sábado, 26 de junho de 2010

SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS COMO DESAFIO ÉTICO PARA A CIDADANIA


IMAGEM PUBLICADA _ A foto publicada no Correio Popular (Campinas- 21/05/2009) sobre Zaqueu, um rapaz de 25 anos, que foi enjaulado pelo pai, na cidade de Sumaré, SP, para "Para controlar o comportamento agressivo causado por uma deficiência mental do jovem ", segundo a reportagem, que traz um pequeno exemplo de possíveis milhares de outros cidadãos e cidadãs que ainda experimentam o isolamento, o encarceramento e outros meios de contenção como recurso para os cuidados com seus transtornos mentais no Brasil. O cárcere construído pela própria família era justificado pela ausência de recursos financeiros dos mesmos, apesar do fato de Zaqueu ser encontrado sem roupas e com fome... um retrato 3x4, que merece ser ampliado, de uma realidade que muitos vivenciam no campo das deficiências intelectuais na Saúde Mental e dos seus Direitos Humanos.


Nesse período de calamidades pouco visíveis, apesar de midiatizadas, onde a fumaça dos fogos de artifício das torcidas escondem os escombros, sob o som ensurdecedor das vuvuzelas, trago aos leitores de meu blog um texto recente que foi escrito a pedido do Ministério da Saúde.

É um texto para apoio às discussões e deliberações a ocorrer na IV CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE MENTAL - INTERSETORIAL, que começa amanhã (27/06) em Brasília. Nele abordo um tema indispensável para esse momento Jabulani de ser e estar globalizado: os Direitos Humanos e sua transversalidade na Saúde, em especial em nossa Saúde Mental.


Reproduzo, então, um trecho sobre o histórico e a importância dos Direitos Humanos para esta Convenção Nacional de Saúde Mental. Hoje estou sem condições física para estar lá, não ter pude participar de seu processo democrático de escolha de delegados, minha saúde, ou melhor minhas condições físicas e atual situação de "colunável" me impedem algumas realizações. Porém, para além dessas limitações, fiz o máximo de esforço para que o tema dos Direitos Humanos sejam uma tônica atravessando todos os outros dois importantes eixos em pauta.


A vocês dedico este texto, todos e todas implicados com a Saúde coletiva e mental no Brasil, como estímulo para uma leitura crítica do momento que vivenciamos. Estou convicto que esta Convenção trará novos ares para o campo das práticas e do cotidiano dos diferentes equipamentos (CAPS, Serviços Residenciais Terapêuticos, Centros de Convivência, etc...) que fazem parte do processo de desinstitucionalização e deshospitalização da Reforma Psiquiátrica.

Meu desejo micropolítico é que, neste momento da história da Luta AntiManicomial, da Reforma Psiquiátrica e da Saúde Mental, fundamentados em Direitos Humanos vislumbremos outras cartografias e novas conquistas nos territórios, nas comunidades e nos municípios brasileiros. Que a partir de amanhã, o devir e o futuro sejam marcados pelo avanço e pela busca de soluções para os impasses e desafios éticos, bioéticos e, indispensavelmente, pelas mudanças de paradigmas na Saúde e suas políticas públicas estruturais no Brasil.

Aos que lá estarão como delegados, usuários, familiares ou convidados, envio o meu mais carinhoso e doce abraço. Saudações antimanicomiais e a afirmação de que a Saúde Mental é um direito de todos e, para além de um dever do Estado, é a permanente construção individual/coletiva de um modo de ser, estar e existir na diversidade e na adversidade, como nos disse Nietzsche: "... nós precisamos, para um novo fim, também de um novo meio, ou seja uma nova saúde, de uma saúde mais forte, mais engenhosa, mais tenaz, mais temerária, mais alegre, do que todas saúde que houve até agora...". ( A Gaia Ciência, livro V, Nós, os Sem Medo -1886)

Direitos Humanos e Cidadania
JORGE MARCIO PEREIRA DE ANDRADE

"Confesso-vos que não sei explicar como podem tratar de infelizes os meus loucos, sendo a loucura, como é, patrimônio universal da humanidade, e quando todos os mortais nascem, educam-se e se conformam com ela... " Erasmo de Rotterdam (Elogio da Loucura – 1511)

Histórico e características fundamentais


As violações de Direitos Humanos na Saúde Mental existem, existiram e algumas de suas formas sutis ou naturalizadas persistem. Somente isso já justificaria uma atenção e dedicação de espaços apenas para sua discussão e afirmação. Segundo Norberto Bobbio: “Os direitos nascem quando o aumento de poder do homem sobre o homem - que acompanha, inevitavelmente, o processo tecnológico (a capacidade de dominar a natureza e os outros homens)- ou cria novas ameaças à liberdade do indivíduo, ou permite novos remédios para suas indigências, afirmando, em seu Era dos Direitos, a necessidade atual de proteção dos Direitos Humanos, muito mais do que sua mera legislação.

