domingo, 31 de janeiro de 2010

AS MASSAS E OS SOBREVIVENTES - Terra Trêmula


imagem publicada - homens e crianças haitianos gritam e se empurram durante distribuição em massa de alimentos, em cima da carroceria de um caminhão. (Reuters).

"O corpo humano apresenta-se nu e frágil, exposto a todo e qualquer ataque. O que lhe está próximo e que, com arte e esforço o homem logra manter afastado de seu corpo pode no entanto atingi lo de longe ...Assim, o homem inventou o escudo e armadura, e construiu muros e fortalezas inteiras em torno de si. Mas a segurança que ele mais deseja é o sentimento de invulnerabilidade." Elias Canetti - Massa e Poder (pág. 228-229)

Retomei a leitura de Canetti estes dias pela visão das massas famélicas do Haiti. As imagens de pessoas disputando com vigor e agressividade os sacos de comida despejados dos caminhões, e os soldados tentando conter estes esfomeados e sedentos me tem afetado nos últimos dias. Canetti ao reforçar nossa fragilidade corporal coincide com um outro pensador que também reflete sobre a mesma: Giorgio Agamben, que também revisitei nestes dias. Ambos me trazem a questão dos que sobrevivem em situações limites, e em especial a forma como tele-reagimos diante das mortes coletivas.

Em Massa e Poder encontro os referenciais para compreender porque há até uma ética de sobrevivência dos homens e mulheres do Haiti. Muito embora possam parecer até com um 'bando' primitivo e ameaçador pelas imagens televisivas e sua exploração midiática. Aparecem, então, estas hordas de negros famintos saqueando ou buscando alimentos, pedaços de pano, objetos ou àgua. Eles podem ser chamados de 'ladrões"? se adotarmos a leitura criteriosa de Canetti entenderemos que essas massas estão compostas de indivíduos que sobreviveram entre amontoados de mortos, e, em seus âmagos, confusamente, 'a morte foi desviada para os outros'.

A morte provocada pela Terra Trêmula nos reativou um medo líquido que vem nos atormentando: não é mais distante de cada um o risco de alguma coisa mortífera nos surpreender. Seja um furacão, um tornado, uma inundação, um atentado, uma explosão, um estouro de boiada da Natureza, como nos filmes de aventura e de ficção científica.

 Tentamos afastar esse temor de nossas mentes e inconscientes, porém ele está lá,ele está mais perto e nossas defesas, agora fragilizadas pelo 'reality show' dos tsunamis, nos faz crer e temer que " a casca da civilização sobre a qual caminhamos é sempre da espessura de uma hóstia. Um tremor e você fracassou, lutando por sua vida como um cão selvagem..." (Thimothy Garton Ash)

Os que sobrevivem aos anunciados e provocados movimentos catastróficos da Terra se sentem como? Somos os atuais sobreviventes? ao que estamos sobrevivendo? estas perguntas são hoje, a meu ver indispensáveis para uma firme e bioética reflexão sobre ao processo de vulneração a que estamos, seres humanos, sendo submetidos. 
momento biopolítico e anatomopolítico, que as catástrofes e desastres naturais propiciam, têm gerado um campo fértil para o exercício destas práticas de controle de populações. Se pudermos nos colocar no campo da resistência à disciplinarização e controle dos nossos corpos nus e frágeis, talvez possamos ainda garantir que não sejam tomados apenas como Vida Nua (Agamben), pois que o campo que nos é reservado, após o cataclisma, é o dos 'sobreviventes e refugiados'.

Em uma terra que faz homens, mulheres e crianças continuarem a gostar de 'biscoitos de barro', para afastar o fantasma cruento da fome, o que se produz como Massa? Estes negros e negras saídos dos escombros, continuam vivendo perto do limite da sobrevivência, sem morfina para a dor da amputação, sem abrigo, sem água potável. Estamos tele-assistindo a criação do modelo hobbesiano de uma guerra de todos contra todos. É a hora da volta da barbárie? 

A nossa civilização escorre pelos bueiros quando a correnteza de uma massa com fome surgir e nos arrastar. Por estar, então, diante dessa fragilidade, que não é do nosso corpo apenas, mas também do corpo civilizado e social, é que temos de reconhecer, sem nossos escudos ou fortalezas da distância e da neutralidade, a nossa vulnerabilidade.

É hora de se fazer escolhas e de buscar uma afirmação da urgência de não rompermos a casca de ovo da serpente, que sempre foi a opção pelos micro-fascismos. A busca de ordem e de filas pode ser um dos modelos para 'salvar' os sobreviventes, muito embora dentro de cada um deles permaneçam os princípios da massa... A massa que quer sempre crescer, sem limites e sem rumo.

As massas de sobreviventes talvez pudessem ser menos tristes, pois a melancolia é o que sedimentava nos campos de concentração a criação da figura dos ''MULÇUMANOS", que eram os prisioneiros judeus que "havia(m) abandonado qualquer esperança...", tornando-se cadáveres ambulantes, como Zombies possuídos por um Vudu nazi-fascista. 

