. E, saímos, à caça de explicações de especialistas sobre o desenvolvimento de novos/arcaicos fanatismos.

As xenofobias, as homofobias, os racismos, as intolerâncias, os sexismos, as discriminações ou segregações se alimentam do mesmo prato. Não é o bacalhau ou a feijoada. Estas se alimentam de ideologias duras que impedem o livre pensar, a crítica, a estética, e, finalmente a ética. É quando a não reflexão sobre nossas novas 'barbáries', imersos numa sociedade hipercapitalista, perversa e histérica, nos abre nos inconscientes, individual e coletivamente, as brechas para as paranóias fascistantes. Thanatós não pode ocupar todo o campo social ou vital de cada um e de todos nós.

A Tolerância que tem até um dia mundial, em 16 de novembro, bem perto do dia de Zumbi e da Consciência Negra, não é, portanto, um bacalhau a ser engolido, antipaticamente, com o meu/seu, aparentemente ''pobre e indigesto'', feijão com arroz de um país miscigenado, que nega sua cor de feijão preto. 

A "mardita tolerância", por ser uma criação humana para a convivência de diferenças, ao ser educacionalmente discutida nos faz, por exemplo, entender que há muitos pratos vazios, como os de outros negros, haitianos ou africanos, que produzem tantas mortes em série ou de massa quanto um massacre em um país considerado nórdico e civilizado. 

Eis algo que poderia nos gerar alguma forma empatia e, quem sabe, um aprendizado da árdua, quase impossível, harmonia nas diferenças... Eu, você, seu vizinho, o que vem de fora, os estrangeiros, os Outros, e, principalmente, os diferentes, poderemos tentar respeitar e re-conhecer outras formas de se alimentar ou viver. 

Isso, para além das antipatias, pode ser realizado, desde que a dignidade e autonomia de escolha superem todas as homogeneizações, todas as cristalizações fascistantes, todas as nossas negações do que há de político em qualquer forma de atentado à Vida...


copyright jorgemarciopereiradeandrade 2011/2012 (favor citar o autor e fontes em republicações livre na Internet ou outros meios de comunicação de massa)

Indicações para reflexão:
Em manifesto, atirador norueguês diz que Brasil é um país "disfuncional"
http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/internacional/2011/07/25/em-manifesto-atirador-noruegues-diz-que-mistura-de-racas-fez-do-brasil-um-pais-disfuncional.jhtm

Atentado na Noruega -Textos publicados na internet planejavam a "queda de Oslo"- http://www.ionline.pt/conteudo/139545-textos-publicados-na-internet-planeavam-queda-oslo

Noruega - http://pt.wikipedia.org/wiki/Noruega
Tolerância - http://pt.wikipedia.org/wiki/Toler%C3%A2ncia

Filme: Arn, o Cavaleiro Templário - http://pt.wikipedia.org/wiki/Arn:_The_Knight_Templar

LEIA TAMBÉM NO BLOG:
A MÁQUINA DA EMPATIA - incluindo a reinvenção do Outro
https://infoativodefnet.blogspot.com/2010/12/maquina-da-empatia-incluindo-reinvencao.html

A MORTE DO FANÁTICO NÃO MATOU O FANATISMO http://isnfoativodefnet.blogspot.com/2011/04/morte-do-fanatico-nao-matou-o-fanatismo.html

DEMOLINDO PRECONCEITOS, RE-CONHECENDO A INTOLERÂNCIA E A DESINFORMAÇÃO 
https://infoativodefnet.blogspot.com/2011/06/demolindo-preconceitos-re-conhecendo.html

ADEUS ÁS ARMAS: SEM TIROS NO FUTURO OU CEM TIROS? 
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/05/adeus-as-armas-sem-tiros-no-futuro-ou.html

4 comentários:

  1. Cara Rita
    obrigado e se puder difunda o texto para seus amigos e amigas, precisamos ampliar a reflexão crítica sobre estes novos serial killers fanáticos e em produção serializada... um abraço

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  2. Caro Jorge,
    ótima reflexão sobre este atentado na Noruega, que realmente nos diz muito sobre intolerância e preconceito. Longe geograficamente de nós, mas infelizmente próximo ao ilustrar comportamentos agressivos e contrários às diferenças humanas, como também temos por aqui.
    Só discordamos quanto ao bacalhau, que eu adoro.
    Grande abraço,
    Vinicius.

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  3. Caro e sempre presente Vinicius
    Como você pode ver e ler os "três temas" também andaram rondando a minha mente, e telepaticamente nos mantemos em alerta contra todos os estigmas, discriminações e segregações...A in-tolerância está cada dia mais presente no nosso Brasil, apesar de todos os avanços em Direitos Humanos e afirmação das diferenças, pois onde ainda há o trabalho escravo, milhões de miseráveis, desfiliação social e outras exclusões temos terreno político (e econômico) fértil para a proliferação de ideologias fundamentalistas e fanatismos, e as vidas passam a ser matáveis ou descartáveis... como os mendigos ou índios que podem ser incendiados... Vidas Nuas...Obrigado e vamos continuar resistindo às nossas limitações físicas mantendo acesas nossas consciências críticas, alimentadas pelo fogo do desejo de um Outro Mundo Possível... com bacalhau e feijoada acessíveis para todos e todas a bel prazer, cada um com seu gosto e até mesmo sua Utopia ou Sonho... doceabraço com muito arroz doce que eu adoro
    jorge marcio

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