Apesar dos quase 500 anos que nos separam de Erasmo de Rotterdam ainda persistem os estigmas e as segregações aplicadas aos sujeitos considerados loucos. Ainda se promovem reclusões, tratamentos forçados, internações e hospitalizações que não são regidas pelas mudanças de paradigmas e cuidados pelos quais tanto se lutou na busca da Reforma Psiquiátrica brasileira.


Ao se incluir os Direitos Humanos com um dos eixos principais da IV Conferência Nacional de Saúde Mental estar-se-ia reconhecendo sua importância e sua transversalidade pelos outros dois eixos principais. Tendo como definição que os Direitos Humanos são aquelas liberdades ou valores básicos que, de acordo com diferentes visões filosóficas, são inerentes a todas as pessoas baseados em sua condição humana, para lhes garantir uma vida digna. 

Desde sua criação como uma proposição universalista estes direitos devem ser garantidos, respeitados e promovidos pelos Estados. Nesse sentido é que a participação ativa do Governo, através da sua Secretaria de Direitos Humanos tem um papel a desempenhar e a ser valorizado, bem como afirmado e exigido por parte de todos os participantes deste importante acontecimento democrático.


A partir da compreensão de que os Direitos Humanos são garantias jurídicas que protegem às pessoas ou grupos de pessoas contra ações institucionalizadas dos governos ou seus agentes, seja na saúde pública ou privada, que possam, por exemplo, afetar ou restringir as liberdades fundamentais de pessoas com transtornos mentais, é que se faz necessário compreender algumas de suas principais características:

- são UNIVERSAIS, ou seja, devem proteger a todos os seres humanos sem exceção ou discriminação;


- são INALIENÁVEIS, ninguém pode renunciar a eles ou serem destituídos deles.

- são INTRANSFERÍVEIS, os direitos não podem ser transferíveis de uma pessoa para outra;

- são INDIVISÍVEIS E INTERDEPENDENTES, são indivisíveis por que mesmo divididos para sua melhor compreensão, são vistos em conjunto e são interdependentes devido ao fato de que ao serem efetivados estes direitos dependem uns dos outros;

- são IMPRESCRITÍVEIS, os direitos humanos não se perdem por decurso de prazo;

- são INVIOLÁVEIS, pela impossibilidade de desrespeito por determinações infraconstitucionais ou por atos de autoridades públicas, sob pena de responsabilização civil, administrativa e criminal;

- são EFETIVÁVEIS, portanto sua efetividade depende da atuação do Poder Público que tem o dever e a obrigação, particularmente os Estados e os seus agentes, no sentido de garantir sua realização, não se satisfazendo com o simples reconhecimento abstrato.


Portanto, o momento democrático promovido pela realização da IV Conferência Nacional de Saúde Mental – Intersetorial, com sua temporalidade separando-a da sua última realização por 09 anos, nos traz uma oportunidade única de refletirmos sobre a relação indissociável entre os Direitos Humanos e a Saúde. ...

INFOATIVO DEFNET 4438 - JUNHO DE 2010
copyright jorgemarciopereiradeandrade 2010-2011 ( favor citar a autoria e fontes na republicação e difusão livre pela internet)


LEIAM O TEXTO INTEGRAL NO LINK  ABAIXO:
http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/dhjorgemarcio.pdf

IV CONFERENCIA NACIONAL DE SAÚDE MENTAL - INTERSETORIAL, BRASÍLIA, DF, DE 27 A 01 DE JULHO, CENTRO DE CONVENÇÕES ULYSSES GUIMARÃES.