Bastaria, ao mundo dito civilizado, ter visitado a favela Cité Soleil antes do terremoto levando mais água, menos violência institucionalizada, mais educação e comida, menos desprezo e negação da miséria, e, indispensavelmente, dignidade. Continuo bradando: VIVA O HAITI VIVO, para além da simples sobrevivência.

copyright jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o auto e as fontes para livre difusão e multiplicação deste texto por quaisquer meios)

FONTES
MASSA E PODER - Elias Canetti, Companhia das Letras
http://www.livrariaresposta.com.br/v2/produto.php?id=2424

O QUE RESTA DE AUSCHWITZ - Giorgi Agamben, Boitempo Editorial - http://www.boitempo.com/livro_completo.php?isbn=978-85-7559-120-8

Notícias do Haiti:

ONU pede cancelamento da dívida externa do Haiti
http://br.noticias.yahoo.com/s/reuters/100129/mundo/mundo_haiti_onu_moratoria

Polícia denuncia estupro de mulheres e crianças - no Haiti
EUA ampliam esforços contra o Tráfico de Crianças
http://br.noticias.yahoo.com/s/29012010/25/mundo-eua-ampliam-esforcos-trafico-criancas.html

LEIAM TAMBÉM NO BLOG -
OS DESASTRES, OS HAITIS E AS SERRAS NO HIPERCAPITALISMO - http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/01/os-desastres-os-haitis-e-as-serras-no.html

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

O APRENDIZADO DO DESASTRE - O hai di ti é em qualquer lugar,,,


Imagem publicada: Uma da série de fotos tiradas por soldados americanos de prisioneiros do Iraque em Abu Ghraib. O prisioneiro com capuz (Satar Jabar) teve as duas mãos e o pênis amarrados com arame, e seria, segundo notícias, eletrocutado se ele caísse da caixa sobre a qual estava de pé. No momento em que esta foto veio a público, oficiais americanos declararam que o arame não estaria eletrificado. Isto foi negado depois pela pessoa da foto que declarou em uma entrevista que o arame estava eletrificado e estava "acostumado" a levar choques, para não perder todos os equilíbrios. A naturalização e a exibição das imagens pelos soldados tem uma finalidade de desmoralização de suas vítimas, assim como um alerta para todos os que se opuserem às suas técnicas de dominação, sejam políticas, econômicas ou mesmo as militares...


"...Mas países estilhaçados são atraentes para o Banco Mundial também por outra razão: eles acatam as ordens docilmente. Após um evento cataclísmico, os governos habitualmente fazem seja o que for para obter ajuda em dólares — mesmo se isso significa assumir dívidas enormes e concordar com políticas de reformas arrasadoras. E com a população local a lutar para obter abrigo e comida, a organização política contra a privatização pode parecer um luxo inimaginável". ( Naomi Klein - A Ascensão do Capitalismo do Desastre - 2005 )

A afirmação acima é feita por Naomi Klein, uma jornalista canadense, uma mulher inquieta e lúcida que traz, há anos, um pouco de luz às trevas ocultas sob as entranhas do Hipercapitalismo. Ela é autora de um livro de 592 páginas, que desnudam a face obscura de ações de guerras e de intervenções militaristas, em especial dos EUA, em países considerados "com soberania limitada". O Afeganistão, o Timor Leste, e, para um refresco de memória, o devastado HAITI, foram e são exemplos notórios.

Em seu texto a autora, em 2005, já denunciava: "O mesmo se passou no Haiti, a seguir à derrubada do presidente Jean-Bertrand Aristide. Em troca de um empréstimo de US$ 61 milhões, o banco está exigindo "parceria público-privado e governabilidade nos setores da educação e da educação", segundo os documentos do Banco (Mundial - World Bank) — ou seja, companhias privadas passam a administrar as escolas e os hospitais. 

Roger Noriega, ao secretário de Estado Assistente dos EUA para os Negócios do Hemisfério Ocidental, deixou claro que o governo Bush compartilha esses objetivos: "Também encorajaremos que o governo do Haiti avance, no momento apropriado, com a restruturação e a privatização de algumas empresas públicas", disse ele ao American Enterprise Institute em 14 de Abril de 2004".

Mais um desastre se tornou espaço de intervenção globalizada. Mais um povo deverá, no futuro, pagar as contas de todos os 'investimentos' e, quiçá, as ' doações' generosas e indispensáveis para a reconstrução da velha terra queimada, que para esta jornalista é, portanto, uma excelente oportunidade para a aplicação de " A Doutrina do Choque ". Este seu livro tem um sugestivo subtítulo, que utilizo com outras possibilidades: " A Ascensão do Capitalismo do Desastre", já traduzido e nas livrarias brasileiras.


Tomei contato com a pesquisa e idéias dela, que não são infundadas ou mero panfleto anticapitalista, em um vídeo do YouTube onde a aplicação de eletrochoques(ECT), são historicamente lembrados da psiquiatria, de Cerletti e Bini, aos dias de hoje, e são a base sobre a qual, segundo Klein, a CIA elaborou uma teoria sobre o seu uso e aplicação no campo macropolítico. Veja o video em: http://www.youtube.com/watch?v=jKU3jm4sjZE . No Iraque esta 'teoria' foi aplicada em Abu Ghraib.

Transcrevo um trecho do livro que por si só deixará para nós uma reflexão sobre as vítimas do terremoto no Haiti, ou melhor o que será feito desse país devastado e re-colonizado, pois o fura Katrina afetou especialmente um povo negro: "Tragédia em Nova Orleans, 2005. Enquanto o mundo assiste ao flagelo dos moradores com as inundações causadas por tempestades que estouraram os diques da cidade, o economista Milton Friedman apresenta no jornal The Wall Street Journal uma idéia radical. 

Aos 93 anos de idade e com a saúde debilitada, o papa da economia liberal das últimas cinco décadas vislumbrava, naquele desastre, uma oportunidade de ouro para o capitalismo: “A maior parte das escolas de Nova Orleans está em ruínas”, observou. “É uma oportunidade para reformar radicalmente o sistema educacional”

Para Friedman, melhor do que gastar uma parte dos bilhões de dólares do dinheiro da reconstrução refazendo e melhorando o sistema escolar público, o governo deveria fornecer vouchers para as famílias, que poderia gastá-los nas instituições privadas. Estas teriam subsídio estatal. A privatização proposta seria não uma solução emergencial, mas uma reforma permanente. A idéia deu certo. Enquanto o conserto dos diques e a reparação da rede elétrica seguiam a passos lentos, o leilão do sistema educacional se tornava realidade em tempo recorde".


Nossos pequenos desastres, nossas vítimas mais próximas nos aproximam dos mais de 200 mil mortos no Haiti. A nossa compreensão do desastre do Outro deveria passar pela visão bioética de pertencimento à mesma Terra. Mas, lentamente, no nosso modo hipermidiático de ser, vamos retirando das manchetes o Haiti e seu povo. Lentamente, esqueceremos ou não. Se a terra aqui não fosse tão pluvial e tropical, se a terra tivesse cobrido, não uma pousada a beira mar e casas humildes, mas invadisse a Usina em Angra, talvez agora estivéssemos agradecendo a chegada de mais uma leva de Marines... Dizem por aí que God is a Brazilian?...

Mas ainda há, espero, as revoluções moleculares e a resistência aos neo-colonialismos, mesmo os travestidos de humanismo e de generosidade dos mais 'desenvolvidos', e os soterrados e sob controle nos campos de refugiados sobreviventes de Vida Nua ressurgirão dos destroços para assustar e expulsar os neo-invasores de seus territórios. VIVA O HAITI VIVO E LIVRE...

Lá estará, mundialmente, por enquanto, um privilegiado espaço para uma 'extreme makeover", como o programa da ABC, onde 'voluntários' passam por cirurgias e reformas radicais de seus corpos, que modificam plasticamente esses sujeitos e depois os devolvem para uma família, amigos e telespectadores maravilhados com a mudança de seu visual fashion... Aparentemente é tudo de graça, é tudo free..., com as melhores das boas intenções.

Portanto, 'hai di ti' que crê estar em um mundo longe desta possível aplicação de uma reforma radical, por interesses macropolíticos e econômicos, se o seu córrego ou riachinho virar uma inundação... E conheceremos a 'parte social do Capitalismo' tão cara ao encontro de Davos.

Não ficamos chocados com as imagens do Haiti? Qual será nosso aprendizado? Esperamos outros ''choques''?


FONTES =
 A DOUTRINA DO CHOQUE -  A Ascenção doCapitalismo de Desastre - Naomi Klein, Nova Fronteira, 2006, Rio de Janeiro, RJ.







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OS DESASTRES, OS HAITIS E AS SERRAS NO HIPERCAPITALISMO - http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/01/os-desastres-os-haitis-e-as-serras-no.html 

domingo, 17 de janeiro de 2010

O HAITI NÃO ERA AQUI - A TERRA QUEIMADA


Imagem publicada: foto de uma mulher negra, coberta de uma fuligem cinza, que se confunde com seus cabelos embranquecidos, emergindo entre os destroços e desmoronamentos provocados pelo terremoto que varreu a capital do Haiti, Porto Príncipe.

Em 1969 o cineasta italiano Gillo Pontecorvo realizou o lançamento do filme QUEIMADA (Burn!), que foi rodado na Colômbia.

 Lembro-me desse filme visto nos anos de chumbo, no período Médici. O filme foi censurado e retirado de cartaz por sua crítica política, pois sua base ficcional ocorre em uma ilha do Caribe. Uma ilha colonizada por 'portugueses', com maioria populacional de escravos negros, produtora do ouro branco da época: o açúcar. Este filme seria uma boa maneira de conhecer um pouco do que ocorreu com a colonização e os colonizados nas ilhas do Caribe. Teremos, talvez, a compreensão do que foi o primeiro "terremoto social e político" da terra haitiana.

Este filme tem Marlon Brando no papel de um agente inglês de nome Walker, ele vem à ilha para, primeiramente, insuflar um processo de rebelião dos escravos negros. Ele teria a função de oferecer apoio britânico à massa de trabalhadores escravizados pelos colonizadores, que seriam fora das telas os espanhóis, mas no filme, por questões políticas, são os nossos colonizadores: os portugueses.

Mantenho na memória a imagem do ar de arrogância britânica e colonialista que Marlon Brando empresta ao seu personagem. Era a imagem de um 'suposto salvador' dos miseráveis e incultos escravos daquela ilha açucareira. Na primeira parte do filme ele conquista a confiança de um escravo destemido, Jose Dolores,nome nada português, interpretado por um ator negro não-profissional: Evaristo Marquéz. Marcou-me na época em que assisti o filme a cena que viria próximo do fim do filme: a terra arrasada pelo fogo. A queimada foi a solução para caçar os insurgentes.

O mesmo agente inglês, Walker, teria retornado à ilha para combater os revolucionários. O napalm(1) da época, a queimada, foi utilizado para derrotar e depor quem ele ajudara a combater: os 'colonialistas' portugueses... A ironia feita pelo diretor do filme vem com a indagação de que ética pautaria o personagem de Brando, que de acordo com o momento político-econômico faria dele também um colonialista disfarçado, como alguém que entedia a escravidão como mero comércio e negócio lucrativo, hipocritamente hipercapitalista.

Hoje assistimos e revisitamos a ilha imaginária de Pontecovo. Estamos abalados pelo terromoto e não pelo fogo no Haiti. Aquela ilha sem fantasia, coberta de negrume e de miséria, foi arrasada, mais uma vez, só que agora por forças 'naturais'. E penso se a queimada dos canaviais do período colonialista, retratados politicamente no cinema, não foi prenúncio do que aconteceria com os primeiros negros que se rebelaram, os primeiros que romperam os grilhões torturantes do trabalho escravo nas Américas.