As Conferências de Saúde são fundamentais para a construção democrática das políticas públicas do Sistema Único de Saúde. A Saúde Mental já realizou três conferências setoriais, que produziram importantes deliberações que têm subsidiado a Política Nacional de Saúde Mental.
http://portal.saude.gov.br/portal/saude/visualizar_texto.cfm?idtxt=34077&janela=1

SOBRE ZAQUEU - indico o texto que escrevi na época: ENTRE JAULAS E EXCLUSÕES http://topicosemautismoeinclusao.blogspot.com/2009_05_01_archive.html

LEIA TAMBÉM NO BLOG -
O MANICÔMIO MORREU? PARA QUE O MANTEMOS VIVO EM NÓS?
https://infoativodefnet.blogspot.com.br/2015/05/o-manicomio-morreu-para-que-o-mantemos.html

quinta-feira, 17 de junho de 2010

MURDERBALL : QUANDO AS CADEIRAS DE RODAS SE CHOCAM... EM NÓS


Imagem publicada - cartaz do filme "Murderball, Paixão e Glória", indicado para o Oscar de melhor documentário em 2006,  tendo como protagonista principal Mark Zupan, um jovem norte americano  paraplégico em sua cadeira de rodas especial, com a bola deste jogo, que é o rugby em cadeiras de rodas. Hoje um esporte paralímpico, e que faz parte do documentário como um dos seus principais protagonistas nesse jogo, revelando ao mundo de pessoas não deficientes as potencialidades e habilidades imensas de quem aprende a superar quaisquer barreiras ou preconceitos. E quebra os modelos de heroísmo ou vilões que sempre foram impostos às pessoas com deficiência.

Eu confirmo que tenho um prazer enorme em assistir a documentários, e sei que muitos não gostam de seu estímulo realista e, muitas vezes,chocante.

Há alguns que conseguem além de chocar nos clamar por uma reflexão, para além do lugar de meros espectadores. Porém se chocar nossas consciências que se encontram adormecidas , no momento, pelos muitos meios de comunicação de massa voltados para um único esporte global: o futebol, já conseguirá nos lembrar de outras singularidades. Em tempos reality shows, convido aos meus leitores a nos chocarmos, em cadeiras de rodas, com um documentário onde há intensidade, afeto, agressividade, amizade e sexualidade em corpos ditos deficientes.

Vi um documentário de 2005, muito comentado no Festival de Sundance: Murderball, onde empolgou o público, ao conquistar mais este prêmio. É um documentário sobre a vida e as muitas emoções vivenciadas por jovens atletas de Rugby sobre cadeiras de rodas. O filme traz as disputas baseadas no mundo dos paraplégicos paraolímpicos e suas muitas 'humanidades', algumas por deficiências adquiridas na adolescência e outras vividas desde a infância.

Tive muitas sensações com este documentário devido à minha atual identificação projetiva com a perda de mobilidade, assim como com as mudanças que isso exerce no nosso inconsciente e no corpo. Pude ver como estes atletas utilizam suas cadeiras de rodas e seu próprios corpos para se manterem buscando outro sentido para suas vidas, para além de suas perdas. Eles demonstram as suas fragilidades também, mas se tornam mais fortes pelo sentido de grupalidade e amizade que seus times de rúgbi acabam gerando.

Murderball é o nome original de um esporte de contato, de 'full contact', ou seja os atletas devem se esforçar ao máximo para agressivamente derrubar outros oponentes, pela posse da bola em jogo. Hoje é chamado de 'quad rugby' e o documentário nos mostra duas equipes, uma norte-americana e outra canadense, disputando arduamente o caminho para as Paraolimpíadas de 2004 na Grécia.

Há um protagonista do documentário que nos afeta por sua determinação e desejo de vida, pois em seu acidente, após intensa embriaguez alcoólica e ficar por 13 horas aguardando socorro, nos fala da necessidade de resistir e de transmitir ao máximo esta determinação de sobreviver, vencer e ultrapassar barreiras. Ele tem um amigo que estava com ele no acidente, que é importante por sua revelação de como muitos se sentem diante de alguém com uma deficiência: com uma culpa mais imobilizante do que uma cadeira de rodas.

O tema da sexualidade&deficiências já está em evidência em nossos recentes lançamentos de livros, ou nos debates como o que virá sobre AIDS e deficiência, com um seminário sobre o tema, ver indicações abaixo. Este tema é uma das transversalidades em Murderball. Não há nem glamour nem mistificação, com uma abordagem simples e até didática, como a exibição do reaprendizado do autoerotismo e da busca de um novo olhar sobre o próprio corpo de quem está em cadeiras de rodas. Há momentos de humor e total descontração nessa visão do que algumas mulheres perguntam aos cadeirantes logo nos primeiros contatos.