Em um primeiro tempo histórico ficaram cobertos de fuligem e cinzas, hoje experimentam novamente o cinza dos escombros e das tristes imagens de sua terra que treme... Continuam escravos? não sei, mas com certeza continuam sobre o efeito dos "tonton macoutes", os bicho-papões, uma escolta de torturadores que protegia seu ditador: Papa Doc, que hoje se reproduzem em milícias paramilitares que devem estar administrando a nova miséria.


Esta ilha devastada, não somente pela miséria, pelo analfabetismo, pela fome, foi esquecida por longo tempo. Não mais se produzia ouro branco por lá, só foi rememorada pelas recentes e novas rebeliões.

Novamente a ex-colônia precisava de uso da força, mesmo para impor a 'paz', com uma intervenção dos capacetes azuis (Onu) em 2004, capitaneada pelo Brasil. A ilha e seu povo, nesse momento, e quem sabe até agora, era uma ameaça para a paz internacional e a segurança da região. Era a hora de chamar novamente o agente Walker...


Algum tempo atrás vi alguns cartazes na rua que protestavam contra a permanência militar do Brasil no Haiti. Ocorriam concomitantemente à revelação de um suicídio de um militar brasileiro na ilha, o general que comandava a MINUSTAH (Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti).

Hoje assistimos as famílias de militares brasileiros pranteando jovens que foram soterrados com o uniforme de nosso país. A ilha e sua terra queimada continua tendo suas vítimas de outros países. E ainda tremendo ela poderá continuar sendo objeto de intervenção internacional, só que agora com novo objetivo: a solidariedade humanitária.

Estou entre contente, pensativo e preocupado com a ajuda que dizem ser de milhões de dólares, inclusive do Brasil, para o povo haitiano. Será que agora teremos a possibilidade deste povo e país se tornar realmente livre?

A imprescindível mulher e médica, Zilda Arns, acreditava que sim, mas com um trabalho micropolítico e árduo de revolucionar as condições de saúde materno-infantil, alimentação e de educação básica da população mais pobre do Haiti. Ela tentava capacitar outros que acreditavam como ela na sua Pastoral. Ela estava lá para agenciar outros tipos de agentes, não os que abandonam os revolucionários e negam a revolução molecular quando ela se torna macropoliticamente inoportuna.

Se fizessemos um remake do filme Queimada a Doutora Zilda não poderia interpretar o papel de Marlon Brando, estaria mais próxima do homem negro escravizado e desejante de liberdade e justiça social.

Enfim, como já difundi em sua memória, e também em homenagem a todos os que estão sofrendo, ou sofreram como os brasileiros por lá soterrados e mortos, teríamos de lembrar que: CADA UM PODE SER MAIS UM, SE CADA UM FOR MAIS UM NA BUSCA DE UM MUNDO DE MUITOS QUE OLHAREM PARA UM SÓ MUNDO DE TODOS… O HAITI NÃO É LÁ, JÁ FOI, É, E PODE SER AQUI…

O hino nacional do Haiti, La Dessalinienne, nos diz: "...pour la patrie Mourir, mourir, mourir est beau Pour le drapeau, pour la patrie", ou seja: "Pela Pátria morrer, morrer, morrer é belo Pela bandeira, pela pátria", mas são os nacionalismos extremados, associados aos desejos fascistantes de massas, que geram os piores fascismos.

Há, nos tempos atuais, uma retomada silenciosa de microfascismos e de atitudes conservadoras em nosso cenário macrossocial. Vejamos as resistências, de alguns setores governamentais e do mundo empresarial, que um Plano Nacional de Direitos Humanos está gerando em nosso país.

Não devemos esquecer que a morte de qualquer ser vivo não deve ser justificada ou naturalizada..., e seja em Porto Príncipe ou nos mais longíguos e remotos locais deste planeta, com dizia John Donne( 1572/1631): a morte de um ser humano me interessa e me afeta, "porque sou parte (indivisível) da humanidade, portanto, não me perguntem por quem os sinos dobram... eles dobram por ti...".

Os negros e negras haitianos são, historicamente, tão pardos como a noite global (2) gostaria que fôssem, mas seus olhos tristes de hoje são tão produtores de uma paixão humanitária que, esperançoso, desejo que, sensibilizados, possamos resgatar sua dignidade e porvir.

O Haiti como uma fênix negra pode e deve renascer de suas próprias cinzas libertárias e antiescravagistas. Liberté!, mesmo que tardia, seria uma palavra indispensável junto com a frase inscrita na bandeira haitiana: "L'union fait la force" ("A união faz a força") se reconhecermos o direito à Vida desses outros que durante tanto tempo submetemos à força e/ou à alienação do esquecimento. A Terra, depois de queimada, ainda precisa tremer para que lembremos dela?

copyright jorgemarciopereiradeandrade

(1) Napalm - bomba incendiária, à base de gasolina gelificada, utilizada pelos EUA na guerra do Vietnã





2) VER MATÉRIA SOBRE FRANTZ FANON neste blog - http://infoativodefnet.blogspot.com/search/label/Frantz%20Fanon

LEIA TAMBÉM SOBRE O HAITI  NO BLOG - 
OS DESATRES, OS HAITIS E AS SERRAS NO HIPERCAPITALISMOhttp://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/01/os-desastres-os-haitis-e-as-serras-no.html

O APRENDIZADO DO DESASTRE - O Hai de Ti é em qualquer lugar (é Aqui) 
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/01/o-aprendizado-do-desastre-o-hai-di-ti-e.html

domingo, 10 de janeiro de 2010

VOCÊ É O QUE COME? ou SÓ COMEMOS O QUE DIZEM QUE SOMOS?


imagem publicada - uma das páginas abertas de um dos livros de Charles Elmé Francatelli(1805-1876), com as ilustrações de época de alimentos, com uma torta que é feita a partir de peixes, tendo um cabeça de peixe à esquerda, como uma parte que não é utilizada para a preparação deste prato, do livro The Cooks Guide, um 'guia para cozinheiros' de 1861.