Em tempos de futebol global, para este fim de semana verde-amarelo, com muitas surpresas a vivenciar, recomendo uma pausa para a reflexão sobre o mundo do 'para-desportos', assistam Murderball, a bola assassina de nossos corpos e mentes anestesiados... Pois, como diz um dos paraplégicos: - "não tem nada a ver com Olimpiadas Especiais..", que ainda, no processo de mudança de paradigmas, se destina aos que são considerados "deficientes intelectuais (mentais)", que podem e deverão ser parte ainda das "Olimpíadas", rompendo, no futuro, com o modelo idealizado de jogos de competição e liderança apenas para os corpos e mentes perfeitos e válidos.

Aí, possivelmente, teremos a ruptura e a mudança de um paradigma segregante e excludente, dentro e fora, dos campos, das quadras, das piscinas ou das pistas de atletismo, como Jesse Owens o fez em 1938 ao ganhar medalhas de ouro dentro de uma pista de atletismo cheia de suásticas nazistas.

Este atleta norteamericano e negro, obrigou a Hitler se curvar diante de uma realidade, qual um documentário, que rompeu com o ideal de homem ariano do nacional-socialismo. Mas mesmo medalhista de ouro ele não foi cumprimentado, na volta a seu país, os Estados Unidos, por seu presidente cadeirante, Franklin Delano Rossevelt.

Ele ainda continuava sendo segregado, incluído na ideia de raça. Ele, embora tornado um herói do Olimpo, compunham uma massa humana "diferente", sim como os outros negros do Alabama, que permaneciam como vidas nuas e cobaias para uma experiência grotesca  serem mantidos com sífilis não tradada para uma pesquisa científica sobre a evolução da doença. Estes tempos dos anos 30 duraram até os anos 70, quando o Estudo Tuskegee sobre sífilis ( 1932 - 1972) foi denunciado na mídia. Eis a encruzilhada entre a biopolítica, o biopoder e a bioética em todos os seus campos ou quadras.

Murderball, nascido nos anos 70 como um jogo agressivo e violento, onde cadeiras de rodas feitas especialmente para se chocarem, tornou-se o rugby em cadeiras de rodas das Paralimpíadas. Nossos outros jogos do Olimpo, se nos tornarem menos semi-deuses, em busca da nova suavidade até no choque entre nossas "cadeiras imóveis das emoções e das paixões", hoje e no futuro, talvez se choquem com nossos pre-conceitos. Murderball é uma boa opção para quem quiser reflexão, emoção, esporte e desejo de mudança de paradigmas, não sendo apenas mais um documentário sobre pessoas com deficiência física.

copyright jorgemarciopereiradeandrade 2010-2011 (favor citar a fonte e o autores, assim como obras citadas abaixo em republicação e difusãos livre pela Internet ou outros meios de comunicação)

DOCUMENTÁRIO - MURDERBALL (paixão e glória) - 
Direção:Henry Alex Rubin e Dana Adam Shapiro 2005 (EUA)
http://cinema2007.wordpress.com/2007/04/26/murderball-paixao-e-gloria/

Indicações de leitura :

Na Minha Cadeira ou na Sua? - Juliana Carvalho
http://www.deficientefisico.com/critica-do-livro-na-minha-cadeira-ou-na-tua/
Ética na Pesquisa - experiência de treinamento em países sul-africanos - Débora Diniz, Dirce Guillem, Ude Schuklenk (Eds.) - Letras Vivas & UNB - Brasília, 2005. (pág.76)

Seminário: “Ações e reflexões sobre Aids e deficiência: diferentes vozes” - 23 e 24 de junho de 2011 As inscrições devem ser feitas até 18 de junho, no site da APAE SP: www.apaesp.org.br

JESSE OWENS ( http://www.museudosesportes.com.br/noticia.php?id=11236 )

LEIA TAMBÉM NO MEU BLOG INFOATIVO.DEFNET - 
EM BUSCA DE UM CORPO "PERFEITO" PERDIDO, no tempo das Olimpíadas...   http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/08/em-busca-de-um-corpo-perfeito-perdido.html (onde falo de Oscar Pistorius, hoje em situação de desgraça e que não estará mais nessa busca, nesse frenesi da "perfeição", revelando-se apenas Humano, demasiadamente humano..., comentário acrescentado em 19/02/2013)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

AS SELEÇÕES: OS ESTÁDIOS, OS PARADIGMAS E UM NOVO GAME


Imagem publicada - O cartaz do filme Rollerball, os Gladiadores do Futuro (1975) que traz o ator James Caan, personagem principal do filme vestido com um capacete e com sua mão em riste, com uma luva cheia de pontas, como parte da "armadura" que os jogadores devem vestir, nessa distopia filmica que fala de um futuro (2005) onde não havendo mais guerras, os países seriam substituídos por corporações, e este game novo seria disputado em arenas lotadas, como um jogo violento que serviria para aliviar as tensões e controlar a população, demonstrando-se a futilidade do individualismo.


Em tempos de futebol global, de novas "cóleras étnicas" e novas administrações de combates estatais das epidemias planetárias, com o porquinho gripal nos ameaçando a vida, com um passado recente de uma outra gripe que batia asas e colocava os ovos de serpente dos fascismos, faz-se necessário retomar a questão da BIOPOLÍTICA.

A produção da homogeneidade não exige mudanças de paradigmas mas sim a sua conservação e institucionalização, quase sempre de forma sedutora e muito bem desejada pelas massas. Já lotamos estádios de futebol com milhares de corpos humanos, tanto para as Copas como para o emparedamento de chilenos na era Pinochet. O campo de disputa lúdica, hoje uma grande máquina-indústria esportiva, pode ser o mesmo para a eliminação da discordância ou dissidência política.

Bastou trocarmos as chuteiras por botas militares... a única diferença é o rumor de torcida que não se ouviu no controle autoritário e ditatorial de prisioneiros políticos, mas a bandeira da pátria tremulava, e alguma forma de biopolítica serviu para justificar a sua '' eliminação ", tudo em nome do nacionalismo.

Para ajudar na compreensão do que escrevi anteriormente na linha de cruzamento entre a Biopolítica e a Bioética, e devido à proximidade da IV Conferência Nacional de Saúde Mental, estou trazendo algumas linhas já escritas sobre a questão do Paradigma Biomédico questionando seus fundamentos, história, sua ligação com a Biopolítica e os questionamentos que devemos produzir.

É uma tentativa de lembrar que os nossos paradigmas, ou seja normas ou padrões, ao se tornarem instituídos, naturalizados e ‘cientificamente’ comprovados, muitos deles podem perder suas forças instituintes, seu potencial de sonho e transformação, tornando-se fechados e rígidos. Passam de possibilidades de avanço para uma confirmação de retrocesso.

O paradigma biomédico é historicamente ligado ao surgimento de uma concepção de ‘normatização da vida’, uma proposta que foi denominada de ‘biopolítica’ pelo pensador Michel Foucault. Este paradigma era fundamentado na visão fisicalista e orgânica da vida, como uma nascente de um modelo, nos fins do século XVIII, de administração e controle dos corpos e uma nova ‘gestão calculada’ da vida (Foucault, 1978).

Pela primeira vez nesse período da história, o biológico ingressa no registro da política: a vida entra, através de um esquadrimento estatístico, demográfico, uma concepção de doença e controle das epidemias, no espaço do controle do saber e da intervenção do poder estatal.

Os sujeitos, cidadãos e cidadãs, na qualidade de sujeitos de direitos, passam a ocupar um segundo plano em relação à preocupação política de maximizar o vigor e ‘não-doença’ (aqui um conceito próprio para não me referir à saúde, como nos termos atuais propostos pela OMS). Para Foucalt deveríamos, então, falar de uma ‘biopolítica’ para designar o que faz com que a vida e seus mecanismos possam entrar no domínio de cálculos explícitos, e o que transforma o saber-poder em um agente de transformação da vida humana.

Na biopolítica, os corpos e a população devem ser submetidos a um novo e sutil modo de controle. Passamos da Sociedade Disciplinar para a Sociedade do Controle. Viva o Big Brother dos corpos "saudáveis e válidos" que foram "selecionados". Para isso precisamos da naturalização de uma visão hegemônica e dominante da condição de ser, do homem e do conhecimento, que a História demonstra o quanto de exclusão, discriminação, segregação, racismos e eugenia puderam ser confirmados em fundamentos "científicos e biomédicos". Assim o Estado pode transformar muitas vidas humanas em "vidas nuas" (Giorgio Agamben).