InfoAtivo.Defnet Nº 4326 - Ano 14 - 10 de janeiro de 2010.

Diz um ditado popular que podemos conhecer as pessoas a partir do que elas comem. Parece que esta vox populi tem um gênese histórica nos tempos vitorianos, nesse período as pessoas eram destinadas a serem o que a elas era permitido comer. Por estar com a necessidade de refletir sobre nosso direito à comida e à luta contra fome, retomei estes dias uma leitura interessante.

Retomei o livro de Charles Elmé Francatelli, uma preciosa obra escrita em 1861, com um singular título: "UM SIMPLES LIVRO DE CULINÁRIA PARA AS CLASSES TRABALHADORAS". Encontrei esse pequeno livro em um sebo há muito tempo atrás, e foi esse título que chamou minha atenção.


Primeiro por ser um livro destinava receitas de uma economia alimentar específico para os trabalhadores, e pelo resumo de contracapa ficava ainda mais atraente, segundo o autor: "Meu objetivo a escrever este pequeno livro é mostrar como você pode preparar e cozinhar seu alimento diário obtendo a maior quantidade de nutrientes e gastando o menos possível; assim, com perícia e economia, aumentam, ao mesmo tempo seu conforto e seus recursos minguados...".

Em nosso mundo atual, talvez, esse escritor-cozinheiro real, que trabalhou, no alto da escala, como ex-maítre de hotel e cozinheiro-chefe de sua graciosa majestade, a Rainha Vitória, encontraria eco e apoio para uma "omelete popular", feita economicamente com ovos de codorna. Ainda temos, após séculos,as classes trabalhadores passando pelos mesmos estereótipos e estigmas da Inglaterra vitoriana.

Há ainda uma visão preconceituosa, que não deixamos transparecer todo o tempo, sobre a relação comida, valor dos alimentos, poder aquisitivo e classe social.
Na época vitoriana escrever um livro somente para a classe dos trabalhadores tinha uma certa 'elegância' do autor, já que cozinhava preferencialmente para os lordes. Na Inglaterra no século XIX, os negros, os irlandeses, os que estivessem em classe inferiores eram considerados irracionais. Segundo a apresentação do livro: "Dizia-se que apresentavam comportamento infantil, eram pouco razoáveis, não tinham qualquer noção de propriedade privada, andavam sujos e se preocupavam excessivamente com sexo...".

Caso atualizássemos este discurso e modelização do que são os 'pobres' e os ' marginalizados', veríamos, com quase toda certeza, a similitude de uma massa de trabalhadores ou de desempregados que, em função de suas desigualdades sociais e da chamada exclusão social, continuam sendo assim 'classificados', donde ainda serem apenas comedores de 'arroz com feijão', quando estes grãos estão nos seus pratos.

Em 2009 um relatório da ONU sobre o direito à comida nos dizia que a causa principal da fome, dos 967 milhões de habitantes da Terra, não é a escassez de comida, mas sim a falta de poder de compra dos pobres e vulneráveis. Pensando no livro de Charles Francatelli, seria, então, irônico que uma nova edição atualizada por algum mestre-Ratatouille nos viesse ensinar como economizar comendo os talos de vegetais,cabeças de peixes, as partes "descartáveis" de algumas carnes ou mesmo as cascas dos ovos.

NÃO TEMOS ESCASSEZ DE PRODUÇÃO DE ALIMENTOS, e o agrobusiness confirma, apesar de sua concentração na soja, no milho ou em outras lavouras ou gados mais rentáveis. Temos é a urgência de uma nova concepção de valor sobre o direito à comida e a uma alimentação 'sustentada', não apenas por 'bolsas alimentação', mas, primordialmente, pela garantia do direito de 'ganhar o pão de cada dia', com trabalho digno e remuneração mais digna ainda. Um outro modo de ter o trabalho garantido às massas marginalizadas ou consideradas, vitorianamente, ainda subalternas. TEMOS, SIM, SUPERAVIT DE PRECONCEITOS E DESFILIAÇÃO SOCIAL.

Nesse sentido é que mando um breve recado ao Sr. Boris Casoy, cujo vazamento ilustrou nossa passagem ao 'ato falho', lembrando-lhe que foram uns sujeitos meio-sujos e com uniformes de lixeiros, que passaram pela madrugada, inteira, limpando os restos das festas do Ano Novo, regadas a champanhe  bons petiscos, perus, chesters e, quem sabe, até o suposto alimento nobre dos ricos: o caviar.

Provavelmente a lata de lixo deste repórter e sua Band foi motivo de uma boa limpeza pelos trabalhadores do lixão...mas seria melhor aproveitada se lá aplicássemos as receitas do mestre Francatelli. Os restos de preconceito ou de discriminação também podem ser melhor "digeridos" se forem devidamente cozidos com bom tempero de reflexão sobre o que temos de Casoy/Band/Global em cada um de nós. Os mais baixos da escala do trabalho limpam os estúdios das televisões que, vez por outra, deixam à flor da pele nossas repulsas, por exemplo, pelos que cuidam de nossos lixos, inclusive os restos alimentares. O que comem os garis? o que eles podem comer?