Dentro dessa visão do Poder do Estado de Exceção é que podemos afirmar que um paradigma também é uma representação mental, socialmente aceita e legitimada, que se torna um marco conceitual para tudo o que pensamos, sentimos, fazemos ou dizemos. Passa ser o modo a partir do qual veremos a realidade, e, portanto, o substrato de nossas ações. Eis a Questão Humana?

Eis o momento ideal para o surgimento de nossas ‘cegueiras brancas’, como nos ensina e adverte Saramago. Bastará lembrarmos o que se constituiu o modelo biopolítico do Nacional Socialismo, da medicina nazista e fascista, que experimentou suas primeiras formas de controle, com extermínio e experimentações científicas, de milhares de pessoas com deficiência. Foram estas pessoas as primeiras, assim como ciganos e homossexuais, que sofreram os campos de extermínio e concentração, depois vieram os judeus, dissidentes políticos e demais ‘parasitas sociais’. A alegação principal é, eugenicamente, da ‘purificação da raça e da sociedade’.

Em seu nome temos uma transformação do corpo de todos os seres humanos, como nos transmitiu Bettelheim, transformados em “mercadoria’: “Tanto os campos de concentração quanto os de extermínio, e o que ocorria neles, era uma aplicação irracional do conceito de trabalho como uma mercadoria. Nos campos, não só o trabalho humano como a pessoa como um todo transformavam-se em mercadoria. As pessoas eram’ manuseadas’ como se fossem feitas de encomenda. Eram usadas e substituídas ao bel-prazer do freguês, no caso, o Estado. Quando não prestavam mais, eram jogadas fora, mas com cuidado, para que não se desperdiçasse nenhum material aproveitável...”.

No final do século XVIII, em passagem para o século XIX, houve uma ruptura de paradigma no interior do saber e da prática médica; a medicina segundo a conceituação de Foucault deixa de ser classificatória para tornar-se anátomo-clínica. Bichat, um anatomista, ao estudar as superfícies tissulares do corpo humano, inaugurou uma nova concepção, denominada por Foucault de ‘medicina moderna’. Nessa perspectiva, passa-se a pensar a doença como localizada no corpo humano, e a anatomia patológica, até então sem nenhuma função para uma medicina eminentemente erudita, insere-se na prática médica.

Uma das mais importantes vertentes do paradigma biomédico, no século XVIII para o XIX, que irá atravessar ‘corpos deficientes ou inválidos’, é a do higienismo, confirmada por Canguilhem em seus Escritos sobre a Medicina: “A vigilância e a melhoria das condições de vida foram o objeto de medidas e de regulamentos decididos pelo poder político solicitado e esclarecido pelos higienistas. Medicina e política, então, se encontraram em uma nova abordagem das doenças, da qual temos uma ilustração convincente na organização e nas práticas de hospitalização.”

Para este autor, analisando particularmente seu país, a França, no decorrer da Revolução, houve um empenho em substituir os hospícios, asilos de acolhimento de doentes quase sempre abandonados (os loucos de toda sorte, alienados, miseráveis, débeis mentais, bastardos, prostituídos, etc...) pelo local higienizado do hospital, assim como ‘uma máquina de curar’, onde estes sujeitos passam a ser catalogados, vigiados, cuidados e analisados. No século seguinte proliferaram os Tratados de higiene industrial, chegou o tempo de um paradigma biomédico preocupado com a saúde das populações operárias.

Hoje com o crescimento demográfico e as epidemiologias nossos olhares biopolíticos, sem o atravessamento crítico da bioética, pode ser desviado na direção de novas formas de controle e de escaneamento das maneiras "sadias" ou "ideais" de vida coletiva e produtiva. A minha/nossa medicina dos dias de hoje tem um compromisso bioético de rever as suas práticas ao estar mais a serviço do Estado do que chamamos de sujeitos, cidadãos e cidadãs.

A questão da Loucura e dos loucos, nesse momento da busca de uma afirmação de novas formas de cuidado e novas tecnologias para a transformação da promoção de saúde, nos deve inspirar um ativo cuidado ético e bioético com os paradigmas.

Ainda temos muitos desses ‘velhos’ paradigmas atravessando e transversalizando nossos novos modelos de prática na Saúde, na Educação e na formulação de políticas públicas. Somos nós, ainda, herdeiros de um modelo biomédico que negligencia as importantes contribuições do meio ambiente, das relações sociais e da existência de uma subjetividade singular, ao procuramos afirmar todas as nossas incapacidades, nossas deficiências, nossos corpos 'defeituosos', nossas mentes conturbadas e transtornadas, apenas dentro de uma visão quase exclusiva de explicações genéticas ou fisicalistas?

A que interesses estamos submetidos no mundo hipercapitalista das biotecnologias que, por exemplo, no campo dos sofrimentos psiquiátricos cada dia mais se produzem novos "diagnósticos", novas "terapêuticas", novas "medicações" e consequentemente novas formas de produção de subjetividade e de controle biopolítico desses corpos?

Então os anormais serão normatizados, todos os 'inválidos' serão reabilitados, e os matáveis poderão ser eliminados em um novo jogo de "roller ball"... VAMOS VESTIR NOSSAS CAMISAS/UNIFORMES PARA A PRÓXIMA SELEÇÃO? Dizem que o novo "game" se chama: "FAIXA DE GAZA".

EM TEMPO - este texto foi escrito após uma estimulante ajuda que prestei à minha filha de 09 anos em um exercício da sua escola sobre todos os Estádios de futebol da atual COPA MUNDIAL DE FUTEBOL na África do Sul, alguns desses estádios já foram palco do APARTHEID e de outras formas de utilização biopolítica pelos colonialistas em tempos pré-MANDELA.

 Aliás o Estadio Nelson Mandela não é que tem a maior capacidade de público ou de superpopulação. Podemos também não esquecer que em 1978, a setecentos metros do estádio, encontramos a Escola da Armada, hoje um arquivo da Memória da Ditadura Argentina, onde os gols foram ouvidos pelos muitos torturados, depois assassinados, assim como pelos seus algozes e torturadores. E, há registros históricos, de que, nessa época, contavam com o apoio irrestrito de nossos dirigentes ligados à Fifa... enquanto a bola rolava também se aplicavam choques elétricos nos prisioneiros dessa "Escola"...

copyright jorgemarciopereiradeandrade 2010/2011(favor citar a autoria e as fontes indicadas na republicação e multiplicação livre pela Internet)

INDICAÇÕES de leitura:
Nascimento da Biopolítica - Michel Foucault - Ed.Martins Fontes - São Paulo-2008
O Poder Psiquiátrico - Michel Foucault - Ed. Martins Fontes - São Paulo - 2006
Homo Sacer - o poder soberano e a vida nua - Giorgio Agamben - Ed. UFMG - Belo Horizonte - 2007

Referências no texto:
Bettelheim, Bruno, O Coração Informado – autonomia na era da massificação, Rio de Janeiro, RJ, Editora Paz e Terra, 1985.
Canguillem, Georges, Escritos sobre Medicina, Rio de Janeiro, RJ, Ed. Forense Universitária, 2005.
Ortega, Francisco, Biopolíticas da Saúde: reflexões a partir de Michel Foucault, Agnes Heller e Hannah Arendt, Revista Interfaces, Comunicação, Educação e Saúde, V. 8, Nº 14, pág. 9-20, set 2003-fev2004

Indicação de Filmes -
Rollerball - os Gladiadores do Futuro - Lançamento: 1975 - Direção: Norman Jewinson - Genero: ficção científica (?)
http://www.adorocinema.com/filmes/rollerball/

A Questão Humana - Lançamento: 2007 - Direção: Nicolas Klotz - Gênero: drama
http://omelete.com.br/cinema/a-questao-humana/

matéria publicada no informativo (também) - iNFO ATIVO 4421 junho 2010

LEIA TAMBÉM NO BLOG - 

A PARÁBOLA DA ROSA AZUL - http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/05/parabola-da-rosa-azul.html

RACISMOS, BARBÁRIES, FUTEBOL... ONDE SE ENTRECRUZAM AS VIOLÊNCIAS SOCIAIS? 
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2014/05/racismos-barbaries-futebol-onde.html

DEMOLINDO PRECONCEITOS, RE-CONHECENDO A INTOLERÂNCIA E A DESINFORMAÇÃO
http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/06/demolindo-preconceitos-re-conhecendo.html