Por isso não consigo ver o livro citado como uma obra para ser lida apenas pelos "sujos, feios ou malvados" (citação ao filme de Ettore Scola). O Sr. Francatelli começa suas receitas com um prato que, a meu ver, faz parte do cardápio da maioria das classes trabalhadoras ou não: Carne Cozida.
E ele orienta:
"Esta receita é para um jantar econômico, em especial quando há muitas bocas para alimentar, consequentemente, dentro de seus recursos. Compre algumas libras (uma libra equivale a 453,59 gramas) de peito salgado, barrigueira grossa ou fina, ou anca de boi (esses cortes sempre são obtidos a preço baixo)... Isso produziria um jantar substancial para dez pessoas e, além do mais, como crianças não necessitam de muita carne, quando comem chouriço, haveria sobras suficientes para o jantar do dia seguinte, com batatas..." (pág. 17)

Eu sou do tempo em que ir à praia e levar alimentos não configurava uma 'gafe social'
. Ou então, com saudosa memória, ir ao cinema com meu avô, e levar deliciosos sanduíches de mortadela ou presunto e queijo, que saciavam minha fome de duas artes: os filmes e sua proximidade afetiva.

Aprendi com ele a valorizar tudo que emanava da cultura popular, dos chamados farofeiros da praia, dos alimentos vendidos em feiras populares e quitandas, passando pelo memorável Mazzaropi e a vida rural, até pirulitos e canudos de doce de leite que se vendiam nos espetáculos de circo. Talvez venha dessa herança cultural um respeito ao direito de comer do 'melhor' mesmo estando 'na pior', qual uma "Festa de Babette", onde convidamos, sem discriminação todos e todas, independentemente de sua condição social, para sentarem e aproveitarem de uma boa mesa, de um bom prato.

Dirijo então, após estas digressões, algumas dúvidas sobre a afirmação de que somos o que comemos. Talvez isso tenha um valor biológico ou nutricional, em termos de saúde. Porém sociológica e transculturalmente, a partir da produção de subjetividade vitoriana que está no livro, acho que temos de responder se: só continuamos comendo, inclusive na comilança televisiva e midiática, o que nos dizem que nos torna menos 'desclassificados', gerando uma aspiração de sermos uma elite que só se alimenta de pratos refinados e/ou muito caros? ou então de sermos doutrinados para a negação dessa massa de famélicos e famigerados que permanece sem o direito à um prato mínimo de comida das classes trabalhadoras...

Com o fogão dos pobres e a panela vazia, o Sr. Francatelli, podia ser convidado para um programa de TV da Ana Maria Braga, do Olivier Anquier, do Claude Troigois, ou do SuperPop.... Talvez, após ser decretada a 'comida para todos', sem discriminação de classe social, tenhamos menos desnutridos pedindo moedas nas esquinas depois... sua fome de justiça alimentar teria sido saciada, mas somente esta.

A quem se destinaria, a que classe social ou do trabalho, hoje, um livro de culinária sobre o direito humano de comer, com alegria, sabor e desejo? apenas aos gastrônomos e aos que 'sabem comer' porque podem ou são refinados?

jorgemarciopereiradeandrade copyright 2010-2011 (favor citar a fonte para a livre difusão e socialização do texto)

Fonte principal - Um Simples Livro de Culinária para as Classes Trabalhadoras - Charles Elmé Francatelli - Editora ANGRA, São Paulo, SP, 2001.The Cooks Guide (1861) - http://www.thecooksguide.com/articles/francatelli.html

A FESTA DE BABETTE (filme de 1987) - http://www.sensibilidadeesabor.com.br/festadebabette.html

DIREITO À COMIDA É CRUCIAL - http://www.unmultimedia.org/radio/portuguese/detail/160544.html

EDUCAÇÃO E DIREITO Á ALIMENTAÇÃO - http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142007000200010&lng=pt

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

SHOPPING TAMBÉM PODIA TER UM AVATAR?

ACESSIBILIDADE

Imagem publicada -uma personagem do filme AVATAR (James Cameron), denominada Neytiri, interpretada pela atriz Zoe Saldana, uma princesa do Clã Omaticaya, que representa a visão feminina do mundo em sintonia do planeta Pandora nesta película, a qual, para os amigos e amigas cegos, descrevo-a como uma humanóide de cabelos trançados, como os de negros rastafaris, com o rosto de olhos grandes, vivos e penetrantes, além de orelhas pronunciadas e pontiagudas, com um tipo de cor da pele azulada e brilhante, com uma sequência de pontos brilhantes que distinguem seu rosto como uma pintura indígena)

InfoAtivoDefnet 4325 - ANO 14 - 04 de Janeiro de 2010
ACESSIBILIDADE EM QUESTÃO

Após longo período, alguns meses com certeza, estive afastado das grandes telas. Estive sem poder ir a um cinema, e assistir em tela ampla o que tanto amo. Este fim de semana escolhi um filme e um local para ver uma 'boa fita', como se dizia antigamente. Escolhi a obra de James Cameron que nos traz alguém que também 'anda', ficcionalmente sonhando com outros vôos: a história do militar Jake Sulli, um fuzileiro naval paraplégico que ocupará o lugar do irmão morto em ação futurista de mercenários em um planeta chamado Pandora.

E lhes digo gostei profundamente da experiência do 3D e da mensagem sobre a sustentatibilidade em rede de um planeta, que se interliga com uma rede neural em todos os sentidos, um reverso da caixa de Pandora: quase um paraíso com um povo que ainda usa arcos e flechas. E pedem desculpas ao abater um ser vivo para sua sobrevivência, ou seja os Na'vvi poderiam muito bem ser comparados a aborígenes da Austrália, algumas tribos da África ou alguns dos nossos índios do Xingu..., muito antes da chegada dos seus colonizadores e genocidas.

Mas para ir ao cinema é preciso chegar à sua sala de projeção. E aí começa a minha 'estória' sobre a possibilidade de criar um "avatar", um ser copiado do original mas que poderia ser aprimorado e "humanizado", como no filme. Esta ficção científica sobre corpos geneticamente modificados, porém controlados e monitorados a distância, com a finalidade de invasão de um território florestal de 'nativos' deste planeta, me atraiu para uma aventura em um shopping, que, como na tela, também tem muitas questões e falhas graves no campo da sua acessibilidade.

Fiquei muito aborrecido com a chegada ao Shopping Dom Pedro, que se diz o maior shopping da América Latina. Talvez seja esse gigantismo que explicará o que encontrei de barreiras ainda em ação. Ao chegar no estacionamento me deparo com jovens que, acriticamente e sem serem importunados, estavam 'guardando' para outros jovens as vagas de pessoas com deficiência e de idosos. Estavam, como é comum em outros espaços públicos, estacionando seus carros em vagas que são, por lei, destinadas a quem necessita delas.

Consigo entrar no meio da multidão. Caminho usando meu andador e bengala, na entrada das Águas, que é onde se encontram as cadeiras de rodas e os scooters (cadeiras motorizadas), que poderiam ser as montanhas suspensas e suas cascatas do Avatar. Vamos em busca de uma cadeira de rodas, pois depois de ficar um bom tempo deitado e com dores, ela é indispensável para um espaço como esse. Além do mais ainda estou em reabilitação pós-cirúrgica, aprendendo a conviver com os meus parafusos de titânio. Aí ampliou-se a minha indignação, pois em um dia de sábado, com mais de não sei quantas mil pessoas lá, sou informado, de forma seca e simples, que "não temos mais cadeiras motorizadas... só temos 08... e estão todas ocupadas...".

Após alguma relutância vou procurar uma cadeira de rodas simples, e encontro uma. Nesse momento chega uma pessoa, sentada em uma cadeira motorizada, empurrada por um segurança, pois a bateria do scooter tinha acabado: portanto restavam agora na área do shopping apenas 07 cadeiras motorizadas. E ao retirar a cadeira de rodas, a última, não restavam, àquela hora, 13 horas, mais nenhuma outra para quem chegasse naquele local (o único com estas 08 cadeiras em todo o shopping). Façam uma rápida conta de proporcionalidade da multidão e do número de cadeiras!

Como já havia participado de uma iniciativa importante do CVI Campinas, há alguns anos atrás, com palestras sobre a questão da pessoa com deficiência e sua acessibilidade nesse mesmo shopping, resolvi ir até a Administração. Mais uma surpresa me aguardava no trajeto. O elevador "social" estava em "manutenção", donde termos de andar um bom pedaço até encontrar uma possível solução para descer até a àrea de alimentação e sua praça, assim como a administração e a bilheteria do cinema. 

Cheguei até a pensar nas escadas rolantes... mas como seria útil agora um elevador específico para cadeiras de rodas, daqueles que até alguns clubes, bancos e outros locais públicos já colocaram.
Mais uma vez experimentei a solução de outros locais públicos onde já discuti e/ou falei sobre acessibilidade: a saída do elevador de serviços.

E lá fomos nós, eu, o andador, a bengala e a cadeira de rodas rudimentar sendo empurrados por longos corredores nas entranhas do shopping. Pensei com os meus botões e colete, como seria bom agora se o segurança que nos acompanhava, tivesse sido um dos alunos do tempo das palestras do CVI por lá. Mas para começar tinha sido difícil encontrá-lo lá fora, e sua atitude era apenas de proteção do local. Como disse minha filha: "por sorte acabamos na entrada do cinema...". 

Mas fiz questão de ir até a Administração, para registrar minhas queixas e sugestões. Acabei no Fraldário, não para me trocar ou pegar fraldas, mas porque ele fica em frente à Administração que estava fechada. Deixei por escrito junto à recepção do Fraldário a minha reclamação em papel do S.A.C, já comunicando que iria escrever em outros espaços públicos sobre essa 'carência' de recursos de acessibilidade em um shopping desse porte e de tanta fama.

Diante do ocorrido um pouco da alegria de ir ao cinema se esvaiu. Por sorte, como disse a minha filha, o James Cameron, nos apresenta um belíssimo filme. A 'natureza' criada é realmente paradisíaca, quase um mundo virtual onde todos, se nos tornarem avatares, talvez um dia, gostaríamos de viver aquela aventura. 

Mas a realidade de um mega-shopping e suas barreiras, inclusive as humanas, nos traz de volta à dura realidade: muito embora tenhamos avançado muito no campo dos direitos de pessoas com deficiência ou mesmo com imobilidade temporária, bem como outras situações como a obesidade, o nanismo, as gestantes e os idosos, ainda temos muito a conquistar e afirmar, principalmente na garantia de acesso e uso de espaços públicos como os shoppings.

Ficaram em mim algumas indagações sobre possíveis ações a realizar junto a este Shopping. Outro dia li que pessoas defensoras de direitos humanos estavam protestando ativamente diante do Carrefour, aqui em Campinas, contra a discriminação que duas mulheres sofreram por causa de homofobia. Será que precisamos deste tipo de ação? Como mobilizar as pessoas que administram um enorme 'exército-empresa', como o do filme, que ainda pensam primeiro no lucro e na segurança e depois, quem sabe, na humanização de seus cuidados com seus cidadãos e cidadãs consumidores?

Como sedimentar na cultura de todos nós, dentro desse modelo de avalanche de consumo, com uma massa em deslocamento voraz e individualista, de uma outra forma de convívio, lazer e prazer de uso destas babéis de compras e diversão?

Quantos são, nos 365.900 m² (veja abaixo a área de lojas que os administradores do Shopping Dom Pedro possuem em 10 shoppings, só no Brasil), os milímetros de solidariedade, respeito, afirmação de direitos e de aprendizagem de cidadania, para além das vagas especiais, que conseguiremos implantar e consolidar entre nossos jovens no futuro? Conseguiremos a abertura de espaço junto a estes adminstradores para que os CVIs e outras associações, por todo o país, possam ir tentar e, ativamente, persistir na afirmação e conscientização ampliada da acessibilidade e do desenho universal nos shoppings?

 Não seria interessante lembrar que os carrinhos de bebê que encontrei percorrendo as 'entranhas' de serviço do shopping, serão os futuros jovens nas praças de alimentação, lojas, cinemas e outros locais do shopping? E se esses bebês já estiverem dotados da memória neuro-científica e ficcional dos personagens do filme Avatar, será que eles preferirão o shopping e suas atuais configurações e barreiras ou um outro modo de vida e de consumo?

Por isso sugiro que todos e todas tenhamos menos passividade e mais incômodo ao nos depararmos com estas situações dos locais públicos. Não gosto da ideia de que não temos mais cinemas fora de shoppings, hoje tornados em templos e assembleias evangélicas doutrinantes. Ainda considero o cinema um bom espaço para diversão, para a arte, para o sonho em que o espectador sabe que sonha. O cinema, mesmo dentro dos shoppings, pode ser um excelente espaço para a reflexão e a crítica sobre os tempos em que vivemos, assim como para sonharmos um tempo em que ainda queremos viver: com o máximo de acessibilidade e de respeito às diferenças.

Que tal criar um Shopping, que além de "amigo do meio ambiente", com responsabilidade social, também possa se tornar um "shopping acessível e universal", já que sua economia, segurança e manutenção dependem, no presente e no futuro, desses possíveis consumidores e seus avatares em cadeiras de rodas ou em outras situações de incapacidade ou deficiência, ou mesmo em carrinhos de bebê??

Vamos inventar uma máquina desejante que invada os shoppings e lhes traga uma compreensão não utilitarista e apenas hipercapitalista, pois sem espectadores até mesmo o cinema perde seu sentido... e para se ver um espetáculo há que se remover e demolir quaisquer barreiras que impeçam a beleza... Não se constroem shoppings em 'desertos' de consumo...

Por isso está na hora de ir despertar o Avatar do Parque Dom Pedro Shopping... com apoio da Doutora Augustine, personagem interpretado pela Sigourney Weaver (Ex-Alien), a quase-ecosófica botânica que descortina a rede de sustentabilidade de vida daquele planeta, que poderá lhes apontar a sustentabilidade futura ou a terminalidade, em muitas línguas, dos espaços de consumo e lazer.

AVISO AOS NA'VI-CADEIRANTES - ao ir aos Shopping Centers, bem-humorados, levem suas próprias cadeiras de rodas (não-descartáveis) e comuniquem aos administradores que irão invadir o seu planeta Comércio, com a Companhia Alada dos Na'vi-Cegos que desejam assistir com AUDIODESCRIÇÃO todos os filmes em cartaz, além de invadirem as livrarias em busca de livros acessíveis... ACESSIBILIDADE NÃO É CONCESSÃO É UM DIREITO...

jorgemarciopereiradeandrade copyright 2010-2011 (favor difundir e citar a(s) fonte(s) como socialização de informações)

INFORMAÇÕES de bordo para quem quiser enviar suas sugestões aos administradores de SHOPPING CENTERS, indo em busca de mudanças em seus espaços:
Parque Shopping Dom Pedro - http://www.parquedpedro.com.br/

"A Sonae Sierra Brasil (http://www.sonaesierra.com.br/) é uma empresa especialista em shopping centers com expertise de sócios internacionais: a européia Sonae Sierra e a americana DDR (Developers Diversified Realty). A empresa é proprietária e administradora de 10 shoppings em operação: Penha, Plaza Sul, Campo Limpo e Boavista (São Paulo-SP); Pátio Brasil (Brasília-DF); Franca Shopping (Franca-SP); Tivoli Shopping (Santa Bárbara D'Oeste-SP); Shopping Metrópole (São Bernardo do Campo-SP) Parque D. Pedro Shopping (Campinas-SP) e Manauara Shopping (Manaus-AM), totalizando 365.900m2 de área bruta locável (ABL)".

FONTES SOBRE A SONAE SIERRA:
http://www.sonaesierra.com.br/pt-BR/aboutus.aspxhttp://www.sonaesierra.com.br/pt-BR/pressroom/news/2009/1001/Sonae_Sierra_Brasil_premia_lojistas_por_excelentes_padr_es_de_Seguran_a_e_Sa_de.aspx

Veja(m) matéria,publicada pela Rede SACI, sobre uma reclamação feita em 2004, ao Shopping, por uma pessoa que diz: "Fui ao Shopping Dom Pedro [Campinas/SP], e de quatro cadeiras motorizadas que dizem ter, duas estavam em manutenção, uma estava lá mas quebrada e a outra sendo utilizada por um cliente. Imagino que estavam circulando lá dentro, naquele momento, mais de 10 mil pessoas. Todas as cadeiras convencionais estavam sendo utilizadas..."- no site: http://saci.org.br/index.php?modulo=akemi&parametro=14139

Para quem quiser ler uma boa matéria sobre o filme indico: http://www.educacaoeciberespaco.net/blog/?p=790


PANDORA - segundo a mitologia grega foi a primeira mulher criada por Zeus, que trazia consigo uma 'caixa' que não deveria ser aberta, mas que lá, além de todos os males destinados aos mortais, trazia também uma única qualidade: a Esperança. ver em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Pandora.


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ONDE VIVEM OS MONSTROS? SHOPPING NÃO TEM AVATAR... http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/02/onde-vivem-os-monstros-shopping-nao-tem